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Conheça Tatiana Sadala, promovida duas vezes quando estava grávida

Co-fundadora de plataforma que alavanca carreiras de mulheres, Tatiana viveu algo incomum em experiências passadas: promoções durante gravidezes

Por Hanna Oliveira Atualizado em 9 Maio 2021, 09h12 - Publicado em 8 Maio 2021, 08h00

O que as empresas podem fazer para apoiar gestantes? Para Tatiana Sadala, cofundadora do Todas Group, plataforma com ações voltadas para o desenvolvimento de carreira de mulheres, a resposta é simples, mas poderosa. “Não cancelá-las”. 

A colocação de Tatiana tem razão de ser: segundo levantamento realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em 2016, após dois anos de tirar licença-maternidade, quase metade das mulheres brasileiras estão fora do mercado de trabalho. Analisando os dados, a pesquisadora Cecilia Machado, responsável pelo levantamento, aponta que a maior parte dessas mulheres saem sem justa causa e por decisão do empregador.

Tatiana Sadala viveu uma história diferente – conquistou duas promoções durante suas duas gestações, enquanto ainda atuava no mercado corporativo. “Trabalhei bastante, lembro de várias pessoas falando sobre minha barriga e a gravidez, minha resposta sempre foi ‘gravidez não é doença'”, diz.

A executiva contou os desafios da gestação no mercado de trabalho, o contexto de suas promoções e quais ações empresas podem adotar para apoiar gestante, em entrevista ao VOCÊ RH.

  • Como foi o contexto das duas promoções enquanto estava grávida? Era algo que esperava?

    Não planejei a primeira filha, e quando descobri a gravidez, estava sendo preparada no trabalho para assumir uma posição de liderança numa área nova. Quando meu chefe da época soube que eu estava grávida, ele me ligou e perguntou se eu ainda gostaria de ser promovida ao cargo. Achei bacana a postura dele e fui promovida grávida. Ao mesmo tempo me pergunto se algum homem receberia aquela ligação, após comunicar que seria pai. Trabalhei bastante, lembro de várias pessoas falando sobre minha barriga e a gravidez, minha resposta sempre foi “gravidez não é doença”. 

    Após um ano e meio, depois de entregas significativas para o negócio, outro chefe me chamou para uma conversa, dando os parabéns, dizendo que ele estava me promovendo novamente. Agora a um cargo mais robusto, liderando um negócio maior e mais desafiador. Agradeci o reconhecimento e disse que eu precisava compartilhar algo antes, que eu estava grávida novamente. Meu chefe então disse: “Tati, parabéns duas vezes, pela promoção e pela gravidez!”. Achei incrível a resposta dele, um verdadeiro líder, nunca esquecerei esse apoio. Líderes como eles, genuínos e autênticos, conquistam a lealdade dos funcionários. Essas histórias ilustram como a maternidade pode potencializar uma mulher como profissional. Promovida duas vezes grávida e tendo crescimento profissional rápido após ser mãe.  Viramos leoas. Habilidades como produtividade, foco, empatia, coragem, liderança, entre diversas outras, são vividas 24h por dia por uma mãe. Inevitavelmente passa a ser uma melhor profissional.

    Quais desafios você enfrentou conciliando tanto a gravidez quanto a maternidade com o trabalho? 

    A experiência de cada mulher com a maternidade é única e varia de acordo com a fase de vida, momento profissional, situação financeira, rede de apoio, entre outros fatores.  Acredito que uma parte dos desafios está em nossas mãos, relacionados a como lidamos com a culpa, medos, coragem, sonhos; como nos posicionamos, tomamos decisões, e colocamos as redes das nossas vidas profissionais em nossas próprias mãos. Assumi que o trabalho, para mim, é uma realização importante e um dos melhores exemplos que poderia deixar para meus filhos.

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     A segunda parte está relacionada ao contexto, principalmente ao ambiente e às políticas de trabalho e seus líderes, que muitas vezes são apenas “chefes”.  Lembro desse meu mentor e chefe que me promoveu grávida, me preparando para assumir uma posição mais robusta de liderança, dizendo que “existem apenas dois tipos de líderes no mundo: aqueles que são verdadeiramente preocupados com as pessoas e aqueles preocupados com suas próprias carreiras”. A vida real está cheia de ambos os perfis. Lembro da quantidade de vezes que, após meu retorno da licença maternidade, ouvi “nossa, grávida de novo!”, “que coragem, engravidou já!”. Aprendi a lidar de uma forma leve, que esse problema era das pessoas e não meu. Não podemos deixar essas pessoas mudarem nossos planejamentos e sonhos pessoais. No dia que elas forem pedras no seu caminho, mude o caminho, ou salte essas pedras. 

    Quais ações das companhias em que você trabalhou foram importantes para ajudar na sua jornada profissional até as promoções durante sua gestação?

    Toda empresa é um organismo vivo, que se forma e se modifica a partir dos comportamentos e das ações das pessoas que fazem parte dela. Em termos práticos, acredito que os valores e as  políticas claras sejam fundamentais. A empresa onde fui promovida duas vezes grávida tinha seus valores e políticas muito claros e eu me sentia absolutamente segura e empoderada no meu exercício da liderança junto a minha equipe e ao negócio. Havia um canal de compliance que todos podiam ser ouvidos anonimamente e era levado a sério. A empresa valorizava o diálogo e existia esse valor de transparência humana fundamental. Metas claras para a liderança sênior, tanto de diversidade em suas equipes quanto de resultado de pesquisa de clima organizacional sobre inclusão. Os funcionários sentem quando a empresa de fato valoriza e tem seriedade sobre uma agenda de diversidade, equidade e inclusão. Sentia isso, por isso sempre tive muito orgulho de trabalhar na empresa. Empresas não são feitas por funcionários, são feitas por pessoas. 

    O que as empresas devem fazer para apoiar as gestantes?

    Darei uma resposta simples e poderosa: não cancelá-las. As gestantes têm que estar nas discussões de performance, de reconhecimento, de bônus, de plano de carreira etc. Gestação não é doença. Pequenas atitudes de empatia no dia a dia fazem toda diferença. Neste momento de pandemia que estamos vivendo é ainda mais delicado, várias empresas entenderam a necessidade de apoio e suporte ainda maior, passaram a oferecer espaço para diálogo entre gestantes e líderes, programas com profissionais da saúde que oferecem suporte orientações médicas, práticas e emocionais, acordos de flexibilidade em casos de gestação de risco. 

     

    Qual conselho você daria para quem quer vivenciar a maternidade sem abrir mão da carreira?

    Primeiro, reescrever essa narrativa de que trabalho e maternidade são duas coisas que precisam ser equilibradas ou conciliadas. Acredito que a maternidade potencializa o trabalho, e vice-versa. Entender que somos seres integrados, que escolhemos várias fontes de prazer para nos sentirmos realizadas e felizes é importante. Segundo pesquisa do Todas Group, 90% das mulheres se consideram ambiciosas. Por isso, meu conselho é: acredite no seu potencial. Gravidez só nos fortalece, para as mulheres a maternidade é a oportunidade de florescer ainda mais e de descobrir o quanto somos fortes e capazes. Ninguém segura uma mãe determinada. Aos poucos, se organize financeiramente, busque uma rede de apoio e aprenda diariamente a lidar com a culpa e as várias barreiras adicionais que aparecem em jornadas profissionais femininas. Não desista. Estamos todas juntas. 

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