Abril Verde: recorde de licenças por saúde mental e NR-01 pressionam empresas
Em mês de conscientização sobre segurança no trabalho, especialista alerta: “hoje, os riscos psicossociais devem ser tratados com o mesmo rigor que os físicos”.
“O adoecimento mental deixou de ser uma questão individual e passou a refletir a forma como o trabalho é organizado”. Esta afirmação, atribuída ao médico e CEO da Aventus Ocupacional, Marco Aurélio Bussacarini, revela a mudança estrutural que vem ocorrendo no mercado em razão da alta nos afastamentos de colaboradores por transtornos psicológicos. “Hoje, os riscos psicossociais precisam ser tratados com o mesmo rigor que os físicos”, afirma ele, que também é autor do livro Fatores Psicossociais no Trabalho: para líderes de empresas, gestores de RH, profissionais de SST e contadores.
Só no ano passado, o Brasil registrou 546.254 licenças por saúde mental, o maior volume da série histórica e o segundo recorde consecutivo, com crescimento de 15% em relação ao ano anterior, de acordo com dados do INSS. A ansiedade liderou os diagnósticos, com 166.489 casos, seguida pela depressão, com 126.608 registros. Juntas, as duas condições já configuram o segundo maior motivo de afastamento no país, atrás apenas das doenças da coluna.
Nesta conjuntura, o médico ocupacional acredita que o tema deixa de ser periférico e passa a integrar a gestão estratégica das organizações. “Quando o adoecimento começa a impactar afastamentos, produtividade e engajamento, estamos falando de um risco operacional. Ignorar isso significa comprometer o desempenho do negócio”.
Fatores invisíveis no radar corporativo
O alerta torna-se ainda mais forte neste mês, período de sensibilização da campanha Abril Verde, sobre a importância da saúde e da segurança no ambiente de trabalho. De acordo com Marco Aurélio, a mudança de perspectiva das empresas acompanha um entendimento mais amplo sobre o que configura risco no cotidiano corporativo.
Elementos como demanda, autonomia na execução das atividades, participação nas decisões, qualidade da liderança, apoio dos colegas, relações interpessoais, clareza na definição de funções e comunicação efetiva passam a ser tratados como variáveis críticas para o desempenho das organizações, pois, embora menos tangíveis, eles têm impacto nos resultados. Segundo o especialista, quando mal geridos, podem causar ausências, elevar o turnover e reduzir a produtividade, surgindo gastos que abalam a operação de maneira contínua. “Os maiores impactos da saúde mental no trabalho nem sempre aparecem de forma imediata nos indicadores”, comenta o doutor.
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“Vemos isso principalmente no aumento do absenteísmo e da rotatividade, prejuízos que, mesmo silenciosos, afetam diretamente os custos e a performance das companhias”. Para o CEO da Aventus, o desafio é que muitos fatores são invisíveis. “Clima, liderança, relações internas… Tudo isso não aparece na planilha, mas contribui para o desempenho da empresa”.
NR01: novas exigências
A resposta institucional a esse cenário vem com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-01), que passa a exigir a inclusão de fatores psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) a partir de 26 de maio, conforme as diretrizes do Ministério do Trabalho, sob pena de autuações e multas.
O objetivo da mudança é ampliar o conceito de segurança do trabalho, considerando o ambiente organizacional como fator determinante para a saúde. Segundo o médico, a antecipação será decisiva. “As empresas que se prepararem antes da vigência terão mais segurança jurídica e ganhos operacionais relevantes”, diz.
Pare ele, não por acaso, o Abril Verde desse ano se destaca por marcar a consolidação de uma nova etapa na gestão corporativa, em que saúde mental, produtividade e estratégia passam a caminhar juntas. “Ainda existe uma percepção de que investir em prevenção é custo, mas, na prática, é uma estratégia de eficiência”, afirma, concluindo que as organizações que cuidam de seus ambientes produzem mais, reduzem perdas e preservam resultado. “Quem não incorporar o fator emocional nos processos de segurança continuará tratando sintomas, e não causas”, finaliza.







