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Paulo Campos

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É mestre em psicologia da educação, professor na Fundação Dom Cabral e autor do livro "A estreia do líder: os primeiros passos na trilha da liderança".

Lições de liderança ousada inspiradas na escritora best-seller Brené Brown

A mentalidade do paradoxo, o poder do "não sei"... Conheça essas e outras dicas para lideres baseadas no novo livro da autora: "Strong Ground".

Por Paulo Campos, colunista da VOCÊ RH
17 jan 2026, 17h20 •
Uma mulher de perfil.
 (BBeargTeam/Wikimedia Commons)
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  • O ano de 2026 não pede apenas novas estratégias; ele exige uma nova fisiologia de liderança. Em um cenário em que a inteligência artificial redefiniu a competência técnica, e a volatilidade global é a norma, a velha armadura do “líder herói” –  aquele que tem todas as respostas e nunca demonstra dúvida – tornou-se um peso morto. Ela não protege mais, ela sufoca.

    Com base nas pesquisas mais recentes de Brené Brown em Strong Ground: The Lessons of Daring Leadership, the Tenacity of Paradox, and the Wisdom of the Human Spirit, e ampliando o olhar com filosofias de resiliência, podemos refletir sobre alguns pontos, que você lerá a seguir.

     

    A física da liderança: o que realmente significa “Terreno Firme”

    Muitos confundem estabilidade com imobilidade. Brown desmistifica isso ao contar a origem do termo Strong Ground (“Terreno Firme”), que surgiu de uma lesão jogando pickleball (um tipo de mistura de tênis e ping-pong). Seu treinador lhe ensinou que ela precisava encontrar uma “postura atlética”: pés conectados ao chão, joelhos flexionados, corpo pronto.

    Para 2026, entenda: terreno firme não é um lugar seguro onde você se esconde. É uma postura de prontidão. É a única base que oferece, simultaneamente, estabilidade inabalável no caos e uma plataforma para a mudança explosiva e rápida que o mundo exige.

    Sua base é composta por dois elementos inegociáveis:

    1. Sua própria base (footing): seus valores, sua curiosidade, sua humildade e um senso claro de sua contribuição. Sem isso, qualquer vento o derruba.
    2. Sua conexão: o vínculo com outras pessoas que também estão em seu próprio terreno firme. Liderança solitária é liderança frágil.

    Pense no conceito de antifragilidade, cunhado pelo autor e estatístico Nassim Nicholas Taleb no livro Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o caos. É algo que vai além da resiliência ou da robustez. O vidro é frágil, se você o golpeia, ele quebra. O plástico é robusto, ele resiste. O sistema imunológico é antifrágil: ele precisa do ataque para ficar mais forte. A “postura de prontidão” de Brown é o pré-requisito para ser antifrágil. Você não quer apenas resistir a 2026; você quer que os desafios do ano o tornem um líder melhor.

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    A Mentalidade do Paradoxo: o fim do pensamento binário

    O cérebro humano odeia a tensão. Queremos preto ou branco, certo ou errado. Brown nos alerta: “Nós somos os que desistimos da tensão; o paradoxo nunca desiste”. Tentar escolher um lado em questões complexas é uma armadilha que limita sua visão.

    Para liderar no próximo ano, você precisa dominar o que Jim Collins – pesquisador, palestrante e escritor especializado em gestão de negócios – chama de “O Gênio do E”.  Você não escolhe entre opostos; você aprende a sustentar a tensão entre eles para criar algo.

    • Não é propósito ou lucro; é propósito e lucro.
    • Não é liberdade ou responsabilidade; é liberdade e responsabilidade.
    • Não é quebrar o que não funciona ou proteger o essencial; é fazer ambos simultaneamente.

    Colocando na prática: quando sua equipe vier com um dilema de “ou isso ou aquilo”, sua função como líder é rejeitar a escolha forçada. Pergunte: “Como podemos fazer ambos? O que precisamos inventar para que essas duas verdades coexistam?”.

    A arte da “capacidade negativa”: o poder do “não sei”

    Vivemos em uma cultura de busca irritável por fatos e razão. Diante da incerteza, corremos para o Google, para dados incompletos ou para opiniões precipitadas apenas para aliviar nossa ansiedade.

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    Brené Brown resgata o conceito do poeta John Keats sobre a “capacidade negativa”: a habilidade de permanecer em incertezas, mistérios e dúvidas sem essa busca irritável.

    Em 2026, a verdadeira coragem será a capacidade de um líder dizer: “Eu não sei. Precisamos desacelerar para tomar a melhor decisão”. Isso não é fraqueza; é uma ferramenta de aterramento que impede você e sua equipe de buscar respostas falsas ou superficiais apenas para se sentirem seguros.

