Mais de 60% dos riscos psicossociais nas empresas têm origem na gestão, aponta pesquisa
Dados reforçam que o ponto de intervenção mais eficaz está na estrutura organizacional, e não apenas em apoio clínico pontual.
No ambiente corporativo, a saúde mental deixou de ser apenas uma pauta de bem-estar individual e passou a se consolidar como um fator econômico e estratégico para as empresas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão e a ansiedade geram perdas globais de produtividade estimadas em US$ 1 trilhão por ano, principalmente em razão de afastamentos, presenteísmo e queda de desempenho no trabalho.
Em um levantamento exclusivo da Flora Insights, observou-se que mais de 60% dos riscos psicossociais classificados como altos ou críticos em empresas avaliadas provêm de fatores organizacionais, e não de fragilidades individuais, reforçando que o ponto de intervenção mais eficaz está na estrutura e gestão, e não apenas em apoio clínico pontual.
O adoecimento emocional tem efeitos operacionais e financeiros profundos e mensuráveis em empresas de todos os portes, e sua magnitude cresce conforme a complexidade do negócio:
Tecnologia e setores baseados em conhecimento – ambientes de alta demanda cognitiva sofrem queda de performance, maior rotatividade e perda de talentos críticos. Em setores onde a inovação e a continuidade de projeto são essenciais, a falta de capacidade emocional tende a atrasar entregas e reduzir a qualidade de decisões estratégicas.
Indústria e operações de alto risco – colaboradores sob desgaste emocional têm maior probabilidade de cometer erros que resultam em falhas de segurança, interrupções de produção ou não conformidades regulatórias. Em ambientes com certificação de segurança (ex.: ISO, normas ambientais ou termo de responsabilidade técnica), isso pode resultar em penalidades, auditorias adicionais ou até paralisações operacionais.
Varejo e serviços – nesses contextos, o presenteísmo (estar presente, mas com produtividade comprometida) é um dos maiores custos ocultos, muitas vezes superando o absenteísmo em impacto econômico, em parte porque reduz a capacidade de entrega do time sem aparecer nos balanços tradicionais de RH.
Em setores regulados (energia, saúde, transporte, financeiro, químicos), falhas decorrentes de erros humanos impulsionados por desgaste emocional podem acarretar investigações regulatórias, multas e até a perda de licenças operacionais. Além disso, a negligência sistemática em mitigar riscos psicossociais pode ser interpretada em auditorias como falha no gerenciamento de riscos, impactando ratings de conformidade e até contratos com stakeholders que exigem práticas ESG e governança robusta.
Os efeitos da NR-1
Historicamente, a saúde emocional nunca ocupou o mesmo lugar estratégico que outros pilares organizacionais, como treinamento, metas, performance ou compliance. Culturalmente, falar de sofrimento emocional no trabalho era visto como fraqueza ou exagero. A pandemia rompeu essa narrativa. Ela escancarou, de forma coletiva, como fatores emocionais impactam produtividade, engajamento, tomada de decisão e até a sustentabilidade dos negócios.
A NR-1 consolida esse aprendizado ao reposicionar os riscos psicossociais dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos, tratando o tema não como uma pauta acessória de saúde, mas como um elemento central da gestão. Pela primeira vez, segurança do trabalho e áreas que cuidam de pessoas, cultura e talento passam a perseguir um mesmo objetivo: identificar, avaliar e mitigar riscos psicossociais que afetam o desempenho organizacional.
Ainda no mesmo levantamento da Flora Insights, observou-se, por exemplo, que a definição de metas aparece como um eixo relevante da gestão com impacto direto sobre indicadores emocionais e de desempenho. Os dados mostram que metas realistas elevam o engajamento em até 25%, enquanto metas atingíveis estão associadas a uma redução de 27% nos níveis de ansiedade. O estudo também indica que a clareza sobre objetivos atua como fator de proteção contra o estresse ocupacional, ao passo que metas percebidas como inalcançáveis tendem a intensificar o desgaste emocional, funcionando como um fator de risco para burnout e adoecimento mental no trabalho.
3 pontos decisivos para se adequar à NR-1 em 2026
Prevenção é o melhor remédio
Identificar riscos psicossociais não significa apenas apontar onde já existe um problema, mas criar sistemas de alerta que permitam agir antes que o dano se instale. Diagnósticos estruturados são comprovadamente mais eficientes quando utilizados como instrumentos de prevenção, e não apenas de correção.
Quando a empresa consegue identificar sinais iniciais de sobrecarga, desgaste emocional ou falhas organizacionais, ela atua em um momento em que as soluções são mais simples, mais baratas e menos traumáticas. Tratar um risco antes que ele se transforme em afastamento, conflito grave ou alta rotatividade é mais fácil do que intervir quando o problema já se tornou crítico.
Ao integrar dados contínuos à gestão, o diagnóstico deixa de ser um retrato estático e passa a funcionar como um radar organizacional. Ele permite monitorar tendências, comparar áreas, antecipar impactos e orientar decisões com base em evidências, não em percepções isoladas ou ações pontuais. Dessa forma, a saúde emocional sai do calendário simbólico de campanhas sazonais e passa a fazer parte de uma estratégia permanente de gestão de riscos, eficiência e sustentabilidade do negócio.
*Ricardo Queiroz é CEO da Flora Insights, plataforma digital especializada e pioneira no diagnóstico e gestão de riscos psicossociais ocupacionais.







