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João Roncati

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João Roncati é especialista em mudança organizacional, cultura e estratégia e CEO da consultoria People+Strategy

Gestão e IA: o que fazer quando a tecnologia parece saber mais do que você

O papel do líder não está em competir com a IA ou tentar dominá-la totalmente. O verdadeiro desafio é outro: aprender a liderar com ela, e não apesar dela.

Por João Roncati
9 jan 2026, 14h00 •
Ilustração de dois homens, um de frente para o outro, sendo um com perfil humano e, o outro, um robô.
 (DrAfter123/Getty Images)
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  • A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante e passou a ocupar um papel central nas decisões corporativas. Hoje, algoritmos analisam volumes massivos de dados, identificam padrões invisíveis ao olhar humano e oferecem recomendações em uma velocidade inalcançável para qualquer gestor. Diante desse cenário, uma questão se impõe às lideranças: como exercer autoridade, visão e direção quando a tecnologia parece “saber mais” do que você?

    Em primeiro lugar é necessário dizer que estou ciente de que a IA hoje é um processador de altíssimo nível e, tecnicamente, não é uma “inteligência”. É justamente o uso da palavra inteligência que embaralha um olhar não qualificado. Mas o que importa nesta abordagem é o papel do líder, que não está em competir com a IA ou em tentar dominá-la tecnicamente em todos os níveis. O verdadeiro desafio da liderança contemporânea é outro: aprender a liderar com a IA, e não apesar dela. Muito menos em detrimento de pessoas da sua equipe, talvez mais qualificadas do que ele mesmo para operá-la.

    Estudos acadêmicos reforçam essa mudança de paradigma. Uma pesquisa publicada na Scientific Reports demonstra que a adoção bem-sucedida de tecnologias avançadas, como a inteligência artificial, depende menos da sofisticação da ferramenta e mais da capacidade da liderança de integrá-la à cultura organizacional, aos processos e às estratégias de longo prazo. Em outras palavras, a tecnologia sozinha não transforma empresas — são as decisões humanas que determinam seu impacto real. E isto serve para qualquer inovação!

    Ao mesmo tempo, dados de mercado revelam um descompasso importante dentro das organizações. Pesquisas internacionais indicam que cerca de 87% dos executivos já utilizam IA em suas rotinas profissionais, enquanto apenas 27% dos colaboradores fazem o mesmo. Esse dado não aponta apenas para uma diferença de acesso, mas para um desafio de liderança: como engajar pessoas, redesenhar fluxos de trabalho e criar confiança em um ambiente cada vez mais mediado por algoritmos, pretensa e informalmente invadido pelo uso de inteligência artificial de forma não sistêmica.

    Esse cenário evidencia uma mudança profunda no papel do gestor. Se antes liderar estava, no senso comum, associado a deter conhecimento técnico e respostas prontas, hoje o valor do líder está cada vez mais ligado à sua capacidade de interpretar informações, fazer perguntas melhores, mobilizar recursos (como a IA) eficientemente e tomar decisões contextualizadas. A inteligência artificial pode indicar caminhos, mas não define prioridades, valores ou impactos humanos. Essa responsabilidade continua sendo, essencialmente, da liderança.

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    Mudança de mentalidade

    A literatura recente sobre gestão e inteligência artificial aponta que líderes eficazes nesse novo contexto são aqueles capazes de combinar visão estratégica, pensamento crítico e ética. Não se trata apenas de entender como acumular e analisar dados, mas de compreender suas limitações, seus vieses e suas consequências para a sociedade. Afinal, decisões influenciadas por IA podem ser eficientes, mas nem sempre são justas, empáticas ou sustentáveis se não estão submetidas a códigos de ética definidos por seres humanos, por assim dizer.

    Essa dificuldade de adaptação já aparece de forma clara em pesquisas com executivos. Um levantamento da Liz Mohn Foundation mostra que, embora muitos líderes reconheçam o potencial da IA para apoiar tarefas como planejamento e análise, apenas uma parcela ainda limitada a utiliza em decisões mais complexas, como gestão de pessoas, resolução de conflitos ou desenvolvimento de equipes. Possivelmente muitos líderes não compreenderam como usar a IA como extensão de sua própria capacidade intelectual.

    Na prática, liderar na era da inteligência artificial exige uma mudança de mentalidade. O gestor deixa de ser o principal detentor e integrador do conhecimento (o que já é desafiador) e passa a atuar como construtor sistêmico: alguém que conecta dados, pessoas e propósito. Isso implica assumir um papel mais estratégico, mais relacional e, paradoxalmente, mais humano em um ambiente cada vez mais automatizado.

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    Talvez um dia a IA possa substituir a capacidade humana de decisão e julgamento. Hoje, porém, ela mais expõe nossas fragilidades e escancara a necessidade de competências que nenhuma tecnologia consegue replicar: sensibilidade, ética, visão sistêmica e capacidade de lidar com ambiguidades. Em um mundo onde uma ferramenta parece saber mais, liderar bem significa saber decidir melhor. A ideia genérica, mas comum, de que o domínio do gestor era conquistado com mais informações está definitivamente enterrada.

    As pessoas que compreenderem essa transição não apenas adotarão IA de forma mais eficaz, como construirão culturas mais maduras, resilientes e preparadas para o futuro, fortalecendo as organizações. Porque, no fim, a tecnologia pode processar dados, como um mecanismo poderoso, mas somos nós que tingimos com ética e propósito o seu uso: o ser humano é o único recurso que define se outros recursos serão eficientes e geradores de valor, ou ineficientes e destruidores.

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