Aniversário da Abril: Você RH por apenas 9,90
Imagem Blog

Pamela Manfrin

Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Pamela Manfrin é CEO da Apetit Serviços de Alimentação, palestrante e mestre em Engenharia de Produção e Sistemas.

Incentivos motivam. Ver sentido no trabalho retém

Aumentar salário para segurar talentos? Saiba como a repetição de cobrir propostas de fora molda a percepção de valor – e cria um círculo vicioso.

Por Pamela Manfrin, colunista da VOCÊ RH 5 abr 2026, 11h00
Colagem de uma pessoa andando em um espiral roxo.
 (Jorg Greuel/Getty Images)
Continua após publicidade
  • Em algum momento da carreira, todo profissional de RH já participou da mesma conversa: um colaborador recebeu uma proposta de outra empresa e a solução imediata foi cobrir a oferta.

    Foi exatamente esse o cenário que surgiu em uma reunião de rotina entre as lideranças. A gestora trouxe a notícia de que uma colaboradora talentosa havia recebido uma proposta externa. O pacote incluía salário maior, benefícios similares e a promessa de crescimento mais rápido.

    A reação do time foi quase automática, e ali surgiu a alternativa que muitas organizações adotam nesses casos: ajustar o pacote de remuneração para garantir a permanência do profissional.

    O salário foi revisado, a proposta foi coberta e a colaboradora decidiu ficar. À primeira vista, parecia uma vitória.

    Oito meses depois, porém, a mesma história voltou à mesa de discussão. Uma nova proposta externa, uma nova decisão a ser tomada. A inquietação diante da recorrência levou a uma pergunta que nos fez sair do automático: “até quando vamos resolver o engajamento apenas com incentivos?”

    Como a recompensa é percebida no cérebro

    A palavra incentivo, principalmente com foco financeiro, tornou-se uma das mais presentes nas discussões contemporâneas sobre gestão de pessoas. Incentivos para retenção, incentivos para performance, incentivos para engajamento. Em muitos contextos organizacionais, eles parecem ser a resposta mais rápida para desafios complexos.

    Continua após a publicidade

    E, de fato, funcionam. Pelo menos no curto prazo.

    A neurociência ajuda a explicar esse fenômeno. Quando o cérebro percebe uma recompensa relevante, especialmente associada a ganhos financeiros ou reconhecimento, ocorre a liberação de dopamina, neurotransmissor ligado à motivação e à sensação de prazer (isso, a mesma substância liberada nos deslizes de tela) — dinâmica amplamente discutida em estudos sobre comportamento e formação de hábitos, como os apresentados por Charles Duhigg em O Poder do Hábito. Esse mecanismo reforça comportamentos que levaram à recompensa.

    Em outras palavras, incentivos realmente motivam.

    O problema é que o cérebro humano também se adapta rapidamente — um padrão recorrente nos mecanismos de hábito e recompensa descritos por Charles Duhigg. Aquilo que inicialmente gera entusiasmo logo se transforma em expectativa. Com o tempo, o incentivo deixa de ser percebido como recompensa e passa a ser interpretado apenas como o novo padrão.

    Continua após a publicidade

    Quando isso acontece, muitas empresas entram em um ciclo de retenção reativa. Ajustes salariais sucessivos, contrapartidas emergenciais e a sensação constante de que o engajamento depende sempre de um novo estímulo.

    5 dicas para manter a motivação dos colaboradores

    Há ainda um outro aspecto que merece atenção nesse tipo de decisão. Cada escolha de gestão de pessoas, além de afetar o indivíduo, envia um sinal cultural para toda a organização.

    Quando uma empresa reage repetidamente a propostas externas cobrindo salários ou oferecendo novos incentivos, cria-se um precedente que passa a ser observado pelas demais pessoas da equipe. A promoção, o reconhecimento ou mesmo a retenção de um colaborador sempre contam uma história dentro da organização. E histórias se transformam em referência.

    Continua após a publicidade

    Cultura organizacional é, em grande parte, a soma das decisões que se repetem.

    Valorização não é só um novo número no holerite

    Se a cultura pode ser compreendida como a multiplicação de pequenos hábitos ao longo do tempo – lógica alinhada aos estudos sobre formação de hábitos –, então as decisões de liderança são os principais multiplicadores desses hábitos. É pelo exemplo, e não apenas pelo discurso, que padrões culturais se consolidam.

    Nesse contexto, surge uma pergunta importante para líderes e profissionais de RH: qual padrão cultural está sendo construído quando a valorização acontece apenas de forma reativa?

    Sem perceber, a organização pode estar ensinando que o reconhecimento chega apenas quando existe uma oferta do mercado. Ou que o caminho mais rápido para valorização é buscar oportunidades fora antes de dialogar internamente.

    Continua após a publicidade

    Curiosamente, essa reflexão encontra eco tanto na filosofia clássica quanto em estudos contemporâneos sobre comportamento. Aristóteles, em Ética a Nicômaco, já indicava que a excelência é construída pela repetição de práticas ao longo do tempo – ideia que também aparece em abordagens modernas sobre formação de hábitos.

    Transportada para o ambiente organizacional, essa ideia nos leva a uma reflexão importante sobre liderança e gestão de pessoas. Delegar tarefas é relativamente simples. Delegar responsabilidade, porém, é algo diferente.

    Qual o real desejo do colaborador?

    Quando uma pessoa recebe apenas uma atividade, ela executa. Quando recebe responsabilidade, ela compreende o impacto do seu trabalho no resultado coletivo. Nesse momento, o trabalho deixa de ser apenas uma transação econômica e passa a ser uma expressão de competência, contribuição e pertencimento.

    A história daquela colaboradora trouxe um aprendizado para a empresa. Na segunda vez em que ela recebeu uma proposta externa, a conversa seguiu um caminho diferente. Antes de discutir salário ou benefícios, a líder decidiu fazer outra pergunta: o que faria você querer construir o seu futuro aqui?

    Continua após a publicidade

    A resposta não estava no pacote de remuneração, estava no desejo de participar de projetos mais relevantes, de ter autonomia para liderar iniciativas e de perceber que o seu trabalho gerava impacto real. A líder, por outro ângulo, decidiu olhar atentamente para os anseios da profissional.

    Talvez o grande desafio da liderança contemporânea seja realmente este: construir a conexão entre esforço, responsabilidade e significado no trabalho. E não de forma genérica, mas com o olhar atento a cada indivíduo.

    Quando o trabalho volta a fazer sentido, o incentivo deixa de ser o centro da conversa.

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    OFERTA RELÂMPAGO

    Digital Completo

    Gestores preparados vencem!
    Por um valor simbólico , você garante acesso premium da Você RH Digital à informação que forma líderes de verdade.
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    ECONOMIZE ATÉ 52% OFF

    Revista em Casa + Digital Completo

    Receba Você RH impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*
    De: R$ 26,90/mês
    A partir de R$ 12,99/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).