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Isis Borge

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Executive Director Talenses & Managing Partner Talenses Group

Era da IA: as conclusões do State of the Global Workplace 2026, da Gallup

O que o relatório revela: investimentos em inteligência artificial crescem, mas a transformação das empresas não acompanha e o engajamento despenca.

Por Isis Borge, colunista da VOCÊ RH 5 Maio 2026, 11h35 | Atualizado em 5 Maio 2026, 11h36
Uma silhueta humana contra uma projeção digital de uma cabeça, semelhante a um circuito iluminado em azul. A cena futurista simboliza a inteligência artificial, a tecnologia e a fusão do homem e da máquina.
 (Curly_photo/Getty Images)
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O novo “State of the Global Workplace 2026”, da Gallup, traz um retrato claro de um cenário que muitas empresas já começaram a perceber na prática. A tecnologia avança e os investimentos em inteligência artificial crescem, mas os resultados organizacionais ainda não acompanham a velocidade do discurso.

De acordo com o relatório, em 2025, o engajamento global caiu pelo segundo ano consecutivo e chegou a 20%, o menor nível desde 2020. Outros 64% dos profissionais estão na faixa do “não engajado”, enquanto 16% se declaram “ativamente desengajados”. Segundo a Gallup, esse quadro representa cerca de US$ 10 trilhões em produtividade perdida no último ano, o equivalente a 9% do PIB global. O tema, portanto, está longe de ser apenas comportamental: impacta diretamente a capacidade de execução das empresas.

Outro dado que chama a atenção é o descompasso entre produtividade individual e transformação organizacional. Entre trabalhadores de empresas que já implementaram IA, 65% dizem que a tecnologia teve impacto positivo em sua produtividade pessoal. Ao mesmo tempo, apenas 12% afirmam com convicção que ela transformou a forma como o trabalho acontece dentro da organização.

A diferença entre uma percepção individual de ganho e uma mudança efetiva no funcionamento da empresa é um dos pontos centrais do estudo. Fica claro que a IA pode ajudar profissionais em tarefas específicas, mas isso ainda não significa, necessariamente, revisão de processos, melhor coordenação entre áreas ou captura consistente de valor em escala.

Líderes no alvo

Nesse contexto, a Gallup recoloca a liderança gerencial no centro da discussão. O estudo mostra que os dois principais impulsionadores do uso frequente de IA nas empresas são a “integração da ferramenta aos sistemas existentes” e o “apoio ativo do gestor direto”. O dado mais expressivo aparece quando o relatório compara percepções de valor.

Em organizações que estão investindo em IA, funcionários que dizem contar com apoio claro de seus líderes para usar a tecnologia têm 98,7 vezes mais chance de afirmar que ela transformou a forma como o trabalho é feito. Também têm 97,4 vezes mais chance de dizer que ela amplia as oportunidades de fazer melhor aquilo em que são mais fortes.

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Como o RH pode apoiar a adoção da IA

Nesse momento em que parte do debate ainda se concentra nas capacidades técnicas das ferramentas, o relatório lembra que a transformação também depende de mediação humana, contexto e liderança. O problema é que esse elo da estrutura organizacional tem mostrado sinais preocupantes de desgaste.

Desde 2022, o engajamento dos gestores no mundo caiu nove pontos percentuais. Só entre 2024 e 2025, a retração foi de cinco pontos, saindo de 27% para 22%. E mais: durante anos, os líderes apresentaram níveis de engajamento superiores aos das equipes, mas essa diferença vem encolhendo de forma significativa.

Quando isso acontece, o impacto vai além do clima organizacional. A estrutura perde capacidade de alinhar prioridades, sustentar mudanças, traduzir estratégia em rotina e oferecer direção clara em períodos de transição. O relatório sugere que parte da dificuldade de capturar ganhos mais robustos com IA pode estar justamente aí: não apenas na adoção da tecnologia, mas na condição de quem precisa liderar seu uso no cotidiano.

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Rotina de trabalho é avaliada como tensa

Outro eixo relevante do estudo está na relação entre trabalho e bem-estar. Em 2025, o percentual global de profissionais classificados como thriving (trabalhando bem e evoluindo) subiu de 33% para 34%, interrompendo uma sequência de quedas. A melhora é discreta, mas relevante.

Ainda assim, os indicadores emocionais seguem pressionados. Globalmente, 40% disseram ter vivido muito estresse no dia anterior. Outros sentiram muita raiva (22%), muita tristeza (23%) e muita solidão (22%). O relatório revela, assim, um quadro menos linear do que pode parecer à primeira vista. Há avanços na forma como as pessoas avaliam a própria vida, mas o cotidiano segue marcado por tensão, desgaste e sobrecarga acima dos níveis pré-pandemia.

A análise sobre quem ocupa posições de liderança aprofunda esse ponto. Segundo a Gallup, líderes costumam apresentar avaliações mais altas sobre a própria vida, mas relatam dias piores do que os daqueles que lideram. Em comparação com colaboradores individuais, registram mais estresse, mais raiva, mais tristeza e mais solidão. 

O estudo sugere que ascensão hierárquica não deve ser lida automaticamente como sinônimo de maior bem-estar. A posição amplia autonomia e influência, mas também aumenta o peso decisório, a exposição ao risco e, muitas vezes, a distância relacional. Em ambientes de transformação acelerada, essa combinação tende a cobrar um preço alto.

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Otimismo na América Latina quanto ao mercado de trabalho

O recorte regional também traz achados interessantes. A América Latina e o Caribe aparecem com 30% de engajamento, bem acima da média global de 20%, e com 56% de profissionais em situação de thriving, um dos melhores resultados do mundo. A região registra ainda uma das menores taxas de solidão (12%), além de um índice elevado de otimismo em relação ao mercado de trabalho (60%). Ao mesmo tempo, 43% dos profissionais entrevistados relatam estresse diário.

O conjunto dos dados sugere uma combinação particular de vínculo, esperança e pressão. Há sinais de vitalidade social e de expectativa positiva, mas eles convivem com níveis altos de desgaste cotidiano. E no tópico situação do mercado de trabalho, o relatório mostra um entendimento ambíguo.

Globalmente, a percepção de que esse é um bom momento para encontrar emprego subiu para 52% em 2025, ainda abaixo do pico de 2019. Mas essa melhora convive com uma preocupação crescente em torno do impacto da automação. Nos Estados Unidos, 18% dos trabalhadores consideram provável que seus empregos sejam eliminados nos próximos cinco anos por inovações tecnológicas como automação ou IA. 

Em organizações em que a IA já foi implementada, esse percentual sobe para 23%. Em setores como finanças, seguros e tecnologia, passa de 30%. A transformação digital, portanto, não altera apenas a forma de trabalhar. Ela também afeta a percepção de estabilidade e de controle sobre o futuro profissional.

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A real deste período de transição tecnológica

No conjunto, o relatório da Gallup mostra que a discussão sobre produtividade, tecnologia e futuro do trabalho passa cada vez menos por promessas abstratas e mais pela qualidade concreta da gestão. A adoção de IA, sozinha, não resolve problemas de coordenação, liderança ou engajamento. Em muitos casos, apenas os torna mais visíveis. 

O que os dados sugerem é que empresas com gestores preparados, processos integrados e ambientes mais saudáveis terão mais condições de transformar investimento tecnológico em resultado. As demais podem até avançar em ferramentas, mas continuarão enfrentando limites na execução. 

No fim, o estudo traduz uma transição tecnológica, mas também algo mais profundo: o estado real da vida organizacional em um período de mudança acelerada.

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