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Conrado Schlochauer

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Doutor em Psicologia da Aprendizagem pela USP, sócio da nōvi – a lifewide learning company, e autor do livro "Lifelong Learners"

A inteligência artificial ajuda ou atrapalha o aprendizado adulto?

Não há tecnologia que substitua o que só dá para aprender vivendo: julgamento de contexto, empatia, criatividade que nasce das vivências e resiliência.

Por Conrado Schlochauer, colunista da VOCÊ RH
3 fev 2026, 15h01 •
Fotografia de um lápis apontado.
 (Freepik/Reprodução)
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  • Como a inteligência artificial generativa impacta a lógica do aprendizado contínuo? Praticamente toda semana, amigos e clientes me fazem perguntas como essa. Tenho estudado muito o assunto – e me observado também. Como quase tudo na sociedade atual, muitas análises que circulam por aí são binárias e pendulares. Quando vemos o vídeo do Sal Khan, no TED, achamos que a IA será a solução da educação no mundo. Por outro lado, as primeiras pesquisas sobre o impacto no lifelong learning e no aprendizado autodirigido causam certa preocupação. 

    Em 2025, dois pesquisadores da Universidade de Boise fizeram uma análise sistemática da relação entre inteligência artificial e lifelong learning. Parte de suas conclusões questiona “os paradigmas educacionais atuais diante de ferramentas baseadas em Gen IA que meramente entregam material em vez de estimular o pensamento crítico, a autorregulação e dedicar tempo ao aprendizado”.

    O fato é que, em 30 de novembro de 2022, o mundo do aprendizado começou a mudar. O lançamento do ChatGPT marcou um ponto de inflexão na curva da necessidade de aprendizado contínuo. Pela primeira vez, tínhamos uma tecnologia capaz de substituir humanos em habilidades cognitivas repetitivas de forma massiva e acessível. A inteligência artificial generativa se tornou extremamente popular não por ser ficção científica, mas por ser útil no presente.

    Sou usuário intenso dessas ferramentas. Não consigo mais imaginar minha prática profissional ou até o planejamento de uma viagem sem o apoio da IA. Mas, quanto mais uso essas tecnologias, mais clara fica uma distinção fundamental: existe um tipo de conhecimento que a IA pode processar, e existe outro que só podemos adquirir vivendo.

    O Fórum Econômico Mundial estima que 60% dos trabalhadores precisarão se requalificar até 2030. Mas há algo interessante nos novos percursos de aprendizagem propostos: eles não seguem à risca a cartilha do aprendizado formal. Há um chamado inequívoco para a valorização do aprendizado informal e incidental. Por quê? Porque as habilidades que vão diferenciar humanos de máquinas não são aquelas que você aprende em cursos estruturados.

    O que a IA resolve (e o que não)

    A inteligência artificial é extraordinária para processar informação, identificar padrões, gerar conteúdo e resolver problemas técnicos. Ela pode aprender com bilhões de exemplos e produzir resultados impressionantes em segundos. Mas existe uma categoria inteira de aprendizado que permanece inacessível para ela: aquele que emerge da experiência vivida, do erro experimentado, da conversa que te desestabiliza ou do encontro fortuito que muda sua perspectiva.

    Quando você erra em um projeto e precisa lidar com as consequências, aprende algo sobre resiliência, sobre suas próprias reações ao fracasso e sobre como se relaciona com feedbacks e crítica. Quando tem uma conversa difícil e sente o desconforto no estômago, aprende sobre vulnerabilidade e coragem de uma forma que nenhum eLearning pode ensinar. Quando viaja para um lugar completamente diferente e se sente perdido, aprende sobre adaptação na pele, de forma concreta.

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    Esse é o aprendizado incidental, aquele que ocorre como subproduto de nossas experiências, mesmo quando elas não miram na aprendizagem. E ele depende de algo que a IA não tem: um corpo, emoções, a necessidade de navegar por incertezas reais e a experiência de estar presente em um momento que não pode ser repetido.

    A armadilha do conforto algorítmico

    No exato momento em que mais precisamos desenvolver habilidades humanas distintivas, a tecnologia nos oferece a opção de evitar experiências desconfortáveis. Por que ter uma conversa difícil se você pode pedir para a IA redigir um email diplomático? Por que se expor ao constrangimento de não saber algo se você pode consultar instantaneamente qualquer informação?

    A IA está nos empurrando para um tipo específico de zona de conforto: aquela em que terceirizamos não apenas tarefas cognitivas, mas também oportunidades de crescimento. Cada vez que escolhemos a solução tecnológica em vez da experiência humana, estamos optando pela eficiência em detrimento do aprendizado incidental.

    Isso não é um argumento contra a tecnologia, claro. O ponto aqui é chamar atenção para a necessidade de reconhecer que a IA torna ainda mais valiosas as experiências que nenhuma ferramenta pode replicar. Se a máquina pode processar informação, nossa vantagem competitiva está em desenvolver as capacidades que emergem apenas da experiência vivida: julgamento contextual, empatia genuína, criatividade que nasce da combinação improvável de vivências, resiliência emocional e capacidade de navegar pela ambiguidade de um mundo cheio de contradições.

    Como desenvolver o que a IA não pode ensinar

    Para profissionais de RH e T&D, o lifewide learning representa uma mudança fundamental na forma como pensamos o desenvolvimento de adultos. Essa mudança está baseada no entendimento, validado por décadas de pesquisa, de que as 2 mil horas anuais que os colaboradores passam trabalhando são o verdadeiro território de aprendizado. Devemos abandonar os programas estruturados? Não. Precisamos reconhecer que eles não são o centro da aprendizagem, mas apenas uma parte de um ecossistema muito mais amplo.

