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Avanço da IA reposiciona perfis neurodivergentes como ativos estratégicos

Ao priorizar competências como pensamento não linear, visão sistêmica e capacidade de adaptação, mercado passa a reconhecer quem antes estava fora do padrão.

Por Izabel Duva Rapoport 31 mar 2026, 18h13
Ilustração de silhuetas de pessoas em fundo branco.
 (Helen Shilina/Getty Images)
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  • À medida que sistemas automatizados assumem tarefas repetitivas e previsíveis, cresce a demanda por habilidades humanas menos lineares como pensamento crítico, reconhecimento de padrões complexos e capacidade de conectar diferentes áreas do conhecimento, segundo afirma o educador Tiago Zanolla. Dados do Stanford Neurodiversity Project, iniciativa da Universidade Stanford dedicada a estudar o impacto da neurodiversidade na educação e no mercado de trabalho, indicam que entre 15% e 20% da população mundial apresenta algum tipo de neurodivergência.

    No Brasil, isso pode representar até 40 milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, pesquisas da Drexel University mostram que 85% dos adultos autistas estão fora do mercado formal, evidenciando um desalinhamento entre potencial cognitivo e empregabilidade – descompasso que já começa a ser reduzido.

    Em dezembro de 2025, Alex Karp, CEO da Palantir Technologies, anunciou a criação de um programa voltado à contratação de talentos neurodivergentes, com salários que podem chegar a US$ 200 mil por ano e sem exigência de diagnóstico formal. De acordo com Tiago, que também é autor e fundador da UFEM Educacional, além de autista, esse movimento sinaliza uma mudança relevante nos critérios de avaliação das empresas.

    Para ele, o cenário atual expõe uma limitação histórica dos modelos tradicionais de formação e de processos seletivos. “A escola foi estruturada para padronizar comportamento e aprendizado. O problema é que o mercado que está surgindo valoriza justamente o oposto: ele precisa de pessoas capazes de interpretar, conectar e questionar”.

    Por isso, ao identificar padrões recorrentes em sua atuação na formação de candidatos para concursos públicos, o especialista desenvolveu um método que seleciona apenas o que considera essencialmente relevante. “A lógica parte do princípio de que uma parcela menor do conteúdo, quando bem direcionada, pode gerar mais resultado do que uma exposição ampla e pouco estratégica”, explica.

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    A nova estrutura, segundo o fundador, conecta estudantes a cursos reconhecidos pelo MEC em formatos mais curtos e flexíveis, com foco em adultos que interromperam a formação ao longo da vida. “A ideia é reduzir barreiras como tempo, custo e rigidez curricular, que ainda afastam parte significativa da população do ensino superior”.

    Competências neurodivergentes

    Pesquisas conduzidas por Simon Baron-Cohen, da Universidade de Cambridge, apontam que pessoas no espectro autista apresentam, em média, maior capacidade de identificação de padrões, habilidade central em áreas como análise de dados e machine learning. Já estudos sobre TDAH indicam que, em ambientes de alta estimulação, esses indivíduos podem atingir níveis de concentração intensos.

    “Esse conjunto de características passa a ter valor direto no contexto em que a IA reduz a importância do trabalho operacional e amplia a necessidade de interpretação e tomada de decisão”, descreve o educador. “Em vez de executar tarefas, o profissional passa a ser responsável por formular perguntas, validar respostas e identificar inconsistências”.

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    Ele explica que, no Brasil, essa transformação ocorre em paralelo a mudanças na graduação. O país atingiu 9,98 milhões de matrículas em 2023, segundo o Censo da Educação Superior, com crescimento de 5,6% em relação ao ano anterior. A educação a distância já representa 49,3% dos alunos e deve ultrapassar o ensino presencial nos próximos ciclos. “O crescimento mais acelerado ocorre entre estudantes fora da faixa etária tradicional, especialmente acima dos 30 anos”, diz.

    Modelos tradicionais versus Diversidade de perfis

    Ainda assim, a permanência dos alunos continua sendo um desafio e, segundo Tiago, as taxas de evasão elevadas indicam que o modelo educacional não acompanha a diversidade de perfis e rotinas dos estudantes. Para ele, essa é uma das razões pelas quais parte significativa da população adulta interrompe a formação ao longo da vida. “Existe uma diferença entre dificuldade de aprender e inadequação ao formato. Muitas pessoas foram excluídas por não se encaixarem em um modelo que não foi feito para elas”.

    Nesse sentido, o fundador da UFEM Educacional ressalta que a IA não apenas cria novas demandas, como também expõe falhas antigas. “Ao priorizar competências como pensamento não linear, visão sistêmica e capacidade de adaptação, o mercado passa a reconhecer valor em perfis que antes eram considerados fora do padrão”.

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    Redefinição de talentos

    Relatórios da Job Accommodation Network indicam que as adaptações para inclusão de profissionais neurodivergentes, em geral, não tem custo e ainda mostram ganhos em produtividade e inovação, tendo em vista a diversidade cognitiva nas equipes. Além disso, para o especialista a mudança reflete uma revisão estrutural sobre o que é considerado talento. “Durante muito tempo, o mercado premiou quem se adaptava melhor ao modelo. Agora começa a valorizar quem enxerga o que o modelo não mostra”.

    “Nesse cenário, onde o diferencial humano tende a migrar da execução para a interpretação, perfis que historicamente ficaram à margem passam a ocupar posições estratégicas, não por adaptação, mas por capacidade de operar onde a máquina ainda não alcança”, conclui Tiago.

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