Liderança genuína: o privilégio de morar no coração de alguém
A maior recompensa para um líder não é cargo, aplauso ou salário. É transformar pessoas através da construção de ambientes seguros e de conexões verdadeiras.
Liderança ou é genuína ou não é liderança – é mera hierarquia. Tenho aprofundado cada vez mais essa convicção que me acompanha desde que comecei minha carreira profissional.
Essa minha certeza é legitimada por pesquisas de instituições de grande relevância. A Harvard Business Review, de 2023, mostra o quanto as empresas mudaram aquele estilo de liderança autoritário e tão antigo para relações que possuem a confiança como base, com foco na construção de relacionamentos fortes e transparentes.
Outro dado que acho muito interessante, da Gallup, é que 70% da variação no engajamento das equipes tem a ver com a liderança direta. E segundo o recente relatório da HR4Results, ela é responsável por 70% da felicidade no trabalho para a geração Z, que valoriza muito mais o chamado “salário emocional”.
Simon Sinek diz que aqueles que lideram naturalmente não exigem atenção, e sim conquistam confiança. Quando eu comandava uma multinacional no México, recebi um feedback que me marcou: “Eres un líder genuino”. Nunca havia parado para pensar nesse termo. Mais recentemente, muitos autores que acompanho, como Sinek, Kohlrieser e Scott, abordaram de alguma forma a liderança genuína. Não necessariamente com esse nome, mas identificando, definindo e contrapondo vários estilos de liderança. Com certeza não sou o primeiro a acreditar no conceito, e acredito que não se trate de um novo estilo, mas simplesmente de uma liderança de outro nível, que pode ser mais abrangente e contemplar muitas formas de gerir.
O que sei é que tenho aprendido com ela a minha vida inteira e cheguei a três pilares que considero fundamentais para uma liderança realmente genuína. Para explicá-la, recorro à minha própria trajetória.
1. Motivação intrínseca
Entre o final da universidade e o começo da vida profissional, prestando serviço militar na Itália, onde nasci, decidi fazer parte da polícia militar, os Carabinieri. Após três meses de treinamento, consegui entrar no Escritório Central, onde passei a organizar a escala de trabalho diária de 2 mil colegas policiais, vários deles meus amigos.
Era o meu primeiro trabalho de fato e eu, guiado pela paixão de fazer bem-feito, buscava realizar bem minhas tarefas e também atender às necessidades de cada colega, que eu entendia perfeitamente por ser um deles. Nesse momento, percebi que atendendo ao mesmo tempo as demandas do serviço e das pessoas, cada um faria o trabalho com mais comprometimento.
Mas o mais interessante é que eles começaram a me ver como um líder, mesmo eu não tendo autoridade formal nenhuma. No processo, aprendi que quando fazemos as coisas com motivação intrínseca, a excelência e a generosidade andam juntas. A diferença está em como fazemos isso, ou seja, com paixão. Você não faz porque precisa, mas porque ama aquilo. Esse tipo de motivação vem de dentro, pelo gosto de fazer bem-feito e trazer o bem a quem participa.
2. Segurança emocional
Alguns anos atrás, em uma das empresas que passei, tive um chefe do norte da Europa. Trabalhar em uma multinacional com mais de 150 nacionalidades distintas é maravilhoso porque aprendemos a apreciar as pessoas diferentes de nós. E ele era bem diferente de mim, que sou latino: com certeza era mais objetivo, mais direto, menos emocional. E era um bom chefe.
Um dia, tive que apresentar os resultados da empresa para o mercado financeiro em nível global. Com certeza a apresentação mais importante da minha vida até ali. Eu me preparei muito, mas estava ansioso e meu chefe percebeu. Ele me chamou antes de eu entrar na sala, me deu um abraço – acho que nunca tinha me abraçado –, olhou nos meus olhos e disse: “Be yourself”. Só isso. Poderia ter dito: “Faça bem-feito”, “Não me decepcione”, mas ele disse “Seja você mesmo”. Essas palavras me deram muita coragem e o resultado foi a melhor apresentação da minha vida.
Nesse dia entendi que a segurança emocional é feita, acima de tudo, de confiança. Um líder genuíno orienta e alinha, depois delega, acompanha e ajuda, para então deixar o outro livre para fazer do próprio jeito. Com isso, garante um lugar seguro onde se libera o potencial, porque as pessoas não ficam com medo de errar, de perguntar ou de discordar. Trabalhando com meus times, acredito muito que temos que alimentar o tempo todo o “we agree to disagree”, concordar em poder discordar.
3. Conexão verdadeira
Lembro-me de um rapaz que trabalhou comigo na minha primeira passagem pela Bauducco, como diretor de marketing na década de 1990. Ele era muito jovem, mas já estava claro que tinha muito potencial. Entre outras coisas, passava muito tempo comigo, me ajudando a fazer apresentações, tirando fotos de embalagens, produtos, anúncios… Tudo era mais difícil porque não tínhamos a internet.
Eu sempre dizia a ele: “Danielito, estuda. Você tem muito talento!” E um dia lhe dei um bilhete sobre como ser um bom líder no futuro. Foi um gesto simples de papel, caneta e consideração.
Alguns anos atrás, ele já morando no Canadá e dono de uma agência criativa, fez um post no Facebook que trazia aquele bilhete e a legenda: “Esse bilhete me inspirou na vida. Agradeço seu autor, meu antigo chefe”. Como disse ao meus dois filhos naquele dia, não existe promoção nem resultado financeiro que seja equivalente a uma recompensa como esta.
Voltei a contatá-lo recentemente e perguntei se ele conseguia achar o post, porque eu não estava encontrando. Ele também não achou, mas logo me mandou uma foto segurando o bilhete original, de 25 anos atrás.
Isso é conexão verdadeira. Não é só estar próximo fisicamente, é marcar a alma de alguém para sempre. Não é quantidade de conversas, é a qualidade da sua presença, com cuidado, empatia e escuta. É como você faz aquela pessoa se sentir.
E como esses três pilares se amarram?
Acho que muitas pessoas têm um “guru” na vida. O meu se chama Dr. Maestri, que foi o meu primeiro chefe na Barilla há quase 40 anos (e já passou dos 90). Poucos anos atrás, eu estava caminhando com minha esposa em Parma, minha cidade natal, quando vi um senhor andando com passos curtos e lentos. Perguntei a ela “É o Dr. Maestri?” e gritei “Dr. Maestri!?” Ele se virou. Era aquele homem que me ensinou muito, que me exigiu tanto, sempre me desafiou, me inspirou e me fez crescer. Nos abraçamos por uns cinco minutos sem dizer uma palavra. Esta é a maior recompensa para um líder: não é cargo, não é aplauso, não é salário. É morar no coração de alguém.
Liderança genuína vem para sempre e vai de graça, muitas vezes sem perceber. É sobre o que você, do seu jeito, pode oferecer. E isso vai fazer você morar no coração de outra pessoa.
A liderança genuína não transforma apenas resultados, transforma pessoas.
E a pergunta que fica é: o que você tem feito para morar no coração do seu time?







