Colocar uma escola de samba na avenida é uma aula de performance para empresas
Saiba como o desfile de Carnaval, com sua governança rígida e execução de alta performance, pode ser um laboratório de gestão corporativa.
Carnaval: o espetáculo que anualmente toma as avenidas brasileiras costuma ser associado, à primeira vista, apenas à criatividade e à estética. No entanto, para CEOs e gestores de projetos, os minutos de um desfile representam um dos cases de gestão mais complexos e eficientes do mundo. Por trás do brilho das fantasias, reside uma estrutura de governança rígida e uma execução de alta performance que oferece paralelos diretos com os desafios do universo empresarial. Marcelo Veras, especialista em Trilhas de Liderança e CEO do Ecossistema Inova, defende que o fenômeno das escolas de samba é uma demonstração prática de ambidestria corporativa – a capacidade de uma organização ser eficiente no presente enquanto inova para o futuro.
“A ambidestria é o equilíbrio entre cuidar do resultado de curto prazo e preparar a organização para o que vem a seguir. Na avenida, a eficiência operacional é mandatória; um erro técnico pode significar o fracasso de um ano inteiro de investimento. Mas, enquanto o desfile acontece, o pensamento estratégico já está debruçado sobre o enredo do próximo ciclo. É o binômio entre execução impecável e visão de longo prazo que mantém essas organizações competitivas”, analisa.
Diferente de muitos projetos corporativos que sofrem com prazos flexíveis, o Carnaval impõe uma data imutável. Essa urgência exige que os gestores operem com um planejamento retroativo rigoroso, mapeando cada processo de trás para frente para garantir que todos os recursos – financeiros, humanos e o escasso tempo – estejam alinhados no momento da entrega final. Segundo o especialista, não há espaço para a procrastinação quando o custo do atraso é a perda de competitividade frente ao mercado.
A engrenagem humana: propósito e governança em harmonia
Essa cultura de prontidão se estende para o capital humano, talvez o maior trunfo das agremiações. Em um cenário em que o mercado de trabalho enfrenta o desengajamento de talentos, as escolas de samba operam movidas por paixão e propósito claro. Marcelo destaca que essa conexão emocional é fruto de uma liderança inspiracional, capaz de engajar colaboradores que, muitas vezes, investem recursos próprios para participar da entrega.
“O engajamento surge quando o indivíduo se identifica com a responsabilidade da organização perante a sociedade e a cultura. Nas empresas, a evasão de bons talentos é frequentemente o custo invisível de uma liderança que não consegue criar esse senso de pertencimento. A escola de samba ensina que, quando o propósito é tangível, a equipe não apenas executa uma tarefa, ela entrega o seu melhor desempenho sob pressão”, pontua.
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Essa entrega, contudo, não depende apenas de motivação, mas de uma clareza de papéis absoluta. A hierarquia nas escolas é detalhada: cada ala possui diretores que funcionam como gestores de linha de frente, garantindo o ritmo e a harmonia sem ruídos de comunicação. Essa agilidade organizacional é testada ao limite em situações críticas. Se um carro alegórico apresenta falhas, a liderança precisa de autonomia e planos de contingência definidos para agir em segundos, evitando que o quesito ‘Evolução’ seja comprometido. Veras ressalta que a falta de adaptabilidade e de um “plano B” robusto é o que frequentemente gera prejuízos pesados em grandes corporações durante momentos de transição ou crise.
O ciclo de gestão se encerra na apuração, momento em que a transparência se torna absoluta e cada métrica de desempenho é avaliada publicamente. Para o mundo executivo, esse rito se assemelha à “hora da verdade” com o mercado e o cliente. “A apuração é o momento em que a justiça das métricas se coloca. Nas empresas, o cliente é quem valida se o planejamento parou de pé. A governança, seja no barracão ou no conselho de administração, é o instrumento que nos permite tomar decisões sustentáveis e preparar os próximos ciclos com base em indicadores reais. O Carnaval é, acima de tudo, uma aula de como transformar planejamento estratégico em uma execução vibrante e de alta performance.”







