1 em cada 4 brasileiros diz que o trabalho deixa a vida infeliz
Estudo aponta o caminho: onde há flexibilidade e relações de qualidade, há satisfação. Onde há sobrecarga e falta de reconhecimento, há adoecimento.
Mais de 1 bilhão de pessoas no mundo vivem com algum transtorno mental, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). E, infelizmente, o mercado tem sido responsável por um grande peso dentro deste número. O estudo Mapa da Felicidade Real no Brasil 2026, conduzido pela pesquisadora da Ciência da Felicidade, Renata Rivetti, em parceria com o Instituto Ideia, ouviu 1.500 brasileiros em fevereiro deste ano e 23,4% dizem que o trabalho deixa a vida infeliz.
Entre a geração Z (16 a 24 anos), quase metade, 46,7%, afirma isso. É o maior gap etário da pesquisa, 34 pontos percentuais acima dos trabalhadores com 60 anos ou mais. O principal motivo apontado por esse grupo é a sobrecarga, com 36,3% – o índice mais alto de qualquer categoria analisada em toda a pesquisa.
Já entre as mulheres, a infelicidade no mercado de trabalho chega a 25,9% e o principal fator de insatisfação é o horário de serviço, reflexo direto da dupla jornada. Na classe D/E, 1 em cada 3 trabalhadores está insatisfeito, contra menos de 1 em 5 na classe A/B.
“O trabalho tem sido fator de risco à nossa saúde física, emocional e mental”, reitera a especialista, que também é CEO da Reconnect Happiness at Work. “Em um mundo de guerras, inseguranças, incertezas, as empresas não deveriam ser mais um ofensor ao nosso bem-estar, mas infelizmente têm sido”, lamenta a idealizadora do estudo.
Para ela, as pessoas precisam falar sobre isso, refletir sobre o cenário atual e propor mudanças. “Assim não está bom para os profissionais, para as empresas e, no final, para todos como sociedade. E é possível ser diferente e melhor, mas precisamos agir”.
5 dicas para manter a motivação dos colaboradores
Lista de desejos: salário só aparece na terceira posição
A pesquisa também revela o que os colaboradores querem do trabalho. Flexibilidade e qualidade de vida lideram os motivadores positivos, com 26,4%, seguidas de estabilidade, com 22,8%. O salário aparece só em terceiro lugar, com 17,3%. São fatores que dependem sobretudo de como as organizações se estruturam e tratam seus funcionários.
O dado mais importante, porém, segundo Renata, não é o da infelicidade, mas o que o estudo revela sobre o papel que o trabalho deveria ter. “Ele pode ser um fator de proteção ou de risco à nossa saúde mental, já que tem um impacto direto em nossas relações sociais, o maior preditor de uma vida feliz”, afirma. E a pesquisa mostra isso: 12,8% dos brasileiros não têm parentes ou amigos a quem recorrer em momentos difíceis. Em grupos submetidos a condições mais precárias, esse isolamento se aprofunda. “O trabalho não apenas deixa de proteger como corrói os vínculos que sustentam o bem-estar”.
É nesse cenário que a NR-1 entra em vigor com caráter punitivo em 26 de maio de 2026. A norma atualizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego obriga todas as empresas a incluir riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos, ao lado dos riscos físicos, químicos e biológicos. Sobrecarga, metas excessivas, falta de apoio, assédio e desequilíbrio entre esforço e recompensa passam a ser riscos ocupacionais formais, com fiscalização e multa de R$ 6.708,08 por trabalhador exposto. O contexto dá a dimensão do problema, já que os transtornos mentais e comportamentais cresceram 134% nos últimos dois anos no Brasil, com cerca de meio milhão de afastamentos registrados em 2025, segundo o próprio Ministério do Trabalho.
Os dados apontam o caminho. De acordo com a executiva, onde há flexibilidade, estabilidade e relações de qualidade, há satisfação. Onde há sobrecarga, horários sem margem e ausência de reconhecimento, há adoecimento. “A NR-1 transforma essa equação em obrigação legal“, diz Renata. “A pergunta que fica para cada empresa é simples: o trabalho que você oferece protege ou corrói quem está nele?”.







