Cuidar da saúde emocional é estratégia e a liderança é o ponto de virada
Organizações que assumem o cuidado como dever compartilhado criam condições para que líderes sustentem uma cultura mais humana e eficiente.
A saúde emocional não é mais um tema secundário nas organizações: no Brasil já se registrou um número recorde de licenças por transtornos mentais em 2024. De acordo com dados do Ministério da Previdência Social, foram 472.328 afastamentos em razão de transtornos mentais. Se comparado com 2023, houve um aumento de 68% nos casos, o maior número no período de 10 anos.
Nesse cenário, a marca empregadora deve incorporar o cuidado emocional como ingrediente estratégico. E dentro desse movimento, a liderança emerge como o ponto de virada: como os gestores se comportam, falam e interagem com as equipes pode definir se a organização apenas “faz papel” ou de fato transforma cultura.
Pesquisas recentes da American Psychological Association mostram que 92% dos trabalhadores consideram importante que a organização valorize seu bem-estar emocional e psicológico, o que indica que o tema deixou de ser periférico na relação com o trabalho. O ponto importante é que isso não se limita às novas gerações.
Na mesma linha, o levantamento da Mercer sobre bem-estar e benefícios por geração indicam que saúde, apoio emocional e flexibilidade são valorizados por profissionais de todas as faixas etárias, com variações de prioridade, mas com consenso de que o bem-estar deixou de ser algo acessório.
Na prática, quando um profissional analisa uma proposta de trabalho hoje, ele olha não só para remuneração e cargo, mas para o quanto aquele ambiente parece capaz de preservar sua saúde emocional ao longo do tempo. É aí que a saúde emocional se consolida como componente central da marca empregadora: ela passa a ser um sinal público de maturidade de gestão e de respeito às pessoas.
Práticas de cultura e gestão
O compromisso real com saúde emocional aparece menos em campanhas internas e muito mais na forma como a empresa organiza o trabalho, toma decisões e presta contas, inclusive para investidores. Nos últimos anos, diversas companhias passaram a incorporar indicadores de bem-estar, clima, engajamento e saúde emocional em seus relatórios anuais e documentos de sustentabilidade, mostrando ao mercado que esse tema faz parte da estratégia e da governança, e não apenas de ações pontuais.
Grupos como Natura &Co, por exemplo, dedicam seções específicas de seus relatórios integrados para falar de pessoas, bem-estar, clima organizacional e impacto social, apresentando esses dados lado a lado com resultados financeiros, uma mensagem clara de que cuidar de gente é parte do modelo de negócio. Empresas globais como Unilever têm relatórios consolidados de saúde e bem-estar de colaboradores, com metas, indicadores e evolução histórica, conectando esses resultados a temas como produtividade e sustentabilidade.
No campo da consultoria, análises da Deloitte mostram inclusive o retorno financeiro de programas estruturados de saúde mental, com estudos de caso que apontam retorno positivo sobre o investimento em iniciativas de apoio emocional, prevenção e reabilitação.
Além dos relatórios formais, grandes empresas de tecnologia e serviços vêm comunicando, em pesquisas próprias, como o tema entrou na agenda de gestão. A Microsoft, por exemplo, acompanha de forma recorrente indicadores de burnout, exaustão e capacidade de foco em seu Work Trend Index, usando esses dados para orientar decisões sobre modelo de trabalho, carga e desenho de tarefas. A Salesforce, por sua vez, estruturou guias públicos de bem-estar para líderes e equipes, tratando saúde emocional como um componente de desempenho e produtividade, e não apenas como benefício.
Do ponto de vista cultural, tudo isso reverbera na percepção dos colaboradores. Uma pesquisa da American Psychological Association mostra que trabalhadores que sentem que sua saúde emocional é levada a sério pela organização têm maior engajamento, menor intenção de sair e menor probabilidade de relatar danos à saúde mental relacionados ao trabalho.
Ou seja, quando a empresa mede, reporta e ajusta suas práticas com base em dados de bem-estar, ela não está apenas “fazendo papel”: ela está construindo reputação de dentro para fora, com colaboradores que percebem, reconhecem e compartilham essa experiência em suas redes.
Um olhar para o futuro e as competências de liderança
A liderança é o ponto de virada. Se a empresa pressiona seus gestores com metas irreais, falta de clareza, excesso de horas e pouca autonomia, o exemplo que eles conseguirão transmitir para as equipes será exatamente esse: urgência constante, sobrecarga e autocuidado em segundo plano. Por isso, antes de cobrar que líderes sejam “guardiões da saúde emocional”, a organização precisa assumir seu papel em apoiar, formar e proteger esses líderes.
Nesse contexto, as competências de liderança mais importantes para o futuro passam por três eixos: clareza, relação e regulação. Clareza para comunicar prioridades, organizar o trabalho, alinhar expectativas e dar direção em meio à complexidade. Relação para construir confiança, ouvir, oferecer feedback honesto e acolher tensões antes que se transformem em conflitos ou adoecimento. E regulação para ser capaz de lidar com pressão, mudança e incerteza sem reproduzir sobre a equipe a mesma carga que recebe da organização.
Do lado da empresa, isso exige práticas maduras: programas contínuos de formação de líderes em temas de saúde emocional e gestão de pessoas; políticas que limitem sobrecarga estrutural; monitoramento de riscos psicossociais; apoio especializado em momentos de mudança; e canais que permitam que líderes também peçam ajuda.
Quando a organização assume que cuidar da saúde emocional é um dever compartilhado e não uma responsabilidade individual do gestor, cria condições para que esse líder se torne, de fato, referência positiva e sustente uma cultura mais humana e eficiente.
*Ricardo Queiroz é CEO da Flora Insights, plataforma digital especializada e pioneira no diagnóstico e gestão de riscos psicossociais ocupacionais, e cofundador da Shawee, maior plataforma de hackathons da América Latina.







