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Jackie De Botton Por The School of Life Diretora e sócia-fundadora da The School of Life

O que garante significado no trabalho?

Três fatores são importantes: ter afinidade com um dos nossos talentos, ajudar algo ou alguém e gerar impacto

Por Jackie de Botton, diretora e sócia-fundadora da The School of Life 11 ago 2020, 17h03

O ano de 2020 tem sido tão surpreendente quanto desafiador. Tenho a sensação de que saí de um encontro entre a Marie Kondo e o Charles Darwin, revendo hábitos, processos, pessoas, roupas e coisas que não “me cabem mais”. Junto com a pandemia veio o retrato ainda mais escancarado do tamanho da desigualdade social que vivemos no Brasil e no mundo, além do desafio de repensar o capitalismo em sua essência, o consumo consciente e as nossas escolhas cotidianas. Precisamos considerar, ainda, a urgência de um engajamento ativo na vida política.

É como se tivéssemos levado um chacoalhão da vida e da natureza e, trancados entre quatro paredes, tivemos que encarar tudo aquilo que sistematicamente ignoramos nos últimos tempos. Entre tudo o que vínhamos deixando de lado está a pergunta: “o que você ama fazer?”. Esta reflexão tem muito a ver com a carreira dos profissionais em geral, refletindo diretamente nos resultados e no clima organizacional de empresas de todos os portes e segmentos.

Necessidade recente

A necessidade de nos sentirmos conectados com o trabalho que realizamos é algo bastante recente. Na maior parte da história, a humanidade nunca trabalhou por prazer ou propósito. Éramos cultivadores de terra, recolhendo feno e tosquiando ovelhas. Aqueles, cujos pais eram padeiros ou açougueiros, já estavam com seus destinos profissionais praticamente desenhados. A única razão para se trabalhar era o dinheiro como forma de sobrevivência.

Um bom exemplo ilustrativo dessa antiga dinâmica é o livro As Riquíssimas Horas do Duque de Berry, escrito por volta de 1410. A obra é conhecida como um dos maiores livros de horas, com os acontecimentos lindamente ilustrados durante mais de um ano. Nele é possível ver a representação dos meses de cada ano com os respectivos trabalhos – quase todos agrícolas – a eles relacionados.

Nos tempos modernos, do qual fazemos parte, desde a Revolução Industrial ansiamos por trabalhos que sejam significativos. Passamos a construir as nossas vidas profissionais a partir dos nossos interesses e das nossas paixões. O trabalho ganhou status de satisfação pessoal e propósito, ganhando significativo espaço no nosso dia a dia. Afinal, como escreveu o filósofo Friedrich Nietzsche, o significado da nossa vida é: “nos tornarmos quem realmente somos”.

O que traz significado

Na The School of Life acreditamos que três fatores garantem significado a um trabalho: ter afinidade com um dos nossos talentos; ajudar algo ou alguém, em pequena ou grande escala; e gerar impacto em outras pessoas, na sociedade, no país ou no planeta. Isso nos permite supor que nem sempre um desconforto no trabalho precisa ser resolvido com um pedido de demissão. Talvez, uma sensação de tédio ou de esgotamento possa ser resolvida com um exercício de se conhecer melhor e se analisar pacientemente para se reconectar com valores básicos que permitam a essa pessoa encontrar um propósito no trabalho que executa hoje.

As pessoas sempre trabalharão mais e melhor quando o lado pessoal estiver engajado, ou seja, quando encontrarem um trabalho para amar, ainda que em seu pacote – misturado aos aspectos positivos – tenham situações decepcionantes, complicadas e desafiadoras. Mas, para alcançar esse entendimento, é importante refletirmos mais sobre o motivo que torna o nosso trabalho importante, quais são nossas motivações e os nossos valores, qual é o nosso lugar na organização na qual atuamos e como criar um plano para ampliar a nossa noção mais profunda de propósito.

Não se prive desse entendimento a respeito de você mesmo, principalmente no momento em que estamos vivendo. Como disse Alain de Botton, filósofo, escritor e fundador da The School of Life: “As pessoas só ficam realmente interessantes quando começam a sacudir as grades de suas gaiolas”. Eu, sinceramente, não consigo pensar em um ano que nos tenha exigido mais sobre este discernimento em saber o que queremos amar, com o que nos importar e como usar melhor o nosso tempo. Seja para os negócios ou para a vida, é sempre importante sabermos o que desejamos.

 

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