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Fabio Josgrilberg

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Professor e pesquisador de comunicação, com ênfase em processos criativos, na Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP). É pesquisador do Centro de Gestão de Inovação Corporativa (FGVin) e do Núcleo de Estudos em Organizações e Pessoas (FGV-NEOP).

Como dialogar quando as posições são extremas no trabalho

Conheça quatro estratégias práticas para construir entendimento quando discordar não é opcional.

Por Fabio Josgrilberg, colunista da VOCÊ RH 14 dez 2025, 22h42
Duas figuras humanas com balões de fala pontiagudos.
 (PM Images/Getty Images)
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  • No mundo corporativo e na sociedade, não é raro passarmos por situações de posições extremadas, em conflito, mas que precisam encontrar um caminho a seguir. Pode ser uma negociação, a discussão sobre os rumos da empresa e mesmo sobre questões políticas e sociais que impactam as organizações.

    Para facilitar a melhor compreensão dos argumentos deste texto, trato de uma situação em que se precisa chegar a um acordo. Levantar da mesa não é opção. Também não há uma relação hierárquica que permita um dos lados dar uma “canetada”. Em resumo, a única opção é chegar ao acordo na conversa. Vamos ao caminho para essa conquista…

    1. Não comece pelo inegociável

    Quando nos deparamos com posições polarizadas, o maior erro que se pode cometer é tentar iniciar a conversa a partir daquilo que é inegociável. Não que o inegociável não possa ser objeto do seu desejo de mudança, só não comece por aí.

    O inegociável, em regra geral, fundamenta-se em valores éticos profundamente enraizados – ética enquanto um conjunto de valores e costumes, sem julgamento moral, que orientam um grupo social. Não chega a ser raro que esses valores sejam dogmáticos, em outras palavras, absolutamente inegociáveis e baseados numa autoridade incontestável e, por vezes, etérea – em sua origem, do grego, dogma significa “opinião”, “crença”, uma derivação do verbo “parecer bom”.

    Qual a saída, então? O primeiro passo é garantir o espaço da comunicação. Se não conseguimos nem nos sentar à mesa, uma solução pacífica, mesmo que não seja a ideal, estará muito mais distante.

    2. Pergunte para gerar confiança

    Para garantir o espaço da comunicação é necessário, antes de tudo, desenvolver confiança no processo de interlocução. Quando há confiança, até a mídia utilizada diminui de importância: pode ser presencial, online, por alguma ferramenta de mensagens, isso já não importa tanto. Quando há confiança no processo de comunicação, há espaço para dúvidas, questões, idas e vindas que abrirão o caminho para um possível acordo.

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    E como desenvolver a confiança? O segredo está em ter um interesse genuíno sobre a posição do seu interlocutor. Isso se faz com perguntas e não pela imposição de respostas. Fazer questionamentos que ajudem a entender a posição contrária, permitindo que o outro expresse a sua opinião. A atitude curiosa pelo outro influencia a percepção de que você, de fato, está em busca de um acordo, que o ponto de vista do seu interlocutor está sendo considerado e respeitado. Ser ouvido em um diálogo inicia a construção necessária do espaço de comunicação que servirá ao debate ou negociação.

    É óbvio que perguntar e ouvir não significa concordar. A estratégia é, num primeiro momento, ouvir para gerar confiança e buscar subsídios que servirão à construção do seu argumento. Ninguém será um bom comunicador ou negociador sem ter uma escuta ativa e sensível às necessidades do interlocutor.

    3. Quando atacado, resista

    Um alerta, especialmente quando estão em jogo temas de forte componente ético: no meio do caminho, é possível que você seja atacado injustamente, mesmo agredido moralmente. No entanto, se há interesse genuíno em abrir o espaço da comunicação, muitas vezes será necessário resistir às agressões.

    Inspire-se em algumas situações extremas. Veja, por exemplo, a famosa passagem dos textos sagrados da tradição judaico-cristã de oferecer o “outro lado da face”. Como ensinou Martin-Luther King Jr., dar a outra face não seria um gesto de humildade, mas de resistência. Em outros registros históricos, temos também a resistência não-violenta do hinduísmo de Gandhi.

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    Em ambos os casos a aposta foi na exposição da injustiça pela própria moralidade da reação pacífica. É como se você dissesse “não adianta me agredir porque eu só saio depois que conversarmos”. Tal como o filme, é dizer “Ainda estou aqui”. Continuando na série #ficaadica: vale a pena seguir o perfil da documentarista Deeyah Khan e entender como ela trabalhou o diálogo com grupos neonazistas. A pergunta era a seguinte: “‘É possível eu sentar com meu inimigo e ele sentar com o dele?”.

    Em resumo, há que se ter paciência, resistência e resiliência em caso de escalada da agressividade do debate. Manter-se centrado, calmo e confiante na sua estratégia de escuta é o segredo para a superação de momentos tensos.

    4. Opção radical pela comunicação

    Em situações de polarização extrema, o esforço inicial é por abrir e manter o espaço da comunicação – os diplomatas internacionais sabem muito bem disso. Conquista-se a confiança por meio de uma curiosidade genuína pelo outro, iniciando o diálogo sobre aquilo que é possível. O processo, invariavelmente, será longo. Mas, se queremos superar as posições extremadas e sedimentadas por anos, é preciso estar preparado para correr uma maratona, e não um sprint de cem metros.

    Um dos grandes problemas da sociedade atual e das organizações é que, em caso de discordância, a opção mais comum é por encerrar o processo de comunicação: cancelamento, bloqueio em mídias sociais, sair do grupo, as variações sobre as diferentes formas de silenciamento são bem conhecidas. Esse comportamento intolerante tem reflexos dentro das dinâmicas políticas das organizações e da sociedade.

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    “Sair do grupo” é fácil, mas não resolve o problema no longo prazo. O desafio é fazer uma opção radical pela comunicação, mesmo quando há discordância. Radical de raiz, lembre-se disso. A comunicação é a raiz das possibilidades de superação de posições extremadas. Preservar essa raiz é o que garantirá a perenidade das organizações e mesmo da sociedade.

    As folhas mudarão, mas a vida continuará enquanto as conexões estiverem garantidas.

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