Como a autocrítica sabota sua performance e tomada de decisões
A consciência de um ponto fraco pode impedir que você coloque seu conhecimento em prática. O antídoto? Técnicas de mindfulness. Entenda.
Na coluna que escrevi para a Você RH em fevereiro de 2025, mais de um ano atrás, mencionei os “Quatro Estágios da Competência”, argumentando que a grande oportunidade de aprendizado surge quando avançamos do estágio de “incompetência inconsciente” para o de “incompetência consciente”, pois essa consciência do que não sabemos nos convida ao aprendizado.
Sigo acreditando nessa premissa. Entretanto, tenho observado que, às vezes, a consciência a respeito de um ponto de desenvolvimento não parece ser suficiente para avançarmos, mesmo quando sabemos o que perdemos por não dominar determinada habilidade e intuímos o que ganhamos ao ser capazes de manejá-la.
Vejo com frequência essa dificuldade em clientes de coaching executivo e, confesso, percebo essa dificuldade em mim também – especialmente em questões comportamentais que, muitas vezes, são tão arraigadas em nossa maneira de ser e de estar no mundo que, quando nos damos conta, os velhos hábitos vencem as boas intenções.
Quando nossos pensamentos nos atrapalham
Como coach profissional credenciada pela ICF (International Coaching Federation), tenho um compromisso com o autodesenvolvimento contínuo e recorro à supervisão de minha prática para garantir reflexão sobre minhas ações. Numa sessão de supervisão em grupo, outro dia, quando pela enésima vez me dei conta de um padrão que sempre repito (e queria muito não repetir), recorri ao olhar de meus pares e do supervisor, todos coaches experientes: “como posso ir além da consciência? O que está me impedindo de atuar sobre essa questão?”.
Um colega, então, pediu licença para atuar como meu coach e disse: “sua cabeça está te atrapalhando”. O que ele quis dizer era que minha autocrítica estava me impedindo de atuar da melhor maneira possível.
Tim Gallwey, pioneiro do coaching, em seu livro seminal The Inner Game of Tennis, explica isso da seguinte maneira: todos nós temos dois “eus”. O primeiro, o self 1, é nossa consciência racional, aquela que articula ideias em palavras. O segundo é o executor, o self 2, nosso ser natural, que possui potencial intrínseco, inteligência corporal e capacidade de aprender por observação e tentativa, sem esforço consciente excessivo. Segundo Gallwey, nosso desempenho é o resultado de nosso potencial menos as interferências, sintetizado na equação:
Desempenho = Potencial – Interferência
Cinco comportamentos sabotadores de carreira
Ocorre que nosso self 1, o racional, é justamente o responsável pela interferência. Quando queremos muito melhorar nosso desempenho, não raro ficamos analisando nossas ações como se houvesse uma voz narrando internamente o que está acontecendo: “Luciana acabou de errar o lance”. Sem conseguir calar essa voz, a interferência provocada pelo self 1 segue livre, piorando cada vez mais nosso desempenho.
Para evoluir de fato, é necessário dar espaço para o self 2, o executor, o que realiza. Precisamos de presença – definida aqui como um estado de consciência relaxada e foco ininterrupto, algo que, em mindfulness, é traduzido como a consciência que surge ao prestarmos atenção ao momento presente, com propósito e sem julgamentos. Sem o self 1 criticando o que fazemos como se fosse uma voz em off.
E como burlar nosso escoteiro interior, “sempre alerta”, o self 1? Como atingir o estado de atenção plena em que consciência e ação se tornam uma coisa só, eliminando o hiato entre “quem pensa” e “quem faz”?
Já parou para notar o ritmo da sua respiração?
Segundo Tim Gallwey, a mente é uma criança inquieta e, sendo assim, precisamos dar um brinquedo para ela se distrair. Assim como na prática de mindfulness, esse “brinquedo” é algo que nos conecte à experiência sensorial presente: sentir a textura de um material nas mãos (a caneta ou o mouse), observar o ritmo da respiração, ouvir os sons de fundo etc. A experiência sensorial é a única coisa que acontece no momento presente e, portanto, é a maneira de evitarmos que nossa mente relembre as vezes em que não acertamos no passado ou projete erros futuros.
No meu caso, escolhi prestar atenção à respiração. E registrar, sem julgamentos, após as sessões de coaching, como atuei. Minha ideia é acompanhar meu desenvolvimento como uma pesquisadora que monitora seu experimento, registrando dados factuais e blindando meu self 2, o executor, para que ele possa atingir o estado de flow, quando o “cabeção” finalmente sai de cena e entramos no que o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi chama de fluxo: aquele estado em que o tempo parece passar de forma diferente e a ação flui sem resistência, justamente porque a interferência do self 1 chegou a zero.
Uma das perguntas que sempre faço aos meus clientes quando estamos trabalhando uma questão sobre a qual eles têm consciência, mas parecem não conseguir quebrar a força do hábito para atuar de forma diferente, é: “o que você estava pensando quando agiu assim?”. Nove em cada dez respostas são julgamentos: sobre si, sobre a situação, sobre o interlocutor. Julgamentos são pensamentos, não fatos. Com todo esse “barulho” dentro da cabeça, é difícil estar presente ao que realmente está acontecendo.
Da próxima vez que se pegar repetindo velhos padrões, experimente intencionalmente prestar atenção à sua respiração… ou ao tecido da sua camisa encostando no corpo… ou ainda aos sons ao longe. Sustente sua atenção. Observe o que acontece com você. E depois registre tudo. Uma, duas ou quantas vezes forem necessárias… até que seu self 1 dê espaço para seu self 2 atuar e realizar seu potencial em forma de desempenho superior.







