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Patricia Ansarah

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Criadora do Instituto Internacional de Segurança Psicológica (IISP).

Habilidades relacionais são vantagem competitiva

Saiba como a incapacidade de se relacionar bem no trabalho impacta o desempenho, gera estresse e eleva o turnover.

Por Patricia Ansarah, colunista da VOCÊ RH 31 mar 2026, 23h23
Fotografia de um homem e uma mulher sentados lado a lado, sorrindo.
 (Maskot/Getty Images)
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  • Durante décadas, vantagem competitiva foi associada à estratégia, à eficiência operacional e ao conhecimento técnico. Tudo isso continua relevante, mas há um elemento menos visível que tem definido quem sustenta resultados e quem perde consistência ao longo do tempo: a qualidade das relações.  

    Quando o desempenho individual oscila, a reação mais imediata costuma ser questionar competência. No entanto, o que frequentemente compromete a execução não é a falta de talento, e sim a dificuldade de trabalhar junto em contextos ambíguos, revisar metas sem rupturas e conduzir conflitos sem que eles se transformem em desgaste crônico. 

    Isso porque estratégia deixou de ser algo distante e passou a algo que se concretiza nas escolhas diárias, nas conversas que alinham prioridades e nas decisões que exigem ajuste contínuo. Se as relações não sustentam essa tensão, a estratégia se enfraquece antes mesmo de ser testada. 

    Trabalhar bem mudou de significado 

    O ambiente de trabalho tornou-se essencialmente interdependente. Times multidisciplinares, decisões que demandam articulação entre áreas, somadas a processos decisórios cada vez mais conectados, criaram um cenário em que praticamente nenhuma escolha é isolada. Uma decisão local reverbera em múltiplos pontos e um ajuste aparentemente pequeno altera fluxos inteiros. Nesse contexto, desempenho deixou de ser individual e passou a ser sistêmico. 

    Em ambientes marcados pela alta interdependência e complexidade crescente, trabalhar bem deixou de significar apenas entregar tarefas com excelência. Tornou-se a capacidade de oferecer clareza, coordenar esforços, revisar entendimentos e sustentar divergências.  

    Entendo isso como um exercício de maturidade relacional: a habilidade de conduzir tensão sem romper vínculos, de alinhar expectativas em meio à ambiguidade e de manter responsabilidade compartilhada mesmo quando há desacordo. 

    Essa nova compreensão sobre o que significa “trabalhar bem” não é algo abstrato. Ela se revela nas microdinâmicas do dia a dia, em comportamentos observáveis: 

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    • Reuniões em que todos concordam rápido demais porque ninguém quer parecer o único que não entendeu ou porque a agenda está muito corrida; 
    • Projetos que avançam com interpretações distintas sobre o mesmo objetivo porque faltou uma checagem de compreensão; 
    • Conflitos entre áreas que permanecem debaixo do tapete, gerando desgaste contínuo, conversas paralelas e decisões adiadas; 
    • Metas que mudam, mas não são renegociadas com clareza, acumulando frustração e insegurança. 
    • Líderes que evitam uma conversa difícil e colocam a responsabilidade no sistema. 
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    Nenhuma dessas situações é falha técnica… e sim fragilidades relacionais. E, em ambientes interdependentes, fragilidades relacionais não permanecem localizadas. Elas se expandem, contaminam decisões e reduzem a capacidade coletiva de aprender, ajustar rota e inovar. 

    O custo já é mensurável e crescente

    Segundo o último relatório da Gallup, apenas 21% dos trabalhadores no mundo estão engajados, enquanto 41% relatam níveis elevados de estresse diário. Esses números não dizem respeito apenas à satisfação ou ao clima organizacional. Eles sinalizam ambientes em que parte relevante da energia está sendo consumida por insegurança, desalinhamento e tensão mal-conduzida. 

    Cinco comportamentos sabotadores de carreira

    No Brasil, o cenário reforça a gravidade do tema: o Ministério da Previdência Social registrou mais de 546 mil afastamentos relacionados a transtornos mentais no último ano, um aumento de aproximadamente 16% em relação a 2024. Ainda que múltiplos fatores influenciem esse quadro, é difícil dissociá-lo das dinâmicas organizacionais que expõem pessoas à pressão constante, à ambiguidade não resolvida e a conflitos mal-estruturados. 

