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O que o narcisismo nas lideranças revela sobre a saúde mental no trabalho

Líderes narcisistas não surgem por acaso. Eles são favorecidos pelo acúmulo de poder, desvalorização da empatia e redução da complexidade humana do trabalho.

Por André Fusco, médico psicanalista
15 jan 2026, 15h30 •
Fotografia de um espelho quebrado em superfície verde.
 (Paul Linse/Getty Images)
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  • Nas últimas décadas, acompanhamos uma transformação silenciosa e profundamente preocupante no modo como as relações de poder vêm se estruturando dentro das organizações. Não se trata apenas de metas mais agressivas, pressão por resultados ou mudanças tecnológicas aceleradas. O que observo, tanto na clínica quanto na consultoria organizacional, é que o avanço do narcisismo nas lideranças tem funcionado como um importante indicador do adoecimento do trabalho.

    O termo “narcisismo” costuma ser usado de forma banal, quase como sinônimo de vaidade ou autoconfiança excessiva. Mas, do ponto de vista psicanalítico, narcisismo é algo normal e necessário. Sem narcisismo nem nos cuidamos. Escovar os dentes é uma atitude narcisista. Mas estamos falando de algo muito mais sério. Um narcisismo exacerbado e tóxico: uma fragilidade profunda na constituição da personalidade, marcada pela incapacidade de compaixão, pela necessidade constante de admiração e pelo uso instrumental das relações humanas. Quando esse padrão aparece com frequência em posições de poder, ele diz menos sobre indivíduos isolados e mais sobre o tipo de organização que estamos construindo.

    Quando falta amor, sobra controle

    Ao longo da minha formação sobre o tema, uma referência fundamental tem sido Donald Winnicott. Em seus estudos com crianças órfãs durante as guerras na Europa, ele demonstrou algo essencial: não basta cuidado técnico para que uma personalidade se constitua. Alimentar, medicar e cumprir horários não substituem o afeto. Crianças privadas de vínculos amorosos não apenas adoeciam; muitas sequer sobreviviam.

    A psicanálise nos ensina que o amor não é um detalhe emocional, mas um elemento estruturante da subjetividade. É no vínculo, no reconhecimento e no cuidado que aprendemos quem somos. Quando esse processo falha, o indivíduo cresce sem uma identidade psíquica sólida. Essa fragilidade gera uma angústia intolerável: a sensação de não existir, de não saber quem é.

    Diante desse vazio, muitos constroem personagens (falso self). Criam narrativas grandiosas sobre si mesmos e passam a depender do outro para sustentar essa ficção. As pessoas deixam de ser vínculos e passam a ser recursos. O outro existe apenas para confirmar, admirar ou obedecer. É nesse ponto que nasce o líder narcisista e é também aí que o trabalho começa a se tornar um território de sofrimento.

    Por que os narcisistas sobem tão rápido no mundo corporativo

    Do ponto de vista organizacional, o cenário se torna ainda mais delicado. Estudos recentes indicam que pessoas com traços narcisistas tendem a ascender mais rapidamente a cargos de liderança. Um exemplo é o artigo científico The perks of narcissism: Behaving like a star speeds up career advancement to the CEO position, publicado em 2021, que mostra que indivíduos com níveis elevados de narcisismo levam, em média, quase 30% menos tempo para alcançar posições como a de CEO quando comparados a pares igualmente qualificados, porém menos autopromocionais.

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    Não é difícil entender o porquê. Narcisistas costumam ser sedutores. Falam com convicção até quando mentem, não sentem remorso (sem compaixão), vendem certezas em contextos complexos e raramente demonstram dúvida ou fragilidade. Em culturas empresariais que confundem segurança emocional com força, compaixão com fraqueza e controle com liderança, esse perfil tende a ser premiado. O problema é que, ao fazer isso, as organizações acabam reforçando dinâmicas que corroem a saúde mental coletiva.