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    Levar o lifewide learning a sério exige mexer no desenho do trabalho real. Há práticas concretas que ajudam a transformar o cotidiano em um espaço mais fértil de aprendizagem.

    Primeiro, redesenhe os ambientes de trabalho como espaços de exploração. Pare de penalizar a curiosidade e comece a criar condições para que ela floresça. Isso pode se traduzir em projetos que deliberadamente misturem pessoas de áreas diferentes,  em rituais em que estagiários apresentam suas perspectivas para executivos e no incentivo a conversas entre quem pensa radicalmente diferente.

    A pesquisadora Gillian Sandstrom descobriu que conversas com estranhos expandem nossa capacidade de lidar com o inesperado. Nas organizações, “estranhos” são aquelas pessoas de outras áreas que nunca se falam. Sua job rotation pode ser uma rotação de almoços. Seu programa de desenvolvimento pode incluir “expedições antropológicas” em que as pessoas observam outras áreas trabalhando. A IA pode simular conversas, mas não pode substituir a imprevisibilidade de encontros humanos reais.

    Segundo, legitime experiências fora do trabalho como parte do desenvolvimento profissional. Estudos demonstram que consumir arte – seja visitando exposições, assistindo a espetáculos ou praticando atividades artísticas – gera mudanças neurobiológicas que influenciam a maneira como sentimos, pensamos e nos comportamos. Isso não é “benefício cultural” ou “qualidade de vida”. É desenvolvimento de competências críticas: criatividade, pensamento divergente e capacidade de lidar com ambiguidade, por exemplo.

    Na prática, isso implica ampliar o que a organização reconhece como investimento em desenvolvimento. Orçamentos que contemplam experiências culturais, e não apenas cursos formais, partem do mesmo princípio que reconhece atividades extracurriculares (como o stand-up, a fotografia ou a escrita) como espaços legítimos de desenvolvimento de competências complexas. Iniciativas como clubes de leitura ou expedições culturais deixam de ser atividades paralelas e passam a ocupar o mesmo estatuto simbólico de um programa de liderança.

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    Terceiro, cultive o presentismo nas práticas de trabalho. Quando o ChatGPT foi lançado, muitos profissionais de T&D entraram em pânico ou demonstraram empolgação excessiva. O presentismo é a arte de estar curioso e atento ao que ocorre no presente, sem a ansiedade de adivinhar o futuro. Isso se traduz em experimentar novas ferramentas à medida que surgem, observar como seu time as usa e ajustar continuamente.

    O presentismo nos convida a parar de perseguir a “próxima grande disrupção” e a prestar atenção ao aprendizado que já está acontecendo (ou sendo desperdiçado) no cotidiano. Ele também nos encoraja a criar espaços nos quais as pessoas possam processar suas experiências e valorizar a reflexão tanto quanto a ação. De preferência, sem telas.

    Quarto, transforme a maneira como a cultura da sua organização lida com o erro. O aprendizado mais transformador vem de experiências que não escolheríamos se pudéssemos evitar. Logo, se a cultura organizacional penaliza falhas, você está bloqueando a principal fonte de desenvolvimento humano que a IA nunca terá: a capacidade de errar, sentir o desconforto, aprender visceralmente e se reinventar.

    Celebrar a incompetência nunca é uma boa ideia, a sugestão não é essa. Precisamos, sim, de rituais em que as equipes possam compartilhar “autópsias sem culpa” de projetos que falharam. Da mesma forma, precisamos de sistemas de avaliação que reconheçam riscos calculados, não apenas sucessos garantidos. E as lideranças devem ser capazes de falar abertamente sobre seus próprios erros e sobre o que aprenderam.

    Quinto, construa rituais de reflexão no fluxo de trabalho. A IA pode resumir reuniões, mas não pode refletir sobre o que uma experiência significa. A metacognição – pensar sobre o próprio processo de aprendizado – é exclusivamente humana. E precisa de espaço e estrutura.

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    Quando reservamos espaço no fim de cada mês para analisar o que entregamos e revisitar o que foi aprendido, o que causou surpresa e o que poderia ter sido diferente, o aprendizado deixa de ser implícito. Diários de aprendizagem e retrospectivas orientadas à reflexão cumprem esse papel ao transformar vivências em repertório compartilhado.

    A pergunta essencial

    Obviamente, não devemos abandonar a IA. Mas, enquanto delegamos tarefas cognitivas para as máquinas, o que estamos fazendo com o tempo e a atenção liberados? Usamos essa liberdade para buscar mais eficiência e conforto? Ou estamos investindo em experiências humanas que desenvolvem capacidades insubstituíveis?

    O lifewide learning em tempos de IA passa por reconhecer que, justamente porque a tecnologia é tão boa no que faz, precisamos ser intencionais em cultivar o que só podemos aprender vivendo: a coragem de errar em público, a vulnerabilidade dos encontros genuínos, a sabedoria que emerge de navegar incertezas sem manual de instruções, a imaginação e a criatividade, entre tantas outras características humanas.

    O filósofo Jorge Larrosa identificou, há mais de duas décadas, que “nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara”. Ele estava falando do excesso de informação e da velocidade da vida moderna. Mas sua observação se aplica perfeitamente aos tempos de IA: podemos estar cercados de estímulos e ferramentas poderosas, mas ter cada vez menos experiências que genuinamente nos tocam e transformam.

    O papel do RH e do T&D, naturalmente, vai além de apenas fornecer conteúdo. Temos que criar as condições ambientais, culturais e estruturais para que o aprendizado incidental seja intencional, rico e transformador. A IA vai processar a informação. Vocês precisam cultivar a sabedoria que só vem de viver.

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    A vida sempre ensina. Você está de fato aprendendo com suas experiências ou está apenas terceirizando seu desenvolvimento para algoritmos?

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