IA tende a provocar etarismo no mercado de trabalho
Algoritmos na seleção de emprego levarão em conta suposições sobre habilidades ou potencial de aprendizado relacionados à idade.

Pesquisa realizada pelo Sesc São Paulo e pela Fundação Perseu Abramo mostra que, apesar do aumento dos maiores de 60 anos que disseram ter conhecimento sobre o termo internet (de 63% em 2006 para 81% em 2020), apenas 19% dos idosos faziam uso efetivo da rede. Informações da Agência Brasil destacam que, segundo a mesma pesquisa, 72% da população da terceira idade nunca haviam utilizado um aplicativo e 62% não usavam redes sociais na época do estudo. O cenário está evoluindo nestes últimos anos, mas ele serve de base para preconceito.
“É comum observarmos estereótipos sobre pessoas mais velhas, como se fossem menos aptas a usar tecnologias ou não se interessassem por elas, o que não é necessariamente verdade”, explica Rafael Ataide, diretor de Data & Tech da Adtail e pós-graduado em Ciência de Dados e Inteligência Artificial pela PUCRS. Para o especialista, o perigo dos preconceitos é que algoritmos de IA são treinados com grandes conjuntos de dados que refletem padrões e tendências da sociedade.
Um exemplo comum de preconceito etarista em algoritmos de IA é a discriminação no mercado de trabalho, no qual algoritmos usados em processos de seleção de emprego podem favorecer candidatos mais jovens em detrimento dos mais experientes, com base em suposições equivocadas sobre habilidades, adaptabilidade ou potencial de aprendizado relacionados à idade. “As questões são ainda agravadas pela falta de transparência e responsabilidade na gestão das novas tecnologias. Muitas fórmulas são tão complexas que é difícil identificar e corrigir vieses.”
Falta pensar a tecnologia para os mais velhos
De fato, o interesse está maior: outra pesquisa da Offer Wise com a CNDL/SPC Brasil aponta que, em 2021, o percentual de pessoas 60+ com acesso à internet alcançou 97%, um aumento de quase 30% em relação a 2018. Para 84% desses idosos, aliás, o principal meio de acesso é o smartphone.
O que muitas vezes causa desafios é a falta de preocupação em incluir essa parcela da população nos avanços tecnológicos por meio de design e de funções de navegabilidade específicas. “A verdade é que, muitas vezes, a falta de acessibilidade dos equipamentos e a negligência sobre as reais necessidades dos idosos é o que resulta na exclusão digital e no isolamento tecnológico”, explica Rafael.
Essa é uma situação difícil de contornar quando os idosos não estão no corpo de colaboradores das empresas de tecnologia. Rafael ressalta: “Posso afirmar que, em sua esmagadora maioria, as equipes que desenvolvem sistemas de inteligência artificial não são compostas por pessoas de idade avançada. Isso leva à criação de soluções que podem não atender às dúvidas ou auxiliar em dificuldades específicas.”
Governança e inclusão
Para atravessar essa barreira, é preciso mais transparência e responsabilidade na gestão das novas tecnologias. Com fórmulas tão complexas, é difícil identificar e corrigir vieses, mas é um trabalho necessário no treinamento de toda e qualquer IA, visto que essa é uma realidade que veio para ficar e que deve acompanhar a humanidade daqui para a frente.
“Combater o problema inclui adotar medidas desde a fase de desenvolvimento até a implementação dos sistemas de IA, como diversificar o conjunto de dados de treinamento, realizar auditorias regulares, promover a transparência algorítmica e garantir a supervisão humana em todas as etapas do processo”, recomenda o especialista.
Essas decisões precisam ser tomadas agora para refletir em um futuro cada vez mais próximo. “O etarismo na tecnologia não é apenas uma questão técnica, mas também de percepção e preconceito. A tecnologia já é nossa companheira e continuará avançando, assim como continuaremos envelhecendo. Temos de mudar a mentalidade em relação ao envelhecimento para promover uma sociedade mais inclusiva e preparada para os nossos próximos desafios.”