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Menopausa: por que – e como – as empresas devem acolher colaboradoras no climatério

Tabu em torno do tema no ambiente de trabalho custa caro para a saúde e para a carreira de muitas mulheres – e também para os cofres das organizações.

Por Gabriela Teixeira
29 jan 2026, 16h00 • Atualizado em 9 fev 2026, 16h34
Imagem, em preto e branco, de uma mulher de costas, cabelo curto, vestindo terno, com as mãos para trás. Vê-se, em primeiro plano, bordados em forma de braços simulando um abraço.
 (Montagem sobre reprodução/Getty Images)
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  • Embates no trabalho não eram novidade para a advogada Ana Paula de Almeida. Manter uma postura assertiva ao defender suas ideias também não. Naquele dia, contudo, uma irritabilidade atípica a fez, em suas palavras, ir além. “Perdi a paciência e a razão”, relata. Ana pediu desculpas, mas não conseguiu esquecer o episódio. “Notei que meu humor estava diferente e fui conversar com minha endocrinologista, que disse que poderia ter sido um pico de estresse do trabalho e me receitou um remédio para dar uma acalmada.” Ninguém suspeitava que ela, aos 38 anos, estava entrando no climatério.

    Para quem não está familiarizado com o termo, explico. O climatério é o nome dado à transição entre as fases reprodutiva e não reprodutiva da mulher, causada pela redução dos níveis de hormônios como estrogênio e progesterona, e que engloba outros processos: a perimenopausa, momento em que surgem os primeiros sinais dessa mudança, e a própria menopausa, caracterizada pela ausência de menstruação por 12 meses consecutivos.

    Segundo o dr. Maurício Abrão, ginecologista da Beneficência Portuguesa, não há uma definição temporal precisa para o início do climatério. “Há quem considere que ele começa aos 35, 40 ou 45 anos. O que é consenso é que a menopausa está no centro desse período, e a perimenopausa ocorre ao seu redor, sendo a fase em que a maioria dos sintomas se manifesta.”

    No site da Organização Mundial da Saúde (OMS), a lista de sintomas é extensa: ondas de calor (também conhecidas como fogachos), alterações no ciclo menstrual, secura vaginal, insônia, oscilações de humor, ansiedade e até depressão. Acrescente ainda problemas de concentração, lapsos de memória e fadiga, citados pelo ginecologista. A aparição, a intensidade e a duração dos sintomas variam de pessoa para pessoa, explica a OMS. Mas, quando presentes, essas alterações podem afetar o bem-estar e a qualidade de vida das mulheres, além de seu desempenho em atividades cotidianas.

    “No ambiente profissional, isso pode se traduzir em queda pontual de produtividade, dificuldade em manter o foco em reuniões longas, cansaço persistente e insegurança emocional”, diz Maurício, ressaltando que isso não é sinônimo de incapacidade. Muitas mulheres, aponta o médico, seguem entregando alta performance, mesmo quando não há qualquer adaptação no local de trabalho ou compreensão institucional.

    E por falar em trabalho…

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    Preço alto

    Um estudo publicado em 2025 pela farmacêutica Astellas revelou que oito em cada dez brasileiras sofreram impactos psicológicos negativos devido à menopausa, incluindo sentimentos de constrangimento e vergonha. Especificamente no trabalho, apenas 29% se sentiam à vontade para falar sobre o assunto com suas lideranças, enquanto 17% temiam revelar aos colegas o que estavam passando e 9% foram explicitamente discriminadas.

    “Muitas mulheres relatam que preferem silenciar seus sintomas por receio de estigmatização, perda de credibilidade ou impacto negativo na carreira. Existe um medo real de que a menopausa seja associada ao envelhecimento, à fragilidade ou à queda de desempenho”, afirma o ginecologista.

    O médico-psicanalista e consultor de saúde mental no trabalho André Fusco explica que, além de todos os sintomas fisiológicos, a menopausa também pode provocar uma crise identitária, levando as mulheres a questionar seu papel no mundo. Para Ana Paula, por exemplo, o diagnóstico – que só veio quatro anos após os primeiros sinais da perimenopausa – foi um período de luto. “Eu chorava todos os dias voltando [do trabalho] para casa. Sentia que ali tinha encerrado meu ciclo. Aquilo que me identificava como mulher estava indo embora. Me sentia muito sozinha, mas não tinha vontade de conversar com ninguém.”

    Imagem, em preto e branco, de uma garota de costas, sentada numa cadeira, usando um notebook. Vê-se, em primeiro plano, um bordado de flores e ponteiros de relógio.
    Um estudo feito no Reino Unido pela organização beneficente Fawcett Society aponta: 61% das mulheres na menopausa se sentem desmotivadas, e 52% perdem a confiança profissional. (Montagem sobre reprodução/Getty Images)
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    A crise leva a um cenário de insegurança psicológica, diz André. “Segurança psicológica é poder ser quem você é e se expressar com segurança. E a performance depende desse conforto.” Os dados confirmam: no Reino Unido, uma pesquisa feita pela organização beneficente Fawcett Society revelou que 61% das mulheres na menopausa se sentiam desmotivadas e 52% perderam a confiança profissional. Além disso, uma em cada dez trabalhadoras havia deixado o emprego por causa dos sintomas. Já nos EUA, um estudo do hospital Mayo Clinic estimou uma perda anual de US$ 1,8 bilhão devido aos dias não trabalhados em razão da menopausa.

