Do líder ao estagiário: a importância da marca pessoal para crescer na carreira
Quando há reconhecimento de valor, a reputação deixa de ser atributo individual e se torna um ativo estratégico para as empresas, time e projetos.
Ninguém começa a construir uma marca pessoal do zero. “Ela já existe e está na forma como as pessoas te percebem: como você entrega os resultados, reage a desafios, se relaciona”, segundo Giuliana Tranquilini, sócia-proprietária da BetaFly, consultoria em gestão de marca corporativa e pessoal. O que muda ao longo da carreira, explica ela, é a consciência sobre isso e a forma de lapidar e direcionar essa percepção para que a marca reflita quem é o profissional e o impacto que quer gerar.
Nos dias atuais, a executiva diz que é comum as pessoas associarem marca pessoal apenas à produção de conteúdo nas redes sociais – canais de expressão relevantes, porém, não o único caminho. “A marca começa no dia a dia: na forma como você contribui em reuniões, comunica suas ideias, resolve problemas, lidera ou colabora. O conteúdo amplifica essa percepção, mas não a substitui”.
Para quem está começando, os episódios de tentativa e erros ao longo da carreira podem diminuir. “Trabalhar a marca cedo é como ter um mapa com um passo a passo para atingir o objetivo. Ajuda a entender o que faz sentido priorizar, a escolher caminhos com mais intenção e a reforçar comportamentos que vão sustentar o crescimento”.
Para os executivos, Giuliana acredita que é a marca pessoal que diferencia os líderes que ocupam um cargo daqueles que, além disso, inspiram pessoas, atraem convites estratégicos e influenciam o mercado. “É quando a trajetória deixa de ser apenas sobre funções e passa a ser sobre o impacto que você gera e o momento que você consegue mudar este jogo. É quando a sua história está em suas mãos”.
Autoconhecimento para ser autêntico
Segundo o conselheiro e professor Ângelo Vieira Jr., o primeiro passo para a construção de uma presença autêntica, tanto para líderes quanto estagiários, é o autoconhecimento – que, de acordo com o jornalista e psicólogo Daniel Goleman, referência no tema, é uma das bases da inteligência emocional. “Quando o profissional compreende a própria narrativa, valores e estilo cognitivo, ele transforma a marca pessoal em vetor de confiança e relevância”.
Não por acaso, estudiosos do futuro do trabalho, como Amy Edmondson, da Harvard Business School, apontam a transparência e a vulnerabilidade autêntica como sinais de liderança adaptativa, e não fraquezas a esconder. “Nesse contexto, o crescimento na carreira deixa de ser uma escada e torna-se um ecossistema de reputação”, reflete o professor. “A visibilidade passa a ser consequência de consistência: quem articula propósito com entrega cria capital simbólico sustentável”, completa.
O executivo acrescenta ainda que, para líderes, a marca pessoal é instrumento de influência sistêmica, uma linguagem que conecta pessoas, culturas e inovação. Já para os mais jovens é o antídoto contra a invisibilidade em estruturas fluidas e digitais. “Em ambos os casos, trata-se de alinhar ‘quem eu sou’, ‘o que entrego’ e ‘o que os futuros precisam de mim’”, explica ele e conclui: “Em um mundo onde a identidade se tornou infraestrutura, investir na marca pessoal é investir em humanidade estratégica.”
Giuliana concorda: o primeiro passo é ter consciência do próprio valor. “Parece simples, mas vejo muitos profissionais, inclusive altos executivos, que se apequenam diante das circunstâncias, deixam de trazer ideias, de se posicionar ou de ocupar um espaço de discussão porque acreditam que ‘ainda não é hora’”. Ou seja, a consciência seria a base para tudo, segundo ela. “Quando você sabe o que tem a contribuir, consegue comunicar isso com naturalidade e sem precisar parecer maior do que é”.
Atitudes que agregam valor
A seguir, a especialista da BetaFly descreve alguns comportamentos que podem fazer a diferença.
- Coerência: marca pessoal forte nasce da consistência entre discurso e prática. Líderes que mantêm os mesmos princípios em reuniões, conversas difíceis ou momentos de pressão constroem confiança – e são percebidos como sólidos e íntegros.
- Saber ocupar o próprio espaço: não é sobre falar mais, mas sobre ter presença e voz. Profissionais que defendem suas ideias, participam ativamente das discussões e assumem seu papel nas decisões, passam a ser reconhecidos como alguém que faz diferença.
- Comunicar com intenção estratégica: não basta ter uma lista de resultados incríveis. A comunicação precisa nascer da clareza interna sobre seus diferenciais e sobre o impacto que você quer gerar. Quando há essa consciência, o profissional consegue escolher o que dizer, quando dizer e de que forma, para inspirar, engajar e alinhar as pessoas ao redor.
- Curiosidade e colaboração: profissionais que continuam aprendendo, compartilham conhecimento e ajudam outros a crescer, constroem uma reputação que os acompanha em qualquer transição.
Falhas mais frequentes
De acordo com a executiva, há três erros que costumam se repetir, prejudicando a marca pessoal e, como consequência, o crescimento profissional.
- Incoerência: quando a comunicação diz uma coisa, mas as atitudes mostram outra. Isso prejudica a confiança. Não adianta falar sobre colaboração se, no dia a dia, a postura é competitiva ou defensiva. Precisa ter o “walk the talk”.
- Oportunismo: aparecer somente quando há algo a ganhar, em vez de cultivar relacionamentos de longo prazo. Vejo muitos profissionais que lembram do networking só quando precisam de um favor, ou quando estão em fase de transição e precisam ‘ativar’ os contatos….Networking deveria ser feito todos os dias, caso contrário enfraquece a reputação.
- Ficar na “sombra”: No mundo competitivo e conectado em que vivemos, quem não comunica, não se destaca, não aparece, não é lembrado. A comunicação não é autopromoção: é menos sobre você e mais sobre o valor que você gera (ou o problema que você resolve) para a empresa, seu time ou clientes.
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