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Insights do SXSW 2026: o humano retoma o protagonismo no futuro do trabalho

Com a inteligência artificial consolidada como infraestrutura, o desafio do RH agora é assumir a regência da colaboração entre as pessoas e a tecnologia.

Por Isadora Gabriel, CHRO da Flash 3 abr 2026, 12h00
Imagem digital gerada de uma jovem em pé, cercada por planilhas de dados multicoloridas e ícones de bate-papo de redes sociais organizados em um padrão circular ao seu redor, contra um fundo roxo.
 (Andriy Onufriyenko/Getty Images)
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A inteligência artificial virou pano de fundo para que o humano volte a ser o protagonista. Se em anos anteriores os debates do SXSW foram pautados pelos rumos da IA generativa enquanto ferramenta tecnológica, nesta edição de 40 anos do festival as conversas foram permeadas por um questionamento mais profundo: o que esperar do futuro se a tecnologia, criada para nos expandir, ameaça nos atrofiar?

Esta foi a minha terceira vez em Austin, no Texas (EUA), acompanhando a maratona do SXSW, maior festival de inovação do mundo e um ecossistema plural onde startups inovadoras, tecnologia de ponta, música e cinema se fundem para ditar o que vem por aí.

Se em 2023 e 2025 saímos das sessões hipnotizados pelas ferramentas, em 2026 a sensação é de que elas já foram incorporadas ao nosso dia a dia e a questão que se põe agora é o que estamos deixando a IA fazer conosco.

Os sete dias de evento, que neste ano deixou o Convention Center para ocupar diversos hotéis e espaços espalhados pela capital do Texas, revelaram que estamos diante de um cenário ambíguo e em plena construção.

Ao colocar visões distintas e muitas vezes complementares lado a lado (o que, na minha opinião, torna o evento tão relevante), o SXSW deixa claro que o objetivo não é entregar respostas prontas, mas nos provocar e elevar a qualidade das perguntas que estamos fazendo enquanto organizações, governo e sociedade em geral.

A seguir, compartilho cinco insights do festival que ficaram comigo ao longo dessa jornada e como eles devem redesenhar, na prática, o papel de lideranças e do RH:

1. O risco de terceirizar emoções

Em uma performance memorável, a futurista Amy Webb, CEO do Future Today Strategy Group, encenou o “funeral” de seu tradicional relatório de tendências e decretou o nascimento de um catalisador de convergências tecnológicas. O foco agora é compreender onde IA, sensores, biotecnologia, robótica e outras frentes se encontram de forma significativa para transformar o trabalho, nossas relações sociais e estilo de vida.

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O alerta mais contundente de Webb, porém, foi sobre a “terceirização das emoções”. Com o crescimento de terapias e até vínculos afetivos exclusivos com IAs, enfrentamos o risco de uma atrofia social e cognitiva.

Essa discussão ganhou um contorno ainda mais concreto quando a psicoterapeuta Esther Perel, figura emblemática do festival, apresentou casos de pessoas que já desenvolvem vínculos afetivos com inteligências artificiais. Em um dos relatos, a “namorada digital” se declarou para o humano: “I have feelings for you”.

Perel alertou para o perigo da busca por relações perfeitas, sem conflitos ou rejeição, já que elas pressupõem risco e fricção. Ao evitarmos o desconforto do contato real, sacrificamos não só a qualidade dos relacionamentos, mas também a saúde emocional e os vínculos que sustentam, por exemplo, qualquer cultura organizacional forte.

2. Intencionalidade: o antídoto para a atrofia cognitiva

Um dos debates mais férteis que aconteceram em Austin este ano foi sobre como o uso indiscriminado da IA pode causar a atrofia de habilidades fundamentais. O ponto aqui não é ser contra a tecnologia, mas sobre ter intencionalidade sobre o que escolhemos ou não automatizar.

Durante o Flash Insights Sessions, encontro exclusivo que organizamos por lá para 80 lideranças de RH – incluindo os 40 executivos da delegação que levamos ao evento em parceria com a comunidade da Humanship –, o estrategista Neil Redding trouxe um exemplo simples, mas que faz todo o sentido: a navegação.