    O efeito é cumulativo. CEOs e líderes com traços narcisistas tendem a nomear líderes semelhantes a si mesmos. Um estudo conduzido pela equipe do professor Lorenz Graf-Vlachy, da Universidade Técnica de Dortmund, na Alemanha, que analisou 11.705 perfis do LinkedIn de altos executivos de empresas dos Estados Unidos, mostrou que um aumento de um desvio padrão no nível de narcisismo de um CEO está associado a um crescimento de 18% no narcisismo de cada novo executivo nomeado. O resultado são ambientes marcados por competição destrutiva, conflitos internos e alta rotatividade na alta gestão, todos fatores diretamente associados ao adoecimento mental no trabalho.

    Relações abusivas não acontecem só na vida pessoal

    Líderes narcisistas se alimentam da energia emocional de pessoas empáticas, comprometidas e amorosas, exatamente aquelas que fazem o trabalho acontecer. São relações abusivas que não se limitam à esfera íntima. Elas se reproduzem no trabalho, nas equipes, nos conselhos e nas estruturas de poder.

    Esses líderes não buscam desenvolver pessoas. Buscam controle. Um atraso de cinco minutos em uma resposta, um questionamento ou uma autonomia inesperada já pode ser vivido como ameaça. A reação costuma ser desproporcional: desqualificação, manipulação emocional ou punição simbólica. Com o tempo, o medo passa a organizar o trabalho, e ambientes governados pelo medo adoecem.

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    O erro de tratar o problema como individual

    Diante desse cenário, muitas empresas respondem com treinamentos comportamentais, programas de bem-estar ou, em casos extremos, com a punição isolada de um gestor. Embora essas medidas possam ser necessárias em situações específicas, elas não enfrentam o problema central.

    O narcisismo não prospera no vácuo. Ele encontra terreno fértil em modelos de gestão que exaltam a competição, recompensam resultados a qualquer custo e normalizam a desumanização. Questionários de personalidade em processos de seleção, inclusive, muitas vezes identificam a baixa empatia e, ainda assim, aprovam esses perfis como sinônimo de “alta performance”. O adoecimento passa a ser tratado como um efeito colateral aceitável.

    O que esse fenômeno revela, portanto, não é apenas um problema de liderança, mas um problema de organização do trabalho.

    Ergonomia Mental: mudar a lógica, não apenas os indivíduos

    É aqui que entra a Ergonomia Mental. Assim como a ergonomia osteomuscular nos ensinou que não adianta fortalecer o corpo se o posto de trabalho continua adoecedor, a Ergonomia Mental propõe olhar para metas, sistemas de avaliação, incentivos e relações de poder que moldam o cotidiano organizacional.

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    A saúde mental no trabalho não se resolve pedindo que as pessoas sejam mais resilientes. Resolve-se criando contextos em que o sofrimento tenha sentido, reconhecimento e limite. Ambientes onde a cooperação substitua a guerra interna e onde liderança seja sinônimo de responsabilidade relacional, não de dominação.

    Um convite à transformação

    Não podemos tratar o narcisismo apenas como um desvio individual. Ele precisa ser compreendido como um fenômeno organizacional, que revela muito sobre as regras, os valores e os modelos de sucesso que estamos sustentando.

    No fim das contas, estamos diante de uma escolha importante: seguir operando sob uma lógica que privilegia o individualismo e o controle ou construir organizações capazes de crescer de forma saudável e sustentável. Lideranças com traços narcisistas não surgem por acaso. Elas são favorecidas por contextos que concentram poder, desvalorizam a empatia e reduzem a complexidade humana do trabalho.

    A boa notícia é que a transformação é possível. E ela começa quando deixamos de perguntar “quem é o problema?” e passamos a refletir sobre “o que, na nossa organização, está produzindo esse problema?”. Rever essa lógica não é um gesto de fragilidade, mas de maturidade e inteligência estratégica. Afinal, nenhuma organização se sustenta no longo prazo quando perde de vista aquilo que, de fato, a mantém viva: as pessoas.

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    *André Fusco, médico psicanalista, especialista em Ergonomia Mental e consultor em saúde mental no trabalho.

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