Por que a CLT deixou de ser “premium” e virou meme entre os jovens?
Geração Z tem visto o registro não como garantia de emprego seguro, mas como regras ultrapassadas que limitam autonomia, flexibilidade e avanço na carreira.
Um ano após conteúdos virais nas redes elevarem a CLT à categoria “premium”, recentemente pelas mesmas redes passamos a ver associações depreciativas. Essa aversão, impulsionada principalmente pela Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012), vem carregada de crítica. Esses jovens profissionais têm enxergado o registro na carteira não mais como um privilégio ou garantia de emprego “seguro”, mas como um conjunto de regras ultrapassadas que limitam autonomia, flexibilidade e valorização da carreira.
Historicamente, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) representou um avanço significativo para os direitos dos trabalhadores. Desde sua implementação em 1943, época da industrialização no Brasil, ela trouxe conquistas como férias remuneradas, jornada de trabalho de 8 horas diárias, pagamento por hora-extra, licença-maternidade, 13º salário, seguro-desemprego, entre outras proteções que asseguraram condições mínimas de vida digna num contexto industrial rígido e hierarquizado à época.
No entanto, o cenário atual é diferente. Em meio à economia digital, automação, trabalho remoto e, principalmente, às expectativas da Gen Z, o conceito do “trabalho ideal” se transformou. Para esses jovens, a CLT mais se parece com um meme ruim, que não acompanha o ritmo multifacetado e flexível das atuais carreiras, que não valoriza a autonomia e a busca constante por propósito.
Por outro lado, essa percepção não reflete, necessariamente, uma redução do mercado de trabalho. Segundo dados do Caged, o Brasil alcançou um recorde de 48,6 milhões de empregos, o maior número desde o início da série histórica em 2020, soma puxada pela faixa etária de 18 a 24 anos. A problemática, portanto, está na percepção social da CLT pela nova geração, que não se sente contemplada por esse modelo.
O futuro mais plural
Embora o mercado formal siga crescendo, o informal também ascende. Uma pesquisa do Sebrae aponta um crescimento de 25% no número de jovens empreendedores entre 18 e 29 anos nos últimos 12 anos, atingindo recordes desde 2012. Complementando esse dado, um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com o Instituto de Pesquisa Ideia, revelou que 3 em cada 10 jovens até 27 anos desejam abrir o próprio negócio.
Outro fator importante que deve ser considerado é o nível de qualificação dos nascidos entre 1995 e 2010, o que traz implicações sobre a percepção de valorização dos profissionais. Um levantamento feito pela VR com base em dados do serviço de Admissão pelo RH Digital mostra que 22% dos trabalhadores desta geração já possuem nível superior completo, ante 13% na faixa etária 50+ e 25% da faixa entre 25 e 39 anos.
Com mais de 4 milhões de trabalhadores registrados em nossa base, temos ouvido de perto as novas demandas. Acompanhamos essa tensão entre o legado da CLT e as transformações do mercado e entendemos que acolher a crítica geracional transformando-a em oportunidade é o caminho para construir um futuro do trabalho mais inovador e alinhado às novas expectativas, preservando o valor da proteção social, ao mesmo tempo em que se abraça o dinamismo que os jovens buscam.
Diante desse cenário, talvez a questão não seja escolher entre CLT ou modelos alternativos, mas sim ressignificar o que é ter um trabalho digno, responsável e que faça sentido para cada indivíduo e sua realidade.
O futuro do trabalho pode e deve ser plural, adaptável às diferentes trajetórias, expectativas e valores multigeracionais. Mais do que seguir um modelo único, o desafio está em construir ambientes que respeitem a diversidade de escolhas, promovam segurança, saúde mental e financeira, e estejam abertos à constante evolução das relações profissionais.