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Antes, usávamos mapas físicos e exercitávamos nosso senso espacial; hoje, dependemos 100% do GPS. A questão não é se o GPS é melhor (ele obviamente é), mas se estamos confortáveis em perder a habilidade de nos localizar sozinhos. Para nós, no RH e na liderança, a provocação é direta: quais competências críticas do nosso time estamos deixando “atrofiar” por excesso de automatização?

3. Saúde social e o senso de “mattering”

Nesse cenário, a saúde social, conceito defendido pela pesquisadora Kasley Killam, deixa de ser um tema periférico para se tornar um pilar central, lado a lado com a saúde física e mental.

No painel “The Art and Science of Social Connection”, Killam apresentou dados que mostram como a qualidade das nossas conexões influencia diretamente a longevidade e a produtividade.

Essa visão ganha ainda mais profundidade com o conceito de “mattering”, explorado pela jornalista e autora best-seller Jennifer Breheny Wallace na sessão “The Mattering Instinct: Why Being Noticed is Not Enough”. Wallace detalhou como o sentimento vital de ser importante e reconhecido pelo outro é a base da nossa saúde mental e do senso de pertencimento.

Para o RH, isso reforça algo que já vemos no nosso dia a dia: motivadores extrínsecos, como bônus e salários, já não sustentam o engajamento sozinhos. A conexão com propósito, valores pessoais e motivadores intrínsecos manterão as empresas vivas e mais produtivas.

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4. Humanos: de executores a orquestradores

Se em 2025 os agentes de IA não passavam de protótipos, em 2026 eles são realidade e se firmam como uma força de trabalho invisível. Líder de uma das maiores empresas de infraestrutura do mundo, Matthew Prince, CEO da Cloudflare, apresentou no SXSW um dado que mostra o que isso vai representar: em breve, teremos mais agentes totalmente autônomos operando em nosso nome no mundo digital do que propriamente seres humanos.

É exatamente aqui que entra a visão provocativa do futurista Ian Beacraft, fundador e CEO da consultoria Signal and Cipher e um dos nomes mais aguardados e influentes do festival: se a execução está sendo massivamente assumida por agentes, o nosso papel no contexto do trabalho precisa evoluir.

Deixamos de ser “tarefeiros” para nos tornarmos orquestradores. Como maestros, nosso trabalho passa a ser mais estratégico: definir a intenção, garantir a harmonia e aplicar o julgamento crítico que a máquina, por si só, não entrega sozinha.

A provocação de Beacraft para quem lidera pessoas continua: o “dever de casa” é sair da teoria e criar seus próprios agentes. Experimentar a tecnologia na prática é a única forma de liderar essa transição a partir da perspectiva de quem conhece, de fato, a alma do negócio.

Como o RH pode apoiar a adoção da IA

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5. A agenda de Pessoas, lado a lado com Tecnologia

A mensagem final foi clara: a IA não é uma pauta de tecnologia pura, é uma questão de gente. Essa discussão ganhou força durante o Flash Insights Sessions, que contou também com a participação de Margaret Spence, CEO do The Inclusion Learning Lab.

Nesse bate-papo a consultora e estrategista de negócios foi enfática ao dizer que não se trata apenas de contratar o software mais moderno do mercado, mas de definir a cultura, o treinamento e a governança que guiarão esse uso.

E o futurista Neil Redding fez uma provocação que elevou esse debate: precisamos parar de enxergar a IA como um software passivo que apenas recebe ordens.

Redding propôs que encaremos a tecnologia como um outro participante da equipe. Isso exige o que ele chama de “relação participativa”, onde humanos e máquinas colaboram lado a lado. Saímos da era do simples comando para a era da colaboração real.

Acredito que o risco não reside na evolução da inteligência artificial, mas na nossa passividade ao lidar com ela. No final do dia, a tecnologia pode até tocar os instrumentos, mas as definições de quando, como e o que usar, para qual finalidade, continuam a ser, obrigatoriamente, decisões humanas.

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A provocação que fica para nós, líderes e profissionais de RH, é: nesta nova configuração, em que a tecnologia quer ser protagonista e não apenas ferramenta, quem está liderando quem?

*Isadora Gabriel é CHRO da Flash

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