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Pamela Manfrin

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Pamela Manfrin é CEO da Apetit Serviços de Alimentação, palestrante e mestre em Engenharia de Produção e Sistemas.

O que Alexandre, O Grande, nos ensina sobre líderes ingovernáveis

A história do herói da Macedônia revela que autogovernança e estruturas sólidas são vitais para sustentar conquistas e criar legados duradouros.

Por Pamela Manfrin, colunista da VOCÊ RH 12 mar 2026, 16h31
Estátua de pedra de Alexandre, o Grande.
 (Connect Images/Getty Images)
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  • Um dos líderes mais extraordinários da história antiga, Alexandre, O Grande (356 a.C.-323 a.C.), rei da Macedônia, cresceu em um ambiente onde estratégia, poder e liderança faziam parte do cotidiano. Seu pai, Filipe 2º, era um estrategista militar admirado, responsável por consolidar um exército forte e disciplinado. Desde cedo, Alexandre foi exposto a decisões complexas, planejamento de longo prazo e à importância da preparação antes da batalha. Mais do que herdar um trono, ele herdou uma cultura.

    Sua formação foi complementada por outra influência decisiva: Aristóteles. Sob sua orientação, aprendeu filosofia, política, lógica e retórica, desenvolvendo pensamento crítico e capacidade de argumentação. Alexandre foi moldado por referências fortes, por mentores exigentes e por um ambiente que valorizava estratégia, disciplina e visão.

    Para quem atua em recursos humanos, essa origem já carrega uma grande lição: líderes são formados por influência, cultura e exemplos consistentes; ou seja, ninguém se torna grande sozinho.

    O risco de se sentir invulnerável

    Ao assumir o comando de um exército ainda jovem, Alexandre liderou conquistas impressionantes, expandiu territórios, integrou culturas e mobilizou homens a atravessarem continentes movidos por uma visão comum. Ele representava aquilo que as organizações admiram: direção com transparência, energia de execução e coragem para decidir. Era o retrato do líder preparado para vencer.

    A pergunta que raramente fazemos é outra: o que acontece quando alguém preparado para vencer começa a acreditar que já não precisa mais se desenvolver?

    O sucesso reiterado altera a dinâmica ao redor de qualquer indivíduo. Quando não há autogovernança suficiente, a estrutura interna de quem lidera é alterada. No caso do herói macedônico, à medida que as vitórias se acumulavam, uma percepção de invulnerabilidade se consolidava, reduzindo o espaço para o contraditório. Conselheiros passaram a ser menos ouvidos, divergências tornaram-se desconfortáveis e a centralização das decisões ganhou força – enquanto o império crescia territorialmente sem que sua sustentação institucional evoluísse na mesma proporção.

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    Pense em um prédio. Não dá para aumentar andares indefinidamente sem reforçar a fundação.

    Alexandre morreu aos 32 anos, no auge de seu poder, deixando um território vasto e um legado simbólico incontestável, porém sem uma sucessão estruturada e sem mecanismos de governança capazes de garantir estabilidade após sua ausência. Resultado: o império se fragmentou com rapidez, revelando que conquistas extraordinárias exigem fundamentos igualmente sólidos para que se mantenham ao longo do tempo.

    Essa trajetória encontra eco nas análises de Jim Collins em How the Mighty Fall (“Como Gigantes Caem”), obra na qual o autor descreve os cinco estágios que levam grandes organizações ao declínio. O primeiro estágio emerge da arrogância alimentada pelo sucesso, quando resultados consistentes criam a sensação de que a organização se tornou imune a falhas estruturais. Em seguida, instala-se a busca indisciplinada por mais, caracterizada por expansão acelerada, novos projetos e movimentos ousados que nem sempre são acompanhados por consolidação de processos e cultura. O terceiro estágio manifesta-se na negação do risco, momento em que sinais de desgaste são relativizados e vozes críticas perdem relevância. Posteriormente, surgem iniciativas grandiosas e arriscadas, como tentativa de recuperar desempenho ou reafirmar protagonismo, até que, por fim, ocorre a capitulação, seja por irrelevância, venda forçada ou colapso financeiro.

    As 5 competências dos líderes mais disputados

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    A queda de gigantes do mercado

    A história empresarial não é diferente e oferece exemplos contundentes dessa dinâmica. A Enron construiu uma narrativa de sofisticação e crescimento contínuo enquanto fragilizava seus próprios pilares éticos e contábeis, culminando em uma queda abrupta que abalou o mercado global. A Blockbuster dominava o mercado de locação de filmes, possuía marca forte, presença consolidada e geração de caixa consistente, mas subestimou a mudança de comportamento do consumidor e rejeitou oportunidades estratégicas que poderiam ter reposicionado o negócio diante do avanço do streaming. A Nokia liderava o mercado de telefonia móvel e demorou a reagir às transformações estruturais impostas por novos ecossistemas tecnológicos, perdendo relevância em um setor que ajudou a construir.

    Em todos esses casos, talento e recursos estavam presentes, assim como histórico de desempenho consistente, o que evidencia que o declínio raramente decorre da ausência de competência técnica. O que se observa é a erosão gradual da disciplina estratégica, da cultura de questionamento e da governança estruturada, elementos que sustentam resultados ao longo do tempo.

    Para profissionais de recursos humanos, líderes e autoridades, a reflexão assume contornos ainda mais relevantes, pois envolve diretamente cultura, clima organizacional, sucessão e desenvolvimento de figuras de exemplo. Em que momento o sucesso começa a silenciar o contraditório? Quando a admiração por um líder se transforma em ausência de confronto saudável? Como estruturar ambientes em que a ambição seja acompanhada por mecanismos de equilíbrio e responsabilidade?

    Autogovernança começa no indivíduo e se expande para a organização, manifestando-se na capacidade de reconhecer limites, valorizar perspectivas diversas e construir estruturas que sobrevivam à figura do líder. No âmbito institucional, traduz-se em conselhos atuantes, processos claros de sucessão, rituais consistentes de feedback e métricas transparentes que alinhem discurso e prática.

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    A trajetória de Alexandre demonstra que ambição, visão e coragem são forças capazes de alterar a história, enquanto a ausência de mecanismos de equilíbrio compromete a perenidade de qualquer projeto. Empresas e líderes contemporâneos enfrentam dilema semelhante em ambientes competitivos e dinâmicos, nos quais crescimento e reconhecimento caminham lado a lado com riscos crescentes.

    O verdadeiro teste da liderança reside na capacidade de sustentar conquistas com estruturas sólidas e cultura madura, garantindo que o sucesso de hoje não se transforme na vulnerabilidade de amanhã. Para quem atua em RH, formar líderes capazes de se autogovernar representa um investimento estratégico, pois são essas lideranças que transformam resultados expressivos em legados duradouros. Antes de governar impérios ou organizações, é preciso governar a si. A verdadeira autoridade nasce desse equilíbrio interno, e é ele que sustenta a grandeza quando o aplauso diminui, a solidão bate à porta e as decisões difíceis permanecem.

     

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