    Este dado desloca definitivamente o debate para a mesa de decisão dos negócios. 

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    Uma pesquisa recente do MIT Sloan Management Review traz um dado difícil de ignorar: cultura tóxica é, de longe, o principal motivo ligado aos pedidos de demissão. Seu impacto é aproximadamente três vezes maior do que fatores como insegurança no emprego, reorganizações ou mesmo oportunidades de inovação. Isso significa que, cada vez mais, as pessoas estão escolhendo sair das empresas por conta das experiências relacionais que vivem nelas.  

    Mas, quando as relações se fragilizam, a organização não perde apenas talentos. Perde conhecimento, motivação para colaborar e inteligência coletiva. 

    Sabemos que os afastamentos e desligamentos raramente começam no laudo médico ou na carta de demissão…eles têm origem na repetição de experiências que tornam a permanência desgastante: expectativas pouco claras, conversas evitadas, decisões unilaterais e conflitos que se acumulam sem resolução. 

    O que antes era lido apenas como indicador de turnover passa a ser também um indicador antecipado de riscos psicossociais que a própria organização vinha produzindo. 

    É justamente nesse ponto que a atualização da NR-1 ganha relevância estratégica. Ao incluir riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), a norma reconhece formalmente que fatores como conflitos mal conduzidos, metas ambíguas, comunicação agressiva, ausência de reconhecimento e cultura de medo deixam de ser apenas percepções individuais ou tema de clima. Tornam-se riscos organizacionais. 

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    Portanto, desenvolver maturidade relacional é o que diferencia empresas que administram sintomas daquelas que intervêm nas dinâmicas relacionais. 

    Inovação exige tensão produtiva 

    Os grandes fóruns globais de inovação, como o SXSW e a Innovation Week, vêm ampliando o debate sobre saúde social e qualidade das interações como condição para que o aprendizado aconteça, a inovação seja estimulada e o crescimento sustentável se mantenha ao longo do tempo. Essa discussão precisa sair da esfera do discurso aspiracional e ganhar seu lugar na agenda do negócio.  

    Nenhuma empresa se manterá competitiva e relevante se seus times estiverem fragmentados, porque ideias não circulam em ambientes assim. Ideias novas nascem justamente do encontro entre perspectivas distintas e contribuições diversas. 

    No entanto, são essas diferenças que mais geram tensão. Se esses momentos não são conduzidos com responsabilidade, o consenso superficial tende a prevalecer, silenciando a discordância e acomodando a criatividade.  

    O desafio central está em como trabalhamos melhor juntos em torno de um propósito comum. Isso não se constrói em eventos esporádicos, workshops pontuais ou treinamentos isolados. Crescemos relacionalmente no cotidiano, nas interações diárias, nos conflitos que escolhemos elaborar e nos vínculos de confiança que construímos. 

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    Relações são a infraestrutura  

    Quando uma organização aprende rápido e ajusta a estratégia com agilidade, o que está funcionando é a qualidade das interações entre os times e o nível de responsabilidade assumido por cada pessoa para que o todo avance.  

    Times disfuncionais tornam-se defensivos e produzem mais desgaste do que aprendizado. A empresa pode até ter uma estratégia inspiradora e um plano de execução brilhante, mas, se as relações não sustentarem a conversa que o plano exige, ele não sai do papel. 

    O que fazer, na prática 

    1. Desenvolver líderes para conduzir conflitos e desalinhamentos com responsabilidade. 
    1. Tornar explícitas as expectativas e revisar metas de forma aberta, reduzindo ambiguidades que geram desgaste. 
    1. Avaliar líderes não apenas pelos resultados entregues, mas também pela qualidade das relações que constroem. 
    1. Criar momentos regulares de reflexão sobre como o time está trabalhando junto e onde estão os pontos de tensão. 
    1. Tratar segurança psicológica como indicador estratégico de aprendizagem, saúde e resultados sustentáveis. 

    Habilidades relacionais não podem ser mais um tema periférico. Esta é a variável que sustenta a estratégia.  

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