O que a ciência diz sobre exaustão, falta de sono e queda de produtividade
Empresas ainda valorizam a intensidade, mas o custo mental e físico é alto. Invista no descanso para ter clareza e constância no trabalho.
No discurso corporativo, alta performance ainda costuma ser associada a intensidade, disponibilidade constante e agenda cheia. Mas a ciência tem mostrado algo diferente: exaustão não sustenta desempenho. Ela o compromete.
Recentemente, participei de um programa de assessment de uma empresa que está mapeando executivos elegíveis para promoção a cargos de diretoria. Na prática, o meu trabalho consiste em conversar com esses profissionais, identificar potenciais ajustes comportamentais e mapear pontos a desenvolver. Todas essas informações serão incorporadas aos planos de desenvolvimento individuais de 2026.
Nessas conversas, um caso chamou a minha atenção. Trata-se de um executivo tecnicamente sólido, reconhecido pela inteligência estratégica e capacidade analítica. Ele alterna momentos de brilhantismo com erros considerados bobos pela organização. Oscila na constância, na produtividade e, principalmente, na qualidade das decisões. A empresa queria entender o que explicava essa instabilidade.
Ao aprofundar a conversa, um fator ficou evidente: exaustão, agravada pela privação de sono e pelo alto nível de estresse. Ele acorda no meio da noite tenso com pendências que, paradoxalmente, às vezes, procrastina justamente por estar esgotado. Quando está mais cansado, abandona a rotina de esportes. Dorme menos, rende menos e decide pior. É um ciclo discreto, mas visivelmente presente. E pode passar despercebido por muita gente, inclusive pelo próprio profissional.
Durma direito. Sua produtividade agradece
A literatura científica explica bem esse fenômeno. O Centers for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, aponta que a privação de sono afeta diretamente a atenção, o tempo de reação, o julgamento e a tomada de decisão. Não se trata apenas de cansaço subjetivo, mas de comprometimento mensurável de funções executivas.
Pesquisadores da Harvard Medical School publicaram no BMJ Open um ensaio clínico randomizado com mais de 1.300 trabalhadores, demonstrando que intervenções para melhorar o sono resultaram em aumento de produtividade, melhora de desempenho e redução de absenteísmo. Ou seja, dormir melhor produziu impacto objetivo nos resultados.
A Sleep Foundation, com base em estudos do National Institutes of Health, reforça que a restrição de sono prejudica a memória operacional, a criatividade e a capacidade de resolver problemas complexos. E essas são algumas das competências exigidas de quem ocupa ou aspira ocupar cargos de liderança de empresas, equipes ou projetos.
Os 12 sinais de alerta do burnout
Além disso, um estudo publicado no Journal of Occupational and Environmental Medicine estimou que a insônia está associada a perdas significativas de produtividade, com bilhões de dólares em custos anuais para organizações apenas nos EUA. O fenômeno do presenteísmo, quando o profissional está fisicamente presente, mas cognitivamente comprometido, muitas vezes custa mais às empresas do que o absenteísmo.
Existe ainda um dado importante sobre limites fisiológicos. Análise conjunta da Organização Mundial da Saúde e da Organização Internacional do Trabalho demonstrou que jornadas superiores a 55 horas semanais estão associadas a aumento de 35% no risco de AVC e 17% no risco de doença cardíaca isquêmica. Evidências claras de que o corpo cobra a conta quando trabalhamos sem dar a devida atenção à nossa qualidade de vida e ao nosso bem-estar.
Exaustão causa oscilação nas entregas
O que tenho visto no meu dia a dia dentro das empresas e no contato com empregadores é que, em processos de sucessão, a organização não avalia apenas a inteligência ou o histórico de resultados dos profissionais. A avaliação inclui previsibilidade, constância e maturidade sob pressão. Se a exaustão crônica compromete exatamente esses critérios, esse, certamente, é um ponto que merece atenção por parte de quem quer crescer e se desenvolver.
Com relação a esse executivo que mencionei, o que mais chamou a minha atenção foi que a oscilação no comportamento e nas entregas não estava ligada à falta de competência técnica. Tinha relação com a incapacidade de armazenar energia e distribuí-la ao longo do dia. Quando descansado, ele performa em alto nível. Quando exausto, sua performance cai de forma perceptível.
Escrevo também a partir de uma reflexão pessoal. Costumo acordar bem cedo para ter um tempo para mim antes de lidar com o “furacão” que é organizar três filhos pequenos para ir à escola. Antes das sete da manhã, eles já estão prontos e a casa ganha outra dinâmica. Muitos brincam que eu durmo pouco ao saberem que sou tão ativa antes das seis. Mas eu raramente durmo tarde. Respeito meu relógio biológico. Quando percebo que estou com sono, simplesmente vou dormir. Tento manter a mesma disciplina que mantenho com as crianças.
Nos dias em que não respeito esse limite e durmo menos, percebo de imediato uma queda de produtividade, além de menor clareza mental. São percepções que não podemos normalizar, pois vivemos uma fase em que o burnout já é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como fenômeno ocupacional. Também teremos a atualização da NR-1, que exige das empresas capacidade de mapear, lidar e combater os riscos psicossociais.
Carreiras falham por desgaste do profissional
Ainda assim, muitas culturas organizacionais seguem premiando rotinas exaustivas que não são sustentáveis no longo prazo. Mas os alertas estão por toda parte. Na televisão, séries como The Industry retratam ambientes em que a intensidade constante cobra seu preço. Na literatura, o livro A Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han, provoca reflexão sobre uma cultura que transforma desempenho em autoexploração.
No dia a dia, quase todos nós conhecemos alguém que viveu algum colapso por exaustão. Pode ser, até mesmo, que você tenha sido vítima desse esgotamento. E eu quero com esse texto te lembrar que talvez o verdadeiro diferencial competitivo de longo prazo não esteja em quem trabalha mais horas. Destaca-se quem preserva clareza mental para decidir melhor, com constância.
O mercado de trabalho seguirá exigindo de nós velocidade. Isso não vai mudar. Sabendo disso, uma das minhas estratégias tem sido procurar elevar a minha capacidade de armazenar energia, com discernimento para saber como e onde investi-la ao longo do dia.
Carreiras não fracassam apenas por incompetência técnica. Às vezes, fracassam também por desgaste mental e emocional. Por isso, eu finalizo esse texto com um convite à autorreflexão: como está o seu sono?







