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Presidente do Itaú conta como o banco se tornou o melhor para os jovens

Em entrevista a VOCÊ S/A, Candido Bracher fala sobre as mudanças no Itaú, a Melhor Empresa para Começar a Carreira de 2018

Por elisatozzi Atualizado em 5 dez 2020, 20h48 - Publicado em 10 dez 2018, 14h00

São Paulo – Desde 1981, o paulistano Candido Botelho Bracher, de 59 anos, atua no mercado financeiro. Sua trajetória começou na Suíça, como estagiário em um banco em Zurique.

De lá para cá, passou por empresas como o Banco Itamarati e participou desde o início do banco de investimento BBA, fundado por seu pai, Fernão Bracher, em 1998, e comprado pelo Itaú em 2002.

Antes de assumir a atual função em abril de 2017, Candido presidia o Itaú BBA. Seu desafio, além de tomar para si o lugar de Roberto Setúbal, sobrinho-neto do fundador do Itaú, é preparar o banco para o futuro.

“Não sou candidato político, não tenho de me preocupar com reeleição, nem inaugurar nenhuma obra. Minha preocupação é que o negócio tenha continuidade. Gostaria que, daqui a alguns anos, quando comentarem sobre minha gestão, digam que foi uma fase de foco no cliente e de capacitação para enfrentar os processos de transformações aceleradas”, diz Candido em entrevista a VOCÊ S/A.

Desde o ano passado, o Itaú Unibanco está se tornando um local mais flexível, com a extinção do dress code e a adoção do home office. Por que colocaram essas novidades em prática?

É um projeto de transformação contínua. A área de gestão de pessoas é o principal instrumento de uma empresa, especialmente de uma de serviços. Mas o fato é que as pes­soas mudam e você precisa geri-las de acordo com as novas expectativas. O que os profissionais querem é que haja a menor distância possível entre a pessoa que eles são e a pessoa que esperam que sejam no trabalho. Isso precisa ser reduzido ao mínimo para que você consiga ser no trabalho a pessoa que é. As mudanças que temos implementado vão nessa direção. Tanto que o programa de dress code foi batizado de “Eu venho como sou”. No caso do home office, nem é preciso vir. Também adaptamos o ambiente de trabalho para favorecer o contato entre os profissionais e estimular a troca de ideias.

Em um local com tanta diversidade geracional é comum que ocorram alguns conflitos. Um dos mais frequentes é quando os seniores acreditam que apenas os novatos têm oportunidades. O que fazer para lidar com isso?

Há dois anos, num encontro entre líderes com 12.000 pessoas, um profissional me perguntou se os mais velhos tinham chance de ser promovidos no banco. E eu respondi: “Enquanto a pessoa tiver disposição de aprender, ela pode crescer no banco”. Quase falei que tinha 58 anos e havia sido promovido [risos]. O que acontece, e isso é uma reflexão que talvez eu nem devesse fazer em público, é que uma pessoa que parou de se provocar e estacionou em determinada posição dificilmente vai passar a agir de outra maneira. Desafiar-se é um modo de viver. É um contínuo na vida e independe da idade.

Algum feedback o levou a refletir sobre sua gestão?

Muitas vezes, o feedback vem de maneira informal. Tenho escutado mais e prestado atenção nos outros, pois o modo como as pessoas reagem à sua forma de orientar ensina muito. O dress code é um exemplo. Quando eu estava no BBA, era radicalmente contra a roupa ca­sual nas sextas-feiras. Adorava repetir uma frase de um antigo professor de educação física: “O uniforme predispõe para a atividade”. Falava em tom de piada, mas real­mente acreditava nisso. Até que comecei a dar valor a outras coisas e entendi que o que ­predispõe para a atividade é você sentir que pode ser você mesmo, saber que tem autonomia para fazer as coisas. Se a empresa não deixa o funcionário escolher nem a roupa que vai usar, que ­mensagem está passando quando cobrar por iniciativa?

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Ter autonomia também é poder empreender internamente. Como isso acontece no Itaú?

