Para pessoas com deficiência, empreender é alternativa à exclusão corporativa
Levantamento revela que 62% das PcD empreendedoras gostariam de continuar trabalhando como funcionárias, mas são impedidas pelo capacitismo.
Mais da metade (54%) das pessoas empreendedoras com deficiência e/ou neurodivergentes recorreram ao empreendedorismo após perderem o emprego ou por barreiras nas empresas em que trabalhavam. E 62% prefeririam continuar atuando como funcionárias. É o que revela a pesquisa “Radar da Inclusão 2025”, realizada pela Talento Incluir e pelo Pacto Global da ONU – Rede Brasil.
Do total de 1765 participantes do levantamento, 84% estão inseridos no mercado de trabalho ou em busca de recolocação. Dessa parcela, 78% já enfrentaram dificuldades em processos seletivos e 1 em cada 10 não se identificam como PcD e/ou neurodivergentes no currículo, sobretudo por receio de sofrer capacitismo. Aliás, 77% dos entrevistados relataram ter passado por alguma situação capacitista enquanto trabalhavam em uma empresa, apenas 23% relataram o caso à organização e 8 em cada 10 não se sentiram acolhidos após o episódio.
A saúde mental também é um tabu: a maioria das pessoas empregadas (77%) não se sente confortável para falar com lideranças ou o RH sobre o tema. E, ainda que metade das empresas ofereçam treinamentos ou programas específicos para PcD, 57% dessas iniciativas de apoio psicológico não são totalmente adequadas ou acessíveis.
“Os dados mostram que o ambiente de trabalho ainda não está preparado para garantir inclusão com dignidade. E expõem o desafio da busca por transformar o trabalho não-digno que vivenciamos, um tema que permanece à margem de grande parte das discussões sobre diversidade no Brasil”, afirma Carolina Ignarra, CEO da Talento Incluir.
Rota alternativa
Diante da exclusão do trabalho formal, muitas pessoas encontram no empreendedorismo o caminho para afirmar sua identidade profissional. É o caso de Breno Oliveira, dono da gelateria il Sordo, onde 80% dos funcionários são pessoas com deficiência auditiva.
Surdo desde o nascimento, ele chegou a estudar TI na faculdade, mas não seguiu no curso por falta de acessibilidade. Partiu, então, para a formação de Letras e Libras, e iniciou uma carreira CLT como instrutor em línguas de sinais. Contudo, processos seletivos pouco acessíveis foram um impeditivo para ele continuar na busca por trabalho.
Essas experiências resgataram nele os ensinamentos de oficinas de empreendedorismo que participou durante o período escolar. Foi quando decidiu que abriria um negócio. Depois de muito pesquisar, Breno aceitou a sugestão do pai e foi fazer um curso de gelato. E, mesmo sem intérprete, amou.
Após se especializar, ele abriu a il Sordo, que oferece um atendimento inclusivo e autônomo, sem dependência de ouvintes para a comunicação. Fundada em Aracaju, em uma década a gelateria se expandiu para São Paulo e Salvador e deve ganhar outras lojas no futuro.
O trabalho é um direito
“Quando uma empresa deixa de contratar uma pessoa com deficiência, está renunciando a criatividade, inovação e pessoas que vão agregar valor aos seus times”, explica a psicóloga Pri Siqueira.
Mulher com nanismo, logo cedo ela aprendeu a buscar seus direitos no mercado de trabalho, mostrando que suas habilidades importam mais que sua deficiência. Em seu primeiro estágio, Pri precisou lidar com um dos obstáculos que mais exclui PcD do mundo corporativo: a barreira atitudinal. Apesar do bom desempenho no programa, ela não foi efetivada porque, segundo a empresa, não tinha a mobilidade necessária exigida para o cargo.
Esse e outros desafios a levaram, em 2020, a criar a ONG PcD Vale, primeira no Brasil com foco no protagonismo da pessoa com deficiência LGBTQIA+ e que colabora para a inclusão por meio de consultoria de acessibilidade e geração de conteúdo para redes sociais.
“Temos que aprender sempre e ensinar. Investir em nossas carreiras e refinar nossas habilidades entendendo que elas valerão mais que nossas deficiências. Todo dia vamos lidar com o capacitismo e com a ‘fadiga de acesso’, que é explicar o tempo todo que precisamos de recursos e caminhos diferentes das pessoas sem deficiência. O trabalho não é caridade, é nosso direito”, conclui Pri, que também atua como consultora especializada em diversidade na TV Globo.
O impacto da exclusão
Formada em design do produto, Thayane Barbosa é uma mulher cadeirante que criou a própria empresa após várias tentativas de entrar no mercado de trabalho – em certa ocasião, por falta de acessibilidade, foi submetida a fazer uma entrevista do lado de fora da organização.
“Um processo seletivo não inclusivo é tão violento quanto ficar estagnado em uma carreira, sem promoção, sem desenvolvimento, apenas para que as empresas cumpram seu papel perante a lei. Além de impactos na nossa trajetória profissional, essa exclusão causa danos à saúde mental das pessoas com deficiência”, ela destaca.
Especialista em Marketing, há três anos ela fundou a Teagá Digital, agência de Social Media que atende empresas que querem expandir os negócios nas redes sociais. Hoje, Thay sente que fez a melhor escolha ao migrar para o empreendedorismo. Mas alerta que é fundamental entender e testar as habilidades na hora de escolher o negócio.
“A pessoa com deficiência é importante para as empresas porque traz o potencial de resiliência e criatividade que precisou desenvolver para passar por inúmeras barreiras desde cedo”, finaliza.







