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Fabio Josgrilberg

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Professor e pesquisador de comunicação, com ênfase em processos criativos, na Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP). É pesquisador do Centro de Gestão de Inovação Corporativa (FGVin) e do Núcleo de Estudos em Organizações e Pessoas (FGV-NEOP).

O mito do ócio criativo permitido pela IA

A promessa de que a automação liberaria tempo às pessoas para reflexão, invenção e lazer raramente se confirma no cotidiano.

Por Fabio Josgrilberg, colunista da VOCÊ RH 14 mar 2026, 14h55 | Atualizado em 18 mar 2026, 10h42
Três relógios vermelhos suspensos em superfície azul, caindo.
 (J Studios/Getty Images)
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Ewa Grzybowska, bióloga molecular e pesquisadora principal do Maria Skłodowska-Curie National Research Institute of Oncology (MSCI), na Universidade de Varsóvia, faz uma provocação interessante. Estudos recentes indicam que as proteínas apresentam grande plasticidade estrutural: podem modificar sua conformação ou até permanecer parcialmente desorganizadas, ajustando suas funções de forma dinâmica ao longo do tempo. Por isso, segundo ela, faz mais sentido comparar organismos biológicos à música do que a máquinas. Somos menos um computador e mais uma banda de jazz.

Se falamos de sistemas biológicos, a metáfora musical soa particularmente rica. Improvisação, variações de tons, semitons, bemóis, sustenidos, dissonâncias, timbres. Ritmo, harmonia e melodia. Tudo isso rende um bom papo de boteco – mas também uma boa discussão científica.

A rigor, a neurociência ainda não possui uma teoria definitiva sobre a consciência. Ela descreve processos da atividade cerebral, por exemplo, quando estamos apaixonados, especialmente por meio de exames de imagem impressionantes. Esses registros mostram o que acontece no cérebro, mas não explicam, e nem pretendem explicar, o significado que atribuímos à paixão.

Nesse estado, o corpo inteiro “pensa”, como aprendemos com os biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela. Sentimos e percebemos o mundo por meio de todas as possibilidades sensoriais e, de algum modo, unificamos essas experiências. Somos corpo, não apenas sinapses cerebrais, que explicam somente parte do processo.

O sociólogo alemão Niklas Luhmann já alertava para o risco de usar a metáfora da máquina para compreender sistemas biológicos. Existem diferentes tipos de sistemas – sociais, tecnológicos e biológicos —, e eles são distintos. Precisam ser analisados a partir de suas próprias lógicas sistêmicas, que, para Luhmann, passam pela compreensão dos processos de comunicação entre seus elementos. Não há necessidade de reduzir um ao outro.

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Daí surge a pergunta: por que, afinal, precisamos discutir se máquinas pensam como humanos, se são criativas ou inteligentes? Elas recebem inputs e produzem outputs a partir de uma lógica algorítmica. Seres humanos percebem e expressam o mundo com todas as possibilidades do corpo. São coisas diferentes. Para mim, esse tipo de comparação mais atrapalha do que ajuda o debate.

Tratemos máquinas como máquinas

Paremos de antropomorfizar tudo. Sei que isso é instintivo, mas, sinceramente, não faz sentido. É natural enxergarmos olhos nos faróis de um carro — há estudos sobre isso. Mas tem gente que pede desculpas a sistemas de inteligência artificial, dá bom-dia ou até briga com eles. Diria Caetano Veloso: “alguma coisa está fora da ordem”.

É claro que as máquinas conseguem processar informações muito mais rapidamente do que os seres humanos e potencializar a execução de tarefas. Isso é excelente. Abre um universo de possibilidades para inovação e para a solução de problemas sociais e científicos — embora ainda haja menos gente dedicada a esses desafios do que a urgência do nosso tempo exige.

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Mas de que adianta eu me comparar com uma máquina? Não olho para um avião pensando: “Puxa, esse trem (em bom mineirês) voa e chega aos lugares mais rápido do que eu andando”. O ponto não é esse. O que precisamos decidir é o que fazer com o avião: levar pessoas para conhecer o mundo, oferecer ajuda a regiões remotas ou usá-lo para destruir uma torre. Trata-se de uma escolha ética e política.

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Tempo livre? Quando?

Essa insistência em provar que máquinas já pensam como humanos às vezes parece apenas uma desculpa — talvez inconsciente — para defender a ideia de que poderíamos “liberar” as pessoas para atividades mais nobres, abrindo espaço para o famoso ócio criativo. Talvez eu esteja sendo ingênuo sobre o nível de consciência envolvido nesse discurso. Na prática, parece mais tecnologia “sabor ócio criativo”, como dizem por aí. No fundo, não é bem isso.

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Essa história de libertar as pessoas para o ócio criativo me soa um tanto ilusória. Eu, pelo menos, não estou com mais tempo para usar minhas milhas, ler, escrever, tocar baixo com minha turma ou ouvir meus discos. Se você estiver, fico sinceramente feliz.

A tecnologia tampouco garante automaticamente mais tempo para criar soluções nas empresas em que trabalhamos. O que tende a acontecer, no curto prazo, é que produziremos mais — o que, aliás, pode ser excelente.

No entanto, reservar espaço para ter ideias, testá-las, errar e recomeçar até acertar é uma decisão de agenda corporativa, não uma consequência automática da tecnologia. Então, afinal, do que exatamente ela está nos liberando?

Talvez precisemos entender melhor para que serve esse debate sobre comparar máquinas e humanos e como direcioná-lo para enfrentar desafios reais das organizações e da sociedade. O que efetivamente libera tempo para o ócio criativo são condições socioeconômicas e de trabalho mais equilibradas. Mas essa conversa é bem mais complexa: envolve escolhas políticas e, dentro das organizações, decisões de gestão de pessoas.

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