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Ana Carolina Souza Neurocientista e sócia da Nêmesis, empresa de educação corporativa na área de neurociência organizacional

Por que é tão difícil dizer não?

Esse receio pode ter uma explicação neurológica, já que o cérebro tem padrões e vieses inconscientes que influenciam comportamentos

Por Ana Carolina Souza, colunista de VOCÊ RH Atualizado em 13 jun 2022, 09h20 - Publicado em 27 Maio 2022, 14h55
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aber criar limites saudáveis tornou-se uma habilidade fundamental, mas por que será que é tão difícil dizer “não”? Vou responder a essa pergunta com uma questão reflexiva: “O que vão pensar de mim?” A origem de tudo o que vamos falar aqui reside nessa segunda pergunta, que intimamente nos atormenta sempre que queremos negar um convite ou pedido.

Somos animais sociais. No nosso cérebro existem diversos padrões e vieses inconscientes que influenciam nosso comportamento diariamente, associados justamente a essas características da nossa espécie. Pertencer a um grupo é algo tão importante para nós que existem estudos que mostram que a qualidade das nossas relações sociais é um dos maiores preditores de saúde, longevidade e felicidade na vida adulta (1).

Outros identificaram que a exclusão social é capaz de ativar uma região no cérebro associada à dor emocional (2), disparando uma espécie de alarme. E ainda há aqueles que mostram que o suporte social é capaz de amenizar a resposta física associada ao estresse (3)! Essa é uma área de conhecimento bastante rica, e o que não faltam são pesquisas que indicam quão importante é se sentir aceito, acolhido e pertencendo a um grupo. E é justamente por isso que, para a maioria de nós, dizer “não” para alguém pode ser um baita de um desafio!

Para muitos, uma resposta negativa a um pedido ou convite pode ser rapidamente interpretada como uma espécie de rejeição. Como assim tal pessoa não está interessada ou disponível para me atender? Dependendo do contexto, as interpretações para o “não” recebido podem ser diferentes umas das outras, mas, de maneira geral, ser “rejeitado” ou não ter sua necessidade atendida é algo naturalmente desagradável para nós. Devido ao nosso comportamento social, ser aquele que promove essa frustração, e que de alguma forma “rejeita” o outro, também não é nada fácil.

Por serem tão desagradáveis, essas situações costumam ativar em nosso cérebro comportamentos de evitação e… adivinhem? A melhor forma de evitar um constrangimento desses é dizer “Sim!” ao que nos pedem, principalmente se quem pede é alguém hierarquicamente acima de nós. Ao fazê-lo, buscamos satisfazer ao outro, atendendo suas expectativas e necessidades em troca de sermos bem aceitos socialmente. Porém, muitas vezes, para evitar ter que lidar com algum tipo de constrangimento social, acabamos comprometendo nossas próprias necessidades e interesses. Temos menos tempo para cuidar da nossa saúde e do bem-estar, para estar com a família ou mesmo para priorizar aquilo que realmente importa no trabalho. Ao tentar atender a todos, acabamos sobrecarregados, cansados e frustrados.

Como fugir desse cenário desastroso? Antes de mais nada, considere o pedido que foi feito. Faça perguntas para entender melhor do que se trata, assim poderá avaliar com segurança se você pode fazê-lo e quanto ele é importante para sua carreira ou vida pessoal. Se você entende que NÃO deve assumir o compromisso, siga as dicas abaixo:

1) Agradeça pela oportunidade/convite e reconheça que isso é importante para a outra pessoa. Essa atitude é fundamental para mostrar que você respeita a outra pessoa e reconhece suas necessidades. Mesmo as negociações mais simples podem ser bastante complexas quando levamos em consideração as emoções envolvidas, por isso, essa atitude empática pode contar pontos a seu favor, mesmo que ao final você negue o pedido;

2) Evite dizer apenas “não”. Use evidências, sem exagerar. O importante aqui é mostrar o racional por trás de sua decisão e os valores que a sustentam. Quando não damos informações suficientes para apresentar a decisão, as pessoas tendem a interpretar o que ocorreu a partir de suas próprias perspectivas, muitas vezes incompletas e cheias de vieses. Mas cuidado com o excesso de explicações! Muita informação pode levar a muita discussão, tornando difícil para você manter sua posição;

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3) Seja firme! Mostre que você considerou cuidadosamente a proposta e que essa é a sua decisão. Algumas alternativas aqui podem envolver negociar a demanda ou o convite que surgiu para que seja mais vantajoso para todos os envolvidos. Alguns exemplos de frases que podem ser usadas são:

  • Desta vez eu não consigo, mas adoraria ver uma nova data com você.
  • Eu não tenho disponibilidade, mas posso te indicar uma pessoa.
  • Dessa forma – ou neste prazo – eu não conseguirei te atender. Podemos rever a proposta?
  • Consigo fazer o que você me pede, mas para isso terei que parar outra atividade, podemos rever nossas prioridades?

Quanto melhor for o nosso relacionamento com essa pessoa, mais fácil será negociar esses limites. Assim como outras habilidades, dizer não também é algo que melhora com o tempo e perceber os benefícios dessa prática na nossa rotina é fundamental. Tente começar dizendo não em situações mais simples e vá aprimorando sua habilidade aos poucos.

Para aprender a dizer não de uma forma convicta, é fundamental reconhecer nossas próprias necessidades, desejos e limites. O que é realmente importante para você?

Que tal fazer um exercício bem simples: Pegue uma folha de papel. De um lado, escreva “SIM”; do outro, “NÃO”. Agora imagine que você vai usar essa folha para responder a um pedido ou convite. Se sua resposta para o pedido for “sim” — imagine-se mostrando esse lado da folha para pessoa à sua frente —, qual palavra fica virada para você? Cada vez que você diz sim para um compromisso, está necessariamente abrindo mão de alguma outra coisa em sua vida. E se fosse o contrário?

Dizer não aos convites que não nos interessam é a melhor maneira de garantir que seremos capazes de dizer sim ao que mais importa. Sustentar esses limites de maneira eficiente ao longo do tempo é o que vai te ajudar a ter mais qualidade de vida, performance e satisfação. Mais do que dizer sempre sim ou não para as oportunidades que surgem, precisamos aprender mais sobre nós mesmos e, a partir disso, construir esses limites de uma maneira mais saudável e respeitosa para todos os envolvidos.

Referências

1) Good genes are nice, but joy is better. The Harvard Gazette. Acesse aqui.

2) Does rejection hurt? An FMRI study of social exclusion. Eisenberger, N. et al. Science. 2003.

3) Social support and oxytocin interact to suppress cortisol and subjective responses to psychosocial stress. Heinrichs, M. et al. Biol Psychiatry. 2003. Acesse aqui.

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