O perigo da autossuficiência: líderes que fazem tudo acabam isolados
Assim como Michelangelo e seu Davi, lideranças se reconhecem naquilo que criam. Mas essa atitude pode provocar desengajamento e falta de legado.
Lembra-se do rosto de Michelangelo? Eu não, mas já ouvi seu nome e sobre seu trabalho diversas vezes. Você também provavelmente já viu algumas de suas obras, como o Davi, a Pietà ou a Capela Sistina, elas são inconfundíveis. Michelangelo é tão famoso que inclusive deu nome a um dos quatro Tartarugas Ninjas, junto com Raphael, Donatello e Leonardo. Ainda assim, quando pensamos nele, dificilmente conseguimos acessar detalhes da sua história, muito menos do seu rosto. Quem dirá o nome completo… E foi exatamente essa sensação que me chamou atenção: o desconhecido.
No início dos anos 1500, havia um bloco de mármore abandonado em Florença. Outros escultores já haviam tentado trabalhar naquele material e desistido, diziam que havia falhas, que não renderia uma boa obra. O bloco permaneceu ali por anos, até que Michelangelo foi chamado. Jovem, com pouco mais de 20 anos, ele olhou para o mesmo mármore e enxergou algo diferente; onde muitos viam limitação ele viu a forma. Anos depois, diria que a escultura já estava ali dentro, e que seu trabalho era retirar o excesso. Daquele bloco reiteradamente negado, surgiu a obra Davi.
Existe uma ideia do filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel que diz que o ser humano se reconhece naquilo que cria. Aquilo que colocamos no mundo, de alguma forma, também nos revela. Quando penso em liderança, esse conceito ganha outra dimensão, porque o líder constrói por meio das pessoas. E é nesse ponto que a reflexão começa a se tornar menos confortável.
A ilusão da autossuficiência
É possível ter resultado sem desenvolver gente. É possível crescer, entregar e avançar criando, ao mesmo tempo, um ambiente altamente dependente. Eu já vi isso acontecer. E, sendo bem honesta, em alguns momentos da minha trajetória, já me vi próxima disso. Aquela sensação de precisar estar em tudo, resolver tudo, decidir tudo, garantindo que nada saia do lugar. No início, isso parece eficiência e responsabilidade; com o tempo, não se sustenta e vira cansaço, frustração e dependência. E o resultado é previsível, o crescimento desacelera, as decisões se concentram, o time executa, mas não engaja. E qualquer ausência começa a fazer falta, até tirar férias vira um problema. Existe um ponto aqui que raramente é discutido: líderes que resolvem tudo se esgotam, o brilho diminui. Não por falta de capacidade, mas porque passam tempo demais com a sensação de que estão sustentando o sistema sozinhos. E, muitas vezes, isso não é verdade.
As 5 competências dos líderes mais disputados
Foi a partir dessa percepção que comecei a olhar para a liderança de outra forma. Existe uma diferença relevante entre o líder que resolve e o líder que estrutura. O primeiro mantém tudo funcionando pela própria presença. O segundo constrói algo que continua funcionando mesmo sem ele. E essa diferença não aparece em grandes decisões; ela se revela nos detalhes, na escolha de explicar em vez de apenas corrigir, na decisão de delegar algo importante, na capacidade de segurar o impulso de resolver rapidamente, na escolha de ser desnecessária a rotina. E, preciso dizer, um bom time quer isso mais do que podemos imaginar.
Dê espaço para o outro
Desenvolver pessoas não é um processo confortável, exige abrir mão do protagonismo, da vaidade, exige dar espaço, aceitar que outros cresçam, tomem decisões e, muitas vezes, algumas que são diferentes da que a liderança tomaria. Esse movimento inevitavelmente mexe com o lugar do líder. Para mim, não foi automático. Existe um momento em que você percebe que, ao centralizar, limita o crescimento do time e o seu próprio.
Com o tempo, algo muda. As pessoas começam a responder de forma diferente. Tomam decisões, assumem responsabilidades, erram, aprendem e ajustam. O time ganha consistência. E surge um efeito curioso: o líder passa a ser menos acionado para tudo. No início, isso pode causar estranhamento. Mas, olhando com mais atenção, fica claro que a presença continua existindo, apenas de outra forma. Ela está no jeito que as pessoas pensam, na forma como decidem, no padrão que foi construído. Existem lideranças que aparecem, outras permanecem; algo como iluminar em vez de brilhar. E, digo novamente, é um exercício de ego!
Com que régua avaliamos nossa trajetória?
Hoje, é fácil medir curtidas, visualizações, seguidores. Tudo é imediato, visível, comparável. Mas existe uma construção que não aparece nessas métricas, e sim no dia a dia, quando alguém do seu time toma uma decisão com segurança, quando um processo continua funcionando com consistência mesmo durante sua ausência. Isso não vira post, mas é o que faz o resultado acontecer de verdade.
Michelangelo deixou sua marca na história, não foi seu rosto ou seu nome completo. Inevitavelmente, volto à pergunta inicial. Você se lembra do rosto de Michelangelo? Eu não. Mas reconheço a obra. Isso me faz refletir sobre o tipo de métrica que utilizamos para avaliar nossa trajetória. Quanto maior o sucesso do time, maior é o líder. O time é a obra, as pessoas que o compõem. O líder não é medido pelo quanto é necessário, mas pelo quanto construiu algo que já não precisa mais dele.





