Você pagaria salário para um avatar IA do seu melhor funcionário?
Empresas discutem o uso de clones digitais de talentos e CEOs como um atalho para a comunicação e a produtividade. Mas a ideia levanta dilemas éticos.
Em fevereiro deste ano, o CEO da Uber, Dara Khosrowshahi, revelou que convive com um clone digital seu dentro da organização: um avatar feito com inteligência artificial.
Funciona assim:
O Dara humano tem todas as funções recorrentes de um CEO.
O Dara IA ajuda o resto da empresa a se relacionar com o Dara humano.
Na prática, o Dara IA é um coach de reuniões com o Dara humano. Não foi criado pela organização, de forma estruturada, mas por funcionários da Uber que precisavam se preparar para fazer apresentações para o CEO. É com a versão IA que os colaboradores passam slides, fazem ajustes, ensaiam. E ficam seguros para, aí sim, encarar a versão humana.
Você acha isso prático? Ou extremo?
Um atalho para a comunicação quebrada
Se pensarmos pelo lado da vida corrida das organizações, parece uma solução para um dilema muito comum (e que surge sempre entre nossos clientes na CALOR).
Líderes acreditam que seus times não se comunicam bem e chegam despreparados às reuniões. Ou trazem informação demais, ou trazem de menos. Equipes reclamam que ficam até altas horas da noite preparando slides porque não sabem exatamente o que a liderança quer, e acabam se preparando para muitos cenários.
A situação fica ainda mais complicada quando não há uma cultura e processos estruturados na organização, já que cada líder tem um comportamento e exigência diferentes. O colaborador aprende o jeitão do próprio chefe, mas sofre em reuniões com outras áreas. Parece que a gente tem infinitas línguas dentro de uma mesma empresa. E o problema se estende para além das reuniões: atinge e-mails e mensagens instantâneas, nos quais reinam a confusão, o vaivém desnecessário e o desgaste nas relações.
O caminho para a solução não é rápido. Exige mente aberta de cada colaborador, rituais que aproximem pessoas e áreas, interesse em entender os objetivos e realidade dos stakeholders. É uma construção diária, que depende de atitudes e comportamentos.
O que a IA oferece com o avatar CEO é um atalho. Em vez de aprender no dia a dia COM o CEO (estudando as reuniões, fazendo perguntas diretas a ele, propondo inovações), a pessoa usa um “manual” daquele determinado humano. É um conhecimento pronto para o consumo, para o uso imediato. Só passo a conhecer e aprender sobre aquela pessoa ou sobre o que é relevante para cada fórum e ocasião se e quando eu precisar, no momento em que eu precisar.
Resolve? Não testei ainda, mas imagino que ajude muito.
Então qual o problema?
Como o RH pode apoiar a adoção da IA
Um atalho cujo custo não conhecemos
Em suas projeções para ferramentas e produtos de IA, a consultoria de tecnologia Gartner previu que devemos chegar a um uso maduro de avatares de IA de colaboradores entre 2030 e 2035. Isso significa que, em pouquíssimo tempo, teremos avatares replicando a expressão de funcionários: o jeito de falar, por texto e voz, a aparência física, a expressão corporal.
Mas talvez a gente nem tenha de esperar tanto. A Zoom, plataforma de reuniões online, acabou de anunciar o lançamento de avatares que refletem as expressões do usuário e movimentos de boca e olhos. Você ainda estará na reunião, e sua câmera ainda vai te capturar, mas no online seus colegas só verão seu avatar. Em 2024, Eric Yuan, CEO e fundador do Zoom, falou sobre a aplicação de IA pensando em chegar ainda mais longe. “Eu não precisaria entrar [na reunião]. Posso mandar uma versão digital de mim mesmo para participar, para que eu possa ir à praia.”
E isso pode nos levar a uma tecnologia ainda mais complexa, que segundo o Gartner deve demorar mais de dez anos para aterrissar de forma madura nas organizações: os gêmeos digitais. Nesse caso, a IA não reproduzirá apenas a aparência, a voz, a expressão corporal e de rosto. O cérebro também fará parte. Um gêmeo digital vai simular como a pessoa se comporta ou reage em determinados contextos.
Outro atalho sedutor. Se quisermos ter um time só de estrelas, por que não replicar o melhor colaborador usando IA? Sem necessidade de motivação, conversa, compreensão de perfil… nada disso.
Avatares, gêmeos digitais, reuniões feitas por IA em todas as pontas… O ambiente de trabalho do futuro parece desprovido de… humanos. Ao usar a tecnologia para consertar nossas falhas de comunicação, estamos, na verdade, correndo o sério risco de eliminar a comunicação por completo. (Afinal, senhor Eric Yuan, se todos usarem IA para entrar em reunião, para que reunião? Para que avatar?)
Pode faltar diversidade
A IA pode ser maravilhosa, e uso muito no meu dia a dia. Mas já sabemos, por estudos, que ela não traz diversidade de ideias.
Diversidade é crucial para o sucesso das organizações, porque gera inovação. Inovação depende da troca de conhecimento. Troca de conhecimento depende de comunicação.
Podemos até treinar com IA, mas não podemos nos esquecer dos humanos que ainda estarão conosco (sim, estarão!). E a menos que a gente gaste horas e horas treinando como falar com cada stakeholder relevante usando os respectivos avatares, me parece muito mais eficiente usar uma única habilidade crucial: interessar-se por pessoas.
Com essa simples e singular habilidade, conseguiremos navegar nesse futuro compreendendo efetivamente as pessoas, inclusive em cenários que ainda não têm precedente (sorry, IA, ainda não conseguimos te abastecer desse conteúdo). Hoje não sabemos como as pessoas vão se sentir em relação a:
- Direitos de imagem e voz: tudo bem a organização usar esses direitos? Os direitos cessam quando um colaborador deixa a organização ou morre?
- Remuneração: é aceitável criar uma “cópia” de um colaborador sem remunerá-lo por isso? Ou é preciso pagar um “salário extra”?
- Limites: quais são os limites aceitáveis para uso das versões IA – de temas, de decisões, entre outros?
- Saúde mental: as versões IA podem se tornar uma pressão extra para os colaboradores, criando uma concorrência desigual em termos de produtividade?
Tudo isso exige muita conversa. De humano para humano. E é por isso que a habilidade de se comunicar nunca perderá espaço para a IA.