    Isso se assemelha à “mente de principiante” (esse conceito – Shoshin – do budismo zen, que descreve a atitude de abertura, entusiasmo e ausência de preconceitos ao aprender algo novo, como um iniciante faria, mesmo sendo um especialista, para manter a curiosidade e a receptividade a novas possibilidades, combatendo a rigidez do conhecimento avançado). O especialista tem poucas possibilidades porque acha que já sabe. O principiante tem infinitas possibilidades. Cultive a mente que está confortável no não saber.

    Ferramentas táticas para o caos diário

    O livro de Brené Brown oferece ferramentas extremamente práticas para operacionalizar essa coragem. Duas se destacam para o dia a dia corporativo:

    – Desenvolver Pocket Presence (“presença de bolso”)

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    Essa metáfora vem do futebol americano. O quarterback tem cerca de 2,5 segundos antes que a defesa adversária (cerca de 500 kg de pressão humana) rompa sua proteção.

    Pocket Presence é a habilidade de sentir essa pressão ao redor sem olhar para ela, mantendo os olhos no campo para encontrar as oportunidades.

    • O erro comum: líderes que só olham para a “defesa” (os problemas, as fofocas, as crises menores) perdem a visão do campo. Líderes que ignoram a pressão são “sacados” (atropelados).
    • O objetivo é ler o contexto que não é visível. Confiar em si mesmo e na equipe para segurar a barra enquanto você toma as decisões difíceis sob pressão.

    – Clareza radical com os 5 Cs

    Comunicação vaga gera ansiedade. Para garantir alinhamento total em 2026, nunca delegue uma tarefa ou inicie um projeto sem cobrir os 5 Cs:

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    1. Contexto: o que mais está acontecendo? Qual a história por trás disso?
    2. Cor: pinte a visão. Qual é o nível de urgência? Estamos apenas tendo ideias ou partindo para a execução?
    3. Conexão: como isso se liga a outras estratégias? Qual será o efeito-cascata em outros departamentos?
    4. Custo: qual é o custo real em dinheiro, tempo, foco e sanidade? Todos concordam com esse preço?
    5. Consequência: o que está em jogo? O que acontece se não fizermos isso.

    Autoconhecimento: onde você está na linha?

    Brené Brown introduz a ferramenta “acima ou abaixo da linha” para monitorar nosso estado emocional. A “linha” é o medo.

    Abaixo da linha (impulsionado pelo medo), nossos comportamentos são reativos e inconscientes. Caímos nos papéis de um triângulo dramático: Herói: “Deixa que eu faço sozinho” (centralizador); Vítima: “Ninguém me entende/O mercado está contra nós”; Vilão: “De quem é a culpa disso?” (focado em punição).

    Acima da linha (impulsionado pela consciência), sentimos o medo, mas estamos no controle. O triângulo aqui é Criador: “Precisamos construir sistemas melhores”; Desafiador: “Como podemos consertar isso?”; Coach: “Vamos procurar padrões aqui para aprender”.

    Seguindo essa ferramenta em 2026, quando estiver em momentos de estresse, pare e pergunte: “Estou operando acima ou abaixo da linha?”. Se estiver abaixo, não tome decisões. Respire. Mude sua postura.

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    Resiliência e adaptação

    Para fechar, duas lições cruciais sobre sobrevivência e evolução.

    O Paradoxo de Stockdale

    O Almirante Jim Stockdale, prisioneiro de guerra por oito anos, ensinou que os otimistas não sobrevivem. Eles morrem de “coração partido” esperando ser resgatados até o Natal.

    A verdadeira resiliência exige que você confronte os fatos mais brutais da sua realidade atual (por piores que sejam), sem nunca perder a fé de que prevalecerá no final. Em 2026, não venda ilusões para sua equipe. Seja honesto sobre as dificuldades, mas inabalável sobre o destino.

    Ficar parado nunca funciona

    O lendário técnico da NBA Gregg Popovich nos lembra que Standing Pat (manter as cartas que recebeu no pôquer sem tentar trocá-las) é uma estratégia perdedora. O jogo muda, as pessoas mudam. A liderança não é um destino aonde você chega e descansa; é um compromisso contínuo com descartar o que não serve mais e buscar novas cartas.

    Em 2026, abandone a ideia de que você precisa ser um líder blindado, aquele que sabe tudo e nunca erra. Essa armadura pesa demais. Troque-a pela “confiança fundamentada”: a certeza de que você pode aprender, desaprender e lidar com o que vier.

    Lembre-se: não há linha de chegada. Há apenas o terreno sob seus pés, a equipe ao seu lado e a coragem de dar o próximo passo.

    Respire fundo. Encontre seu terreno. E vamos trabalhar.

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