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Edwiges Parra

Psicóloga e professora de educação executiva da FGV, especialista em saúde mental corporativa e dependências tecnológicas
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Minimalismo digital: como fazer uso inteligente das tecnologias

O uso excessivo de internet pode ser um escape emocional que gera dependência, compulsão e vício. Saiba como se livrar dele em cinco passos

Por Edwiges Parra
Atualizado em 11 abr 2022, 16h52 - Publicado em 9 mar 2022, 07h00
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Brasil está em segundo lugar no ranking mundial que mede o número de horas na internet — em média, o brasileiro passa mais de 10 horas por dia conectado. Esse é um resultado um tanto preocupante, uma vez que isso gera impactos para as gerações nascidas dentro desse contexto mundial de tecnologia, assim como às gerações anteriores.

Um fato relevante é que vivemos uma epidemia quando nos referimos à dependência da internet, que antes acreditávamos ser um fenômeno oriundo de uma faixa etária mais jovem, o que não é fato nos dias de hoje. A dependência pode ser encontrada em qualquer faixa etária, nível educacional e classe socioeconômica.

Isso me fez lembrar de uma executiva que me foi encaminhada por um colega médico especialista em sono, cuja queixa era que não conseguir dormir. Ela descansava, em média, 3 horas por dia. Em sua primeira sessão, dizia que, além dessa dificuldade, também sentia que não tinha foco e atenção e que isso vinha prejudicando tanto sua produtividade como também sua relação familiar, por ser consumida por sentimentos de irritabilidade e cansaço.

Em um dado momento, me disse que, às vezes, se pegava gastando tempo em redes sociais pelo simples fato de que aquele movimento de deslizar o dedo para cima era relaxante, porque, por instantes, não precisava pensar em nada, não tinha que tomar decisões a todo momento e podia simplesmente ver conteúdos de baixa complexidade intelectual. Em média, ela gastava 4 horas e meia em navegações.

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Em outro caso, um jovem com excelente qualificação acadêmica e profissional também relatou que, para relaxar, ficava consumindo conteúdos por horas, seja de redes sociais, seja de jogos eletrônicos, e que não conseguia deixar de ficar conectado, pois isso o distraía de seus problemas reais e aliviava a ansiedade.

Ambos têm idades, contexto familiar e níveis de responsabilidade diferentes em suas fases de vida. No entanto, o ponto em comum que trazem é o tanto de tempo que permanecem conectados, ficando enredados à vida virtual. Vale lembrar que esse escape mental e emocional gera mais dependência, compulsão e vício.

À medida em que as tecnologias invadem progressivamente a vida, o contato com o computador — e a pandemia empurrou ainda mais a vida presencial para a digital — cada vez mais deixa de ser um fato ocasional, pois o número de atividades que são mediadas pela internet vem aumentando significativamente. Isso se reflete pelo número de acessos e tempo medido da população brasileira, que oscila em colocação no ranking mundial, ora em primeira posição, ora em segunda, à frente dos americanos e dos japoneses.

Face a esse contexto, um movimento voltado para um consumo suficiente e consciente do uso de tecnologia vem como uma perspectiva de compreender que, sim, as tecnologias são bons recursos quando fazemos o seu uso de forma inteligente, equilibrada e saudável. Esse movimento se chama Minimalismo Digital. O termo foi cunhado por Carl Newport, professor associado de ciência da computação da Universidade de Georgetown, que tem um interesse genuíno em entender o impacto da tecnologia na sociedade.

Ele define que os minimalistas digitais são pessoas que tendem a ser mais tranquilas e felizes, que estendem longas conversas sem olhares furtivos (ou que se escondem do olho no olho) mantendo interesse e conexão, sem desviar o olhar para o celular.

São pessoas que gostam de ler livros, se concentram em projetos de melhoria da casa ou em uma corrida matinal (esta última faço uso como estilo de vida). Além disso, os minimalistas digitais gostam de se divertir com amigos e familiares, sem o desejo obsessivo de documentar a experiência.

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De acordo com o autor, essas pessoas se informam sobre notícias do dia a dia, mas não se cobram em saber de tudo o tempo todo. Não sofrem de FOMO (Fear Of Missing Out), porque sabem selecionar o que precisam para que seja útil e funcional para o seu dia.

Para que possamos ser promotores de nossa saúde mental, é importante fazer adaptações mais funcionais adquirindo bons hábitos que reflitam em melhor equilíbrio e bem-estar.

5 dicas para promover mudanças a partir de agora

  1. Desative as notificações que não são essenciais e que só servem para capturar sua atenção e foco.
  2. Faça pausas algumas vezes do universo digital. Isso pode envolver feriados, finais de semana e as férias.
  3. Passe um tempo sozinho. Podemos nos beneficiar desse silêncio. Isso ajuda estabelecer uma melhor conexão consigo, fazer uma faxina mental e restabelecer seu ecossistema digital com mais funcionalidade. Algumas pessoas, podem sentir dificuldade em estabelecer esse processo. Nesse caso, vale verificar se não há uma dependência ativa — o recomendável é buscar ajuda para restabelecer o equilíbrio.
  4. Deixe seu smartphone longe de você algumas vezes, principalmente em atividades que exijam concentração e que envolvem pausas para relaxar. Passar um tempo longe desses dispositivos é uma possibilidade de recriar um contato frequente consigo esquecido na rotina.
  5. Faça longas caminhadas. Essa prática propõe que o indivíduo encontre benefícios semelhantes passando mais tempo sozinho caminhando. Para isso, você precisa reservar um tempo médio de 30 minutos, inicialmente, e depois aumentar o tempo e a distância, mantendo a prática regular. Se for possível, não leve celular, mas, caso leve, não fique ouvindo música, áudio-séries e muito menos fique narrando sua experiência no Instagram. Isso não é estar conectando consigo!

A mensagem final aqui é que a tecnologia não é ruim, a chave está em usá-la para facilitar seus objetivos e valores. Fazê-la trabalhar para você, e não o contrário! Até o próximo conteúdo!

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