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Jackie De Botton Por The School of Life Diretora e sócia-fundadora da The School of Life

O que fazer quando o plano A não é a melhor opção?

Embora a maioria de nós precise de um plano A bem estruturado, a vida toma caminhos inesperados e exige que mudemos de direção. Como fazer isso sem sofrer?

Por Jackie de Botton, colunista de VOCÊ RH Atualizado em 22 ago 2021, 08h40 - Publicado em 22 ago 2021, 07h00

Em geral, crescemos com um forte apego a um plano A. Necessitamos de uma ideia de como nossas vidas serão e o que precisamos fazer para alcançar nossas metas. Mas, de certa forma, pelo menos para muitos de nós, em algum momento ou outro a vida acaba tomando rumos que não esperávamos. Certo dia você descobre que o melhor é se despedir daquela pessoa na qual investiu muito tempo e sentimento, talvez tenha que mudar de cidade, a promoção desejada vai para outra pessoa, descobrimos uma infidelidade ou cometemos algum erro que nos obriga a rever a rota.

Em momentos como esses, costumamos chorar e nos enfurecer com a virada dos ventos. Como a imprevisibilidade da vida é algo real e faz parte do processo de viver, é útil treinarmos o nosso olhar e posicionamento diante de perdas e mudanças inesperadas. São momentos em que devemos considerar uma de nossas habilidades mais vitais: desenvolver um plano B, encontrar formas de superar a situação, aprender com ela, retomar o eixo e seguir em frente. Mas simplesmente pode acontecer de, sem nenhuma tragédia envolvida, nos darmos conta de que o plano A nunca foi a melhor opção, era apenas um caminho para outros rumos.

  • Alguns exemplos de mudanças de rumos

    No início do século XX, os franceses Louis e Annie La Saigne vieram ao Brasil com a missão de fechar a filial brasileira de uma empresa com sede em Paris, a Mestre & Blagé, especializada no comércio de máquinas e equipamentos. Inesperadamente, no meio da viagem, na Argentina, aconteceu o nascimento da filha deles, Jacqueline.

    A chegada da bebê veio acompanhada de uma mudança de planos. Em vez de finalizar o empreendimento nas terras brasileiras, decidiram fincar os pés no Rio de Janeiro. O que foi uma sorte para mim. Afinal, o casal, que no caso era formado pelos meu bisavô e minha bisavó maternos, além de ter sido muito feliz na cidade maravilhosa, me deram a oportunidade de nascer em um lugar que eu amo.

    Meyer e Esther de Botton, meu bisavô e minha bisavó paternos, que eram residentes em Salonica e donos dos cavalos do Sultão, perderam tudo durante a revolução liderada por Kemal Atatürk. Como resultado, cada um de seus 16 filhos, judeus Sefaradis cuja origem vem da Península Ibérica, partiu depois para um lugar diferente no mundo. Entre eles estava meu avô, Henrique.

    O maior aprendizado que extraí disso

    Esses e outros familiares meus precisaram se reinventar para viver. E um grande ensinamento que todos transmitiram a mim foi que nenhuma mudança de planos na nossa vida significa algum tipo de maldição. Outra lição foi a importância de perceber que somos, apesar de momentos de confusão, capazes de desenvolver alternativas muito decentes, de A a Z. Eu me dei conta disso tanto pela história da minha família quanto pelos acontecimentos da minha vida pessoal e profissional.

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    Por que é difícil mudar

    No contato com os conteúdos da The School of Life – que têm uma mescla de psicologia, filosofia, cultura e história -, descobri que algumas razões pelas quais, muitas vezes, não confiamos que podemos mudar estão relacionadas à infância. Ainda que seja difícil de reconhecer, ainda somos influenciados pela época em que não podíamos fazer muito em resposta ao que nos desagradava. Nossas vidas, decisões e preferências eram, constantemente, comandadas pelos adultos.

    Sem dúvida, um dos melhores aspectos de sermos adultos – e eu preciso constantemente me relembrar sobre isso -, é o conforto, a liberdade e a capacidade de agir e nos adaptar a novas realidades e a novos planos. Somos uma espécie profundamente adaptável e a pandemia do coronavírus veio para nos mostrar isso! Nos sentimos desesperados até redescobrirmos nosso músculo latente, aquele que exercitamos face ao desastre, quando temos que navegar com novos mapas.

    Um relato pessoal

    Eu, antes de fundar a The School of Life aqui no Brasil, passei por um momento de ter que mudar do Plano A para quase Z. Tinha acabado de produzir um documentário indicado ao Oscar. Ele era sobre arte e o maior aterro a céu aberto no País. Meu plano era montar uma empresa de reciclagem como um negócio para a minha vida.

    Tudo o que eu planejei após aquele momento lindo e gratificante no Oscar deu errado. Tive que começar do zero. Hoje, o que era Plano Z, se tornou uma paixão na minha vida, com a possibilidade de, diariamente, exercitar minha natural curiosidade pela vida e pelas pessoas. O revés anterior, porém, me ajudou a sempre manter no radar Planos B, C, D e assim por diante.

    Sem apego a roteiros pré-definidos

    Eu não acredito que exista um roteiro escrito para nós em nosso nascimento para nos levar a uma determinada direção. Em meio a todas as minhas diversas mudanças de planos, encontrei algumas pessoas que me relataram, muito sinceramente, como muitos Planos B acabaram, no final, se revelando superiores aos Planos A. É claro que nenhuma mudança relatada aconteceu em um passe de mágica. Foi preciso trabalhar mais duro, cavar mais fundo, reduzir o volume da vaidade e calibrar o medo.

    Hoje, não tenho mais a necessidade imediata de saber se um plano vai dar certo ou ser perfeito. Mas toda vez que eu sou desafiada a redesenhar a rota, como fez e está fazendo a covid-19 neste momento, penso nos meus antepassados e em como foram as suas mudanças de plano que, de certa forma, me trouxeram até aqui. Isso me dá a medida de confiança necessária para seguir em frente.

    Assinatura de Jackie de Botton
    VOCÊ RH/Divulgação
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