80% cumprem jornada presencial exigida pelas empresas – 72% reclamam
Profissionais apontam interrupções, barulho e deslocamento como fatores que prejudicam produtividade no escritório. Executivo, porém, vê falha no argumento.
Uma pesquisa realizada pela EDC Group revela que 80% dos profissionais dizem cumprir integralmente as exigências de volta ao trabalho presencial, como ir ao escritório um número mínimo de dias por semana, respeitar os horários definidos e registrar presença nos sistemas da empresa. Por outro lado, 72% afirmam que seriam mais produtivos se pudessem escolher quantos dias trabalhar presencialmente e quantos remotamente.
Quando perguntados sobre o rendimento, exclusivamente no regime presencial, apenas 16% afirmam se sentir “muito produtivos”, enquanto 42% se consideram “produtivos”, 38% “pouco produtivos” e 4% “nada produtivos”, acendendo um alerta sobre a experiência dos colaboradores.
Para Daniel Campos Neto, CEO da EDC Group, o cenário brasileiro é claro: alta disciplina no cumprimento das regras de presença e baixa percepção de produtividade no ambiente de trabalho. O contraste aparece tanto no agregado, quanto nos recortes por regime. No híbrido de 1 a 3 dias por semana, por exemplo, o cumprimento é elevado (73%), mas não se traduz automaticamente em melhor rendimento.
“A principal questão não é quantas pessoas estão indo ao escritório, mas como o trabalho está organizado quando elas estão lá”. ressalta o executivo. “Nessa pesquisa, queremos esclarecer que presença sem propósito e sem boas práticas de colaboração tendem a gerar atrito e não performance, causando uma desmotivação coletiva”.
“Cumprimos mais, produzimos menos”
Metade dos respondentes “concorda fortemente” que a sua produtividade melhoraria se pudesse escolher quantos dias trabalhar no escritório, enquanto 22% dos profissionais disseram que “concordam”. Entre os principais motivos da perda de rendimento no presencial surgem a interrupção de colegas ou líderes (58%), seguido por cansaço do deslocamento (52%), ruídos (47%) e distrações sociais (45%). A dificuldade de foco (28%) fecha a lista e, na prática, é consequência das três primeiras, conforme destaca o CEO da EDC Group.
Para ele, a pesquisa conclui que, com exceção do cansaço e do deslocamento, as demais razões apontadas como problemas de produtividade estão ligadas a comportamento e organização do trabalho e podem ocorrer tanto no presencial quanto no home office.
“Interrupção é cultura, não um problema fixo. Em um bom ‘acordo de sala de aula’, todo mundo sabe quando colaborar e quando ficar em silêncio. Esses argumentos são falhos”, defende Daniel. “Além disso, o objetivo do presencial é justamente o contato e a troca qualificados”.
Diante da situação, o executivo recomenda ajustes de gestão e de ambiente: alinhar regras de etiqueta, como reuniões com pauta e duração, definir uso de fones de ouvido ou cabines, separar momentos de colaboração e de foco, mapear picos de barulho e ajustar o layout do escritório, com zonas silenciosas e mesas de “deep work”, além de flexibilizar o horário para reduzir o desgaste do deslocamento.
“Um piloto de 4 semanas com indicadores simples, como quantidade de interrupções por hora, tempo de foco contínuo, ruído médio e atrasos por trânsito, por exemplo, fornecem as evidências dos ganhos e alinha o time ao propósito do presencial, que é interagir quando faz sentido e proteger o foco quando é necessário”, explica.
Brasil versus EUA
Como base metodológica, o levantamento espelhou uma pesquisa aplicada nos Estados Unidos pela Resume Buider, com perguntas e critérios para coletar dados e permitir comparações. No recorte de cumprimento das políticas de retorno presencial, os resultados caminham lado a lado: nos EUA, 78% dizem seguir integralmente, enquanto 22% admitem algum nível de descumprimento. No Brasil, o quadro é praticamente idêntico, com 79,85% de adesão total e 20,15% de descumprimento.
Vale ressaltar que essa diferença, aponta Daniel, é explicada pelo tipo de ambiente trabalhista norte-americano, chamado de vínculo at-will, que busca maior mobilidade e trocas de emprego mais rápidas. “Essa realidade tende a tornar a reação às políticas presenciais mais dura e o respeito às regras mais volátil, sobretudo nos arranjos híbridos”.
De acordo com o especialista, em um mercado mais fluido como o americano, é natural ver mais contestação no híbrido. “Aqui, existem uma série de burocracias para proteger a relação de trabalho, desde normas mais rígidas de contratação e desligamento até custos elevados de rescisão”, descreve o CEO. “Isso faz com que o profissional brasileiro seja, em média, mais cauteloso em confrontar políticas impostas pela empresa. O resultado é um cenário em que a adesão tende a ser maior, mas não necessariamente acompanhada de satisfação ou engajamento”.
Rendimento presencial nos dois países
A pesquisa ainda que a percepção de produtividade no escritório abre um contraste mais nítido entre os países. Nos EUA, 45% dos profissionais se dizem “muito produtivos” e 44% “produtivos nos dias presenciais” (8% “não muito produtivos” e 3% “nada produtivos”). No Brasil, o patamar de alta produtividade é menor: 16% “muito produtivos”, 42% “produtivos”, 38% “pouco produtivos” e 4% “nada produtivos”. “Com isso, é possível observar que, enquanto os dois mercados exibem taxas semelhantes de cumprimento das regras, divergem na qualidade percebida da experiência no presencial”.
Os fatores que mais pesam contra o desempenho no escritório seguem a mesma lógica nos dois países, com índices mais altos nos EUA: lá, lideram interrupções (72%) e ambiente barulhento (69%), seguidos por desgaste no deslocamento (54%), menor foco (50%), distrações sociais (48%), muitas reuniões (35%) e layout inadequado (31%). Já no Brasil, a hierarquia é parecida, porém com percentuais menores: interrupções (58%), cansaço com o deslocamento (52%), barulho (47%), distrações sociais (45%) e dificuldade de foco (28%). “Em comum, questões organizacionais como pontos centrais desses obstáculos”, lembra Daniel.
“Apesar da diferença na percepção de produtividade, as causas são semelhantes dos dois lados”. Segundo o executivo da EDC Group, que também atua com empresas em Michigan, nos EUA, é possível observar que, quando a presença tem propósito, rituais de colaboração e proteção ao foco, o rendimento sobe. “Vejo que o caminho para o Brasil é organizar melhor o trabalho, definindo quando colaborar e quando focar, reduzir ruído e fazer do escritório um lugar onde vale a pena estar”.







