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Patricia Ansarah

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Criadora do Instituto Internacional de Segurança Psicológica (IISP).

Máquinas eficientes, humanos mentalmente esgotados

Quando o desempenho da tecnologia acelera além da capacidade psíquica, o resultado pode ser um ambiente menos inteligente e mais vulnerável.

Por Patricia Ansarah, colunista da VOCÊ RH
20 fev 2026, 16h54 •
Colagem criativa jovem mulher com as mãos na cabeça.
 (Deagreez/Getty Images)
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  • A eficiência nunca esteve tão alta dentro das empresas. A automação reduziu erros, acelerou processos e ampliou a capacidade produtiva. Mas, paradoxalmente, os indicadores humanos caminham na direção oposta: times mais cansados, concentração fragmentada, aumento do estresse e queda da energia subjetiva necessária para pensar, criar e decidir.

    Essa contradição revela um dilema emergente no mundo do trabalho. Enquanto as máquinas evoluem em velocidade exponencial, os seres humanos operam no limite da exaustão. E o desequilíbrio entre essas duas forças já aparece nos indicadores de engajamento, saúde mental e inovação.

    O paradoxo da eficiência

    Dados recentes do State of the Global Workplace 2025, da Gallup, reforçam a gravidade do cenário:

    • apenas 23% dos trabalhadores globais dizem estar engajados;
    • 44% reportam níveis significativos de estresse diário;
    • cresceu o número de profissionais que afirmam “não ter energia para começar o dia”.

    A hipótese é clara: a eficiência operacional avançou mais rápido do que a capacidade humana de sustentar esse avanço.

    Em paralelo, executivos relatam outro fenômeno: quanto mais automação e dashboards são implementados, maior parece ser a pressão por entregas imediatas, previsibilidade e disponibilidade contínua. O que deveria aliviar o trabalho, em muitos casos, o intensificou.

    O custo do excesso de estímulos

    Nas organizações hiperconectadas, profissionais transitam entre plataformas, reuniões e demandas simultâneas sem tempo para recuperação cognitiva.

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    Neurocientistas têm chamado atenção para um fenômeno conhecido como brain rot (eleito, inclusive, palavra do ano de 2024), caracterizado pela deterioração da atenção causada pelo consumo rápido e fragmentado de estímulos digitais.

    Nas empresas, o brain rot se manifesta por:

    • dificuldade crescente de foco;
    • perda de profundidade analítica;
    • aumento de erros simples;
    • queda da criatividade;
    • sensação persistente de saturação mental.

    Em um ambiente guiado por métricas, metas inalcançáveis, notificações e prazos sobrepostos, o indivíduo passa do modo estratégico e pensante para o modo reativo, justamente o oposto do que o contexto atual exige.

    O impacto direto nos resultados

    A exaustão mental não é apenas um problema de saúde; é um risco organizacional. No relatório de 2024 da Gallup, os dados já sinalizavam o cenário que estamos vivendo: funcionários que experimentam alto estresse diário apresentam menor produtividade, menor engajamento e maior intenção de deixar o emprego. Em escala coletiva, isso significa que times esgotados tomam piores decisões, colaboram menos e inovam menos.

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    Organizações que mantêm alta pressão e oferecem pouca segurança psicológica para repactuar acordos tendem a enfrentar:

    • aumento da rotatividade;
    • queda da produtividade marginal;
    • maior aversão a riscos;
    • decisões conservadoras em excesso;
    • silenciamento de sinais críticos.

    Amy Edmondson, referência global em segurança psicológica, afirma que a ausência dessa segurança se revela justamente na presença do medo, da aversão a riscos, do silêncio estratégico e do desengajamento. E isso pode nos levar a um ponto cego perigoso: empresas eficientes demais podem se tornar menos inteligentes.

    Por que a tecnologia não resolve sozinha

    A automação reduz tarefas repetitivas, mas não substitui discernimento, criatividade e tomada de decisão contextual.

    E esses três elementos dependem de condições emocionais estáveis, energia mental disponível e culturas que permitam divergência, experimentação e diálogo.

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    Sem esses ingredientes, a organização corre o risco de operar como uma máquina sofisticada com pensamento empobrecido por falta de energia mental e psíquica.

    O que a liderança precisa fazer agora

    Quem está só observando o problema de perto faz parte dele também, e pode iniciar pequenos movimentos estratégicos para mudar esse cenário:

    1. Reduzir ruído e aumentar clareza

    Não se trata de diminuir ambição, mas de diminuir interferências. Critérios claros de prioridade e redução de burocracia liberam energia mental para o que realmente importa.

    1. Proteger tempos de foco e recuperação

    Empresas de alta performance alternam velocidade com profundidade. A ausência dessa alternância gera produtividade aparente, mas resultados frágeis, que não se sustentam e geram retrabalho.

    1. Criar dinâmicas para tomada de risco interpessoal

    Segurança psicológica não significa conforto. Significa permitir que as pessoas se exponham, questionem decisões, levantem alertas e proponham caminhos novos sem medo de como serão percebidas. É isso que faz com que ideias circulem, sustenta a inovação, o processo de aprendizagem e melhora a qualidade das decisões.

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    O futuro não será o mais rápido, será o mais sustentável

    A discussão sobre eficiência ganha um novo contorno. Para prosperar na próxima década, organizações precisarão equilibrar tecnologia sofisticada com práticas que preservem e ampliem a energia humana. Sem isso, as conexões se perdem, as conversas se esvaziam, o aprendizado não acontece.

    A questão que fica é simples e estratégica: se as máquinas já atingiram (ou caminham para atingir) o desempenho máximo, o que estamos fazendo para garantir que os humanos continuem capazes de pensar, criar e decidir de forma colaborativa?

    O futuro do trabalho não depende apenas de inovação tecnológica. Depende do que estamos compreendendo como eficiência.

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