Três perspectivas para reconstruir a confiança da equipe
O que líderes podem fazer para reduzir tensões e recuperar a vibe positiva depois de turbulências internas que afetam o time inteiro.
Recentemente, a equipe corporativa da The School of Life Brasil foi chamada para desenvolver um projeto bastante específico relacionado à mudança de gestão. O desafio era propor experiências de reconstrução da confiança de uma equipe. O motivo era a saída de um gestor com muitos anos de casa, demitido após envolvimento com fraudes.
A saída de um líder, naturalmente, tem potencial de gerar impactos negativos na dinâmica e no clima do time. Dependendo da natureza dessa ruptura e da velocidade dos acontecimentos, diferentes níveis de instabilidade podem se instalar na mente dos liderados que permanecem.
No caso da organização citada, os colaboradores estavam sem chão. Além do choque inicial, o grupo vinha de uma desgastante sequência de troca de liderança. O clima era de tensão, desmotivação e falta de engajamento. As pessoas deixaram de acreditar na empresa como uma espécie de proteção contra possíveis futuras decepções.
Vale destacar que, em companhias com altos níveis de confiança, colaboradores já relataram 74% menos estresse, 106% mais energia no trabalho e 50% maior produtividade, na comparação com aquelas que trabalham em organizações de baixa confiança. Os dados foram apresentados pelo neuroeconomista Paul J. Zak em um artigo publicado na Harvard Business Review.
O projeto desse cliente me fez, mais uma vez, mergulhar no tema confiança. Eu precisava compreender profundamente a dor específica da companhia para, junto com meu time corporativo, desenhar uma solução capaz de ajudar o grupo a superar o desafio.
Desse mergulho, eu extraí três perspectivas que considero essenciais na jornada de quem deseja construir e reconstruir a confiança dentro da empresa:
1 – Uma pequena dose de pessimismo moderado pode ser saudável
O mundo é imperfeito, assim como tudo o que nele vive, se instala e acontece. Isso não é uma condenação à desesperança. É um lembrete de que estamos sujeitos a nos decepcionar com pessoas e situações ao longo da jornada, na vida e no trabalho.
Ao assumirmos esse posicionamento de “pessimista moderado”, os obstáculos migram de “violações de regras básicas de existência” para “possibilidades concretizadas”. Não para normalizarmos o que nos desagrada. O objetivo é poder reagir com mais consciência.
Níveis saudáveis de pessimismo mantêm esperanças desmedidas sob controle, oferecendo proteção contra as formas mais intensas de raiva, desespero e aversão. É trocar o “tudo vai ficar bem” por “sou capaz de sobreviver a possíveis frustrações”.
2 – Intérpretes empáticos fortalecem o clima organizacional
A empatia nos inspira a nos conectar com os sentimentos e as perspectivas do outro. No entanto, não se confunde com devoção absoluta ou sacrifício extremo. É um convite a compreender pessoas e situações com mais profundidade antes de qualquer julgamento.
Isso é importante porque, em geral, a realidade é sempre mais complexa e cheia de nuances do que aparenta. Alguém pode ter cometido um erro por medo? A motivação teria sido ansiedade, pressão ou desespero? Existe bondade ou boas intenções ocultas?
Você se conecta, compreende e apoia quando for possível, sem ultrapassar seus valores morais. É um “olhar amoroso” para uma verdade: não existem pessoas sem fraquezas, incluindo nós. É reconhecer as razões do outro, sem que isso implique concordar com elas.
3 – A boa comunicação também cura a falta de confiança
Quantos desafios que já enfrentamos, na vida e no trabalho, poderiam ter sido resolvidos com uma boa conversa? Mas não basta falar. É preciso saber transmitir mensagens sensíveis e importantes, no tempo certo, com clareza, respeito e paciência.
Nesse contexto, para se recuperar de uma quebra de confiança em massa, as lideranças devem abrir canais efetivos de comunicação. Declararem como estão, o que precisam e o que esperam para curar essa ferida. Estabeleça e comunique limites de maneira clara.
Entendo que o foco da confiança está na capacidade de ampliar a sensação de segurança, credibilidade e tranquilidade em relação a algo ou alguém. Seu valor está no efeito-cascata. Algo que, no contexto de uma empresa, significa cultivá-la dentro de cada colaborador, criando motivos para que essas pessoas inspirem o mesmo sentimento ao redor.
Com essa dinâmica, a tendência é que a confiança se estenda para além dos limites da organização, alcançando clientes, investidores, parceiros de negócio, comunidade e consumidores. Tudo com zelo absoluto, pois confiar é um ato frágil. Lembrando que, como disse o filósofo Friedrich Nietzsche, “não me incomoda que você minta para mim, incomoda-me que, a partir de agora, não posso mais acreditar em você.”
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