Cientistas de dados e engenheiros de IA: as profissões do futuro na oncologia
Avanço da inteligência artificial impulsiona demanda por novos perfis profissionais e expõe escassez de especialistas em áreas estratégicas.
O avanço da inteligência artificial está promovendo uma transformação estrutural no mercado de trabalho em Medicina Diagnóstica e Patologia. Nos próximos anos, a demanda por novos perfis profissionais, como cientistas de dados, engenheiros de IA e de prompts, deve crescer exponencialmente, em um cenário já marcado pela escassez no setor.
Exemplo desse déficit é que o Brasil conta atualmente com apenas 4.424 patologistas, o equivalente a 2 profissionais para cada 100 mil habitantes. O índice está abaixo do patamar ideal estimado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que recomenda 6 patologistas para esse mesmo grupo populacional. Os dados são da pesquisa Demografia Médica no Brasil 2025 (Ministério da Saúde, FMUSP e AMB) e evidenciam o desafio do setor no momento em que a genômica e os exames moleculares tornam-se cada vez mais automatizados e complexos.
“A integração entre patologia e genômica possibilita ganhos de eficiência e precisão diagnóstica ainda maiores, especialmente em tumores complexos. A Medicina de Precisão consolida-se como a convergência entre análise histopatológica, dados moleculares, e interpretação clínica qualificada, reforçando a tecnologia como aliada, e não substituta do cuidado”, explica Rodrigo Dienstmann, diretor da OC Medicina de Precisão da Oncoclínicas&Co.
Para Dienstmann, embora a IA identifique padrões sugestivos de uma doença ou alteração molecular, a tomada de decisão clínica permanece multifatorial e dependente do julgamento clínico. Isso reforça a urgência de treinamento específico para que o corpo clínico utilize essas ferramentas de forma ética e segura.
“Funções administrativas tendem à automatização, mas o mesmo não ocorre com médicos. A validação dos resultados e a responsabilidade ética e legal do diagnóstico permanecem exclusivamente humanas. O ecossistema está em transformação, os profissionais se adaptam, mas seguem no centro das decisões clínicas”, reforça o oncologista.
O futuro é colaborativo
Nesse novo cenário, ganham protagonismo carreiras até então pouco associadas à área da saúde. Cientistas de dados e engenheiros de IA passam a atuar no entorno clínico, apoiando a integração de sistemas, o relacionamento com patologistas e biólogos moleculares, e a “tropicalização” de algoritmos globais. Esses profissionais ampliam a capacidade de escala da equipe médica, por meio do trabalho colaborativo.
O grande desafio, no entanto, está na formação e capacitação. O médico do futuro exigirá formação contínua, possivelmente por meio de especializações em Oncologia Digital. Sobre esse tema, Dienstmann é categórico ao afirmar que a solução não passa por transformar médicos em engenheiros.
“Treinar o médico para usar a IA de forma crítica é a chave para escalar o cuidado de excelência. A IA não é capaz de processar com precisão os contextos sociais e emocionais do paciente. Por isso, o caminho é atrair profissionais de engenharia de dados para a área da saúde, permitindo que o oncologista mantenha o foco na responsabilidade da decisão médica, no cuidado e no acompanhamento do paciente”, finaliza.







