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Vívian Rio Stella

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Doutora em Linguística pela Unicamp. Idealizadora, curadora e professora da VRS Academy, pesquisa e desenvolve trabalhos voltados à lifelong learning

Por que rotular as gerações nos faz perder o essencial da comunicação

Ao evitar estereótipos etários, você cria diálogos que realmente funcionam nas empresas.

Por Vivian Rio Stella, colunista da VOCÊ RH
16 nov 2025, 22h28
Miniatura de pessoas encapsuladas em tubos de ensaios transparentes.
 (Freepik/Reprodução)
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Nas reuniões da minha família, crianças e adolescentes ouviam, ao longe, adultos conversarem. Estávamos brincando ou sentados à mesa da cozinha afinal, a mesa de jantar era deles, dos adultos. As poucas perguntas direcionadas para nós eram, geralmente, bem previsíveis: “como está a escola”, “já sabe o que vai ser quando crescer?”, “como você cresceu!”. 

Quando comecei a trabalhar, minha mãe me aconselhou: se pedirem para você fazer café, tirar cópia, o que for, faça. 

Ao sentir os desconfortos das dinâmicas do trabalho, costumava ouvir que era melhor relevar, não criar problema, deixar quieto que as coisas passariam ou se resolveriam sozinhas.

Pode ser que você se identifique com essa descrição, pode ser que a considere fruto de um passado longínquo, quase irreal nos dias de hoje, pode ser que pense que não está tão distante da sua realidade ou, ainda, que era melhor quando as coisas eram assim.

Fato é que a comunicação entre pessoas de diferentes idades sempre existiu, nas famílias e no trabalho. Mas a sua dinâmica era historicamente ditada pela hierarquia e pela experiência. A experiência ou a idade era um “passe livre” para quem falava, e a juventude ou a falta de experiência implicava, muitas vezes, silêncio e escuta obrigatória. 

Com todas as transformações que a nossa sociedade vivencia, novas dinâmicas e modos de gestão surgiram, o que propiciou uma maior democratização das vozes. As diferentes representações têm voz, o que permite que temas tabus passem a ser tema de conversas em diferentes lugares, reivindicação de direitos comece a ocupar holofotes, e pessoas que antes não eram ouvidas já se expressam e ganham visibilidade. 

E isso ocorre, claro, no recorte geracional, indo muito além da visão simplista de quem nasceu imerso em um mundo digital ou não; quem tem pressa para ser promovido e quem soube esperar; quem é nutella ou raiz, como se dizia há algum tempo. Há listas de palavras para dizer ou evitar na comunicação intergeracional, que reforçam justamente esses estereótipos.  

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Tais simplificações transformam indivíduos complexos em caricaturas, ignorando o fato de que as atitudes, os valores e os estilos de trabalho variam muito mais dentro de cada geração do que entre elas. 

Pesquisas mostram que as diferenças dentro de cada geração são maiores do que as diferenças entre uma geração e outra (Lyons & Kuron, 2014; Twenge, 2018). Ou seja: não é a idade que explica o comportamento, mas a história de vida, o contexto de trabalho, as responsabilidades do momento, o caráter das relações em que a pessoa está inserida.

Considerando isso, a verdadeira comunicação começa quando reconhecemos que todos os profissionais, independentemente da idade, partilham necessidades fundamentais no ambiente de trabalho:

  1. Busca por propósito: sentir que o trabalho é significativo.
  2. Necessidade de respeito: ser valorizado e ouvido.
  3. Desejo de conexão: sentir-se parte de uma equipe.
  4. Valorização da flexibilidade: ter autonomia sobre o modo de trabalhar.

Ao enfatizar esses pontos em comum, transformamos o desafio da idade numa oportunidade de colaboração e empatia. É fundamental, como sugerem estudos, procurar ativamente construir amizades e conexões intergeracionais no trabalho, pois essas são as fundações para um entendimento mútuo profundo.

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Estratégias de comunicação para ir além dos rótulos geracionais

Para falar “a mesma língua” nesses contextos intergeracionais, é necessário adotar princípios universais de comunicação que priorizem o diálogo e o respeito, o que, na prática, se relaciona com o que Claudio Thebas nos convida a fazer: abrir frestas nos muros de desconexão que os rótulos criam.

De forma prática, três boas práticas podem favorecer essas frestas se abrirem:

1. Transformar crítica em ação colaborativa

Existe uma perceção comum, frequentemente atribuída aos profissionais mais novos, de que são “bons em criticar e ter ideias, mas menos em executar e fazer”. Paralelamente, os profissionais mais experientes valorizam a ação, a execução e a conclusão de tarefas.