    Em 2022, o governo do Reino Unido criou um grupo de trabalho dedicado a tratar das questões relacionadas ao assunto, incluindo as laborais. No mesmo ano, o Departamento de Trabalho e Pensões britânico publicou um documento em que se comprometia a criar mecanismos para conscientizar empresas e apoiar iniciativas organizacionais de amparo a essas trabalhadoras.

    Em terras brasileiras, o tema ainda engatinha na esfera governamental. No dia 15 de janeiro deste ano, a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 4504/24, de autoria da deputada Silvye Alves (União-GO), que propõe a instituição de uma política nacional de atenção integral à saúde e à qualidade de vida das mulheres na menopausa. Entre os objetivos do PL está a implementação de medidas de acolhimento no ambiente de trabalho, como suporte psicológico. A proposta aguarda análise de outras comissões da Câmara.

    Primeiros passos

    A ausência de diretrizes governamentais não justifica, contudo, a inércia por parte dos empregadores. Especialmente se querem evitar riscos jurídicos. A advogada trabalhista Izabela Borges Silva explica que, mesmo sem uma legislação específica, existem mecanismos jurídicos que protegem as mulheres em caso de eventual discriminação por parte das empresas. É o caso da Lei nº 9.029, que proíbe práticas discriminatórias por motivos, entre outros, de idade ou sexo.

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    Aliás, a omissão em atender às necessidades de uma trabalhadora na menopausa também é um problema, alerta Izabela. “É dever da empresa dar suporte para que exista conforto no ambiente de trabalho.” E como proporcionar esse conforto?

    Para começar, a escuta ativa e atenta às individualidades é fundamental. “Algumas querem flexibilidade no horário, outras desejam pausas, menor carga de trabalho. E há quem queira que o assunto seja ignorado, e vida que segue. Precisamos entender como cada mulher quer ser tratada”, explica Magali Corrêa, head de Capital Humano da Vidalink, empresa de planos de bem-estar corporativo. Ela sugere a criação de rodas de conversa e fóruns nos quais as colaboradoras possam compartilhar suas experiências, se assim quiserem. E frisa: os homens também precisam participar dessas ações.

    A CHRO da Adeste, empresa que produz insumos para a indústria alimentícia e farmacêutica, Cristina Varella, compartilha da mesma opinião. Semelhante a Ana Paula, ela enfrentou a menopausa em silêncio, evitando expor o que passava até para a própria família. Para que isso não aconteça com outras, Cristina tem iniciado diálogos com a gerência e a diretoria da empresa onde trabalha. E sugere que seus colegas de profissão façam o mesmo. “Nós do RH temos a prerrogativa de falar sobre o assunto. Abra essa discussão, converse com seu presidente. Tem que ter um ambiente seguro para que as mulheres venham até nós.”

    Imagem, em preto e branco, de uma garota peango uma pasta num arquivo. Vê-se, em primeiro plano, um bordado em forma de labareda.
    Para muitas profissionais, o climatério chega justamente quando estão no auge de suas carreiras, ocupando lugares estratégicos. (Montagem sobre reprodução/Getty Images)
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    Dado o primeiro passo, é hora de implementar ações mais concretas. Para guiar os empregadores, a Menopause Society publicou em 2024 uma série de recomendações. Em linhas gerais:

    • As empresas devem avaliar como outras políticas já existentes podem ser aproveitadas para apoiar pessoas na menopausa, o que pode ser mudado e o que de inédito deve ser adotado.
    • É recomendável fazer uma revisão dos planos de saúde para garantir que ofereçam cobertura adequada e acessível.
    • Todos os funcionários devem estar cientes das políticas internas, das ações de saúde e bem-estar e do tipo de cobertura médica disponível para apoiá-los.
    • As organizações devem oferecer acesso a banheiros equipados com produtos de higiene, água fria ou áreas refrigeradas. Adaptar o código de vestimentas, fornecer uniformes adequados, permitir o trabalho híbrido ou flexibilizar intervalos e horários também é indicado.
    • Gerentes e supervisores devem ser treinados para garantir a criação de uma cultura inclusiva e acolhedora, na qual as trabalhadoras se sintam confortáveis para se expressarem.

    Seja qual for a ação, é importante que exista, ao mesmo tempo, sigilo em relação aos dados sensíveis das funcionárias e uma comunicação transparente do que está sendo implementado, para evitar a sensação de favorecimento. “As regras devem ser claras, porque a ideia não é beneficiar alguém, e sim colocar a mulher em uma condição de igualdade para com os colegas”, aponta a advogada Izabela.

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    O futuro é agora

    Previsões estimam que, até 2030, cerca de 1,2 bilhão de mulheres da população mundial estará na menopausa (ou pós-menopausa). Cedo ou tarde, esse é o destino inevitável de quase metade da humanidade. E, para muitas mulheres, chegará justamente quando elas estiverem no auge de suas carreiras, ocupando lugares estratégicos e de senioridade dentro de organizações. Os especialistas e também as executivas entrevistadas pela Você RH concordam: manter o tabu em torno da menopausa é, portanto, prejudicial também para as próprias empresas.

    Ignorar o tema significa perder talentos, experiência e liderança, diz o ginecologista Maurício Abrão. “Quando as empresas acolhem essa realidade, não estão fazendo concessões, e sim investindo na longevidade profissional, na diversidade etária, na sustentabilidade humana e no futuro do trabalho.” A menopausa, continua ele, não é uma doença, mas uma fase natural da vida. Logo, pode (e deve) ser vivida com qualidade, saúde e – por que não? – produtividade.

    Esta reportagem faz parte da edição 102 da Você RH, que chegou às bancas no dia 6 de fevereiro.

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