Temos um grande caminho a percorrer. Mas estimulamos cada vez mais a provocação, procurando reconhecer as ideias que surgem e rees­truturando a forma de funcionar. Estamos saindo dos silos para gerar comunidades. O empreendedorismo pode vir a desempenhar um papel mais importante aqui dentro.

De que maneira as fintechs influenciam essa mudança de mentalidade?

Um filósofo de que eu gosto muito, chamado Ortega y Gasset, diz que “eu sou eu e minhas circunstâncias”. As fintechs fazem parte de nossas circunstâncias e chamam a atenção. Temos de olhar o que elas estão fazendo de bom e procurar reproduzir. Elas nos estimulam a buscar inovação e a ter um senso de urgência maior.  As fintechs afetam nosso mundo não apenas na competição pelos clientes mas também na luta pela força de trabalho. Se quero atrair jovens que gostam de startups, preciso fazer diferente e pensar em inovações nas quais elas ainda não estejam pensando.

Itaú Unibanco, em São Paulo (SP): para aumentar a diversidade, a companhia revisou o bônus durante a licença-maternidade

Outro aspecto importante para os jovens é a diversidade. Quais os desafios e os benefícios de tornar o banco um local mais diverso?

É bom fazer algo sem pensar em quais são os benefícios, apenas levando em conta que essa é a coisa certa a fazer. Mas, além disso, há inúmeras vantagens na diversidade. A primeira é que você precisa se esforçar para que ela aconteça. Se ficarmos parados aqui selecionando do modo como sempre fizemos, não vamos mudar. É preciso fazer um esforço para conseguir a diversidade, ir atrás das pessoas. E isso se aplica a outros desafios, como o fato de que, embora 50% da base seja formada por funcionárias, temos apenas uma mulher no comitê executivo. Uma coisa que alteramos foi o cálculo do bônus durante a licença-maternidade. Antigamente, se a pessoa ficasse afastada por quatro meses, receberia o pagamento proporcional. Mas isso costumava gerar insatisfação das mulheres com a carreira. Agora, elas recebem o valor integral.

Falando um pouco de sua carreira, quais as diferenças entre os jovens que atuavam no setor bancário quando você ingressou no mercado e os profissionais de hoje?

Quando eu me lembro do meu comportamento no começo da carreira, tenho a impressão de que tinha um respeito reverencial às coisas como elas eram. Aquela era uma época em que as mudanças ocorriam mais lentamente do que ocorrem hoje. O fato de os ciclos serem mais curtos dá às pessoas em geral — e aos jovens especificamente — a sensação de que são capazes de transformar as coisas e se sentem autorizadas a trabalhar pela modificação daquilo que encontram. São mais atuantes do que antigamente. Comecei a trabalhar em 1981 em um banco de Zurique. Eu me lembro que estava conversando com meus amigos estagiários suíços e um deles me disse que escolheu a empresa porque o plano de aposentadoria era muito melhor do que o dos concorrentes. Essa conformidade não acontece mais. Hoje espera-se o ativismo.

Quais são seus conselhos para quem quer começar a carreira no Itaú?

Mantenha a curiosidade, faça perguntas e pense com a própria cabeça sobre as respostas que lhe derem.

Qual livro indicaria para um jovem?

Gosto muito de ler, mas não fico procurando respostas nos livros. É melhor quando eles trazem perguntas. Acho que todo jovem deveria ler Os Irmãos Karamázov [Editora 34, 118 reais], mas não é porque lá existam respostas. Há um trecho, chamado “O grande inquisidor”, que é um diálogo entre Cristo, que voltou para a Terra em 1400 em Sevilha, e o Grande Inquisidor. Cristo é preso como herege e o Grande Inquisidor vai visitá-lo na cadeia. Ele diz: “Não me importa se você é Cristo ou não é. Se você for um impostor, é um herege e tem que morrer no garrote vil. Se não for um impostor, cometeu um erro quando se negou a converter a pedra em pão para dar ao homem a liberdade de procurar o próprio pão. Nós, da Igreja, fizemos o contrário e dissemos ao homem: ‘Me dê sua liberdade que eu te dou o pão’ ”. Eu usei essa história no banco uma vez para dizer que você não deve nunca abrir mão da liberdade de procurar as próprias respostas. 

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