A semelhança: a frustração de uma ideia não se concretizar não é geracional; é sobre a distância entre a visão e a realidade.

Estratégia de comunicação:

  • Foco na transição: ao receber uma crítica ou ideia (dos mais jovens) ou ao delegar uma tarefa (dos mais experientes), a comunicação deve se focar na ponte entre a ideia e o plano de ação. Pergunte: “Essa é uma excelente visão. Quais são os próximos três passos concretos para a tirarmos do papel?”
  • Valorização da execução: os profissionais mais experientes devem comunicar o valor e a complexidade da execução, não para criticar, mas para ensinar. Os mais jovens devem comunicar as ideias ancoradas num entendimento, mesmo que superficial, dos desafios de implementação.
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2. Feedback constante

O desejo por feedback constante é frequentemente associado aos Millennials e à Geração Z, que cresceram em culturas de gamificação e avaliação imediata. Contudo, todos os seres humanos buscam validação, reconhecimento e orientação para melhorar. O que mudou não é a necessidade, mas sim a frequência e o formato.

A semelhança: todas as gerações querem saber se estão a fazer um bom trabalho e o que precisam de mudar.

Estratégia de comunicação:

  • Miniconversas: substitua a avaliação anual por “check-ins” frequentes, informais e curtos. Esse modelo atende à necessidade de orientação imediata das gerações mais novas e permite aos profissionais mais experientes partilharem insights em tempo real.
  • Feedback humanizado: use a abordagem de “reforço positivo e orientação específica”. Comunique o que correu bem primeiro e depois sugira uma ou duas mudanças concretas e acionáveis em vez de uma lista de falhas.

3. O respeito pela experiência de todos

A atenção ao cuidado com as palavras para evitar microagressões ou impactar negativamente a saúde mental é uma exigência crescente no local de trabalho moderno, muitas vezes percebida como uma necessidade das gerações mais novas. No entanto, ser respeitoso, empático e comunicar de forma não violenta é um princípio de boa convivência para qualquer idade.

A semelhança: ninguém quer se sentir desvalorizado, atacado ou marginalizado no trabalho.

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Estratégia de comunicação:

  • Foco na mensagem: em vez de usar jargão geracional ou acusações (“Isso é muito Millennial”), comunique sobre o impacto da mensagem. Por exemplo, “Quando dizemos ‘X’, o impacto é que ‘Y’ se sente subvalorizado. Podemos tentar dizer ‘Z’ em vez disso?”
  • Troque a acusação por compreensão: Antes de reagir a algo que soa ofensivo ou desrespeitoso, compreenda que uma expressão naturalizada pela pessoa pode ser fruto de seu repertório e que ninguém nunca ponderou o efeito que ela poderia causar. Se o contexto for adequado ou sentir necessidade, você pode dizer que comentar sobre como “uma mulher está ótima para sua idade” ou “se não está na hora de se aposentar” te causam um desconforto, mesmo sem intenção da outra pessoa. Não é acusar, mas ponderar. E isso pode ser um caminho de aprendizado mútuo e descobertas para além dos rótulos de idade ou geração que colocamos ao conversar com outra pessoa. 

A conversa que precisamos ter

O que nos causa estranheza e o percebemos como “divisão geracional” é, na verdade, o desconforto da adaptação. As novas dinâmicas de socialização e trabalho deram espaço para que as gerações mais jovens vocalizassem necessidades que antes eram silenciadas, tal como eu vivenciei nas reuniões de família ou como ouvi no começo da minha carreira, quando me disseram para não criar problemas e fazer tudo sem questionar. Foi uma jornada de coragem e capacitação para transpor essa crença aprendida desde cedo.

A comunicação intergeracional eficaz é, portanto, o reconhecimento de que todos merecem ser ouvidos com respeito, independentemente do ano de nascimento.

Não deveríamos tentar que as gerações “falem igual”, mas sim que se reconheçam. A conexão constrói-se quando quem já viveu muitos ciclos partilha o que aprendeu sem nostalgia e sem autoridade excessiva. E também quando quem chega com novas ferramentas propõe caminhos sem desqualificar o que veio antes.

Não existe convivência saudável sem a crença de que cada pessoa tem algo a ensinar e algo a aprender.

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Quando isso acontece, a conversa deixa de ser sobre a idade e volta a ser sobre o que realmente importa: como queremos trabalhar e viver juntos.

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