SXSW 2025: Três transformações geradas pela IA nas empresas
Professora de Stanford defende: a tecnologia aprimora a tomada de decisões, fortalece a capacidade de adaptação e acelera a resolução de problemas complexos.

A inteligência artificial não substitui o trabalho humano, mas aumenta a capacidade operacional e estratégica das empresas. É o que defendeu Melissa Valentine, professora da Universidade Stanford, na última terça (11) em palestra no SXSW: o maior festival de inovação do mundo, que acontece anualmente em Austin (EUA).
Em sua apresentação, Melissa discorreu sobre três possíveis vantagens da utilização de ferramentas de IA, demonstrando como elas poderiam aprimorar a tomada de decisões, fortalecer a capacidade de adaptação de uma empresa e acelerar a solução de problemas complexos.
Você confere abaixo os principais insights da palestra graças à parceria da Você RH com a Vidalink, empresa de bem-estar corporativo, e Renata Rivetti, fundadora da Reconnect Happiness at Work, que compareceu ao evento.
1. IA e decisões inteligentes
Melissa enfatizou que as organizações existem para resolver desafios complexos e tomar decisões coordenadas. Como exemplo, apresentou o caso da Stitch Fix, empresa de moda que enfrenta o desafio comum de equilibrar estoques com a demanda dos consumidores.
A vice-presidente de planejamento de estoque da companhia precisa considerar diversas variáveis ao definir estratégias, como previsões de demanda, tendências de moda e flutuações nos preços dos fornecedores. Tradicionalmente, empresas estruturam esses processos por meio de organogramas, distribuindo responsabilidades entre equipes especializadas.
Na Stitch Fix, essa lógica também se aplica: há um time dedicado à moda masculina, por exemplo, que se divide em especialistas para diferentes categorias de produtos, como jeans e camisetas.
No entanto, essa segmentação gerava um problema: cada equipe tomava decisões de forma isolada, sem um alinhamento global. Enquanto o setor de jeans ajustava compras em março, o setor de camisetas fazia isso apenas em abril, causando um desalinhamento na oferta de produtos.
Para resolver essa questão, Valentine propôs um sistema de IA integrado, que poderia analisar o planejamento de estoque de forma abrangente, permitindo decisões mais coordenadas e estratégicas.
“A IA não substitui decisões humanas, mas amplia a capacidade estratégica das empresas ao integrar e otimizar processos decisórios”, afirma Renata Rivetti. “As organizações continuam dependendo do conhecimento de especialistas, mas com uma visão mais holística e eficiente.”
“Estamos entrando em uma nova era, onde a inteligência humana é potencializada pela tecnologia”, complementa Luis González, CEO e cofundador da Vidalink. “Para isso, é essencial que toda a empresa receba treinamento adequado e que exista um espaço de diálogo com a liderança, garantindo que o uso da IA seja acompanhado de perto e seus desafios sejam compreendidos e solucionados.”
2. IA e a capacidade de adaptação
Melissa também falou sobre a necessidade das empresas de se adaptarem rapidamente às mudanças do mercado e da sociedade. Como exemplo, citou a transição para o trabalho remoto durante o início da pandemia, que exigiu decisões estratégicas ágeis.
Diante desse cenário, muitas empresas enfrentaram dificuldades para equilibrar preferências dos funcionários, produtividade e eficiência operacional. Algumas optaram pelo retorno imediato ao escritório, enquanto outras aderiram ao modelo híbrido sem um planejamento estruturado.
A IA pode ajudar nesse processo ao fornecer análises contínuas do ambiente de trabalho e das necessidades dos colaboradores. Melissa propôs um sistema onde a IA coleta feedbacks em tempo real e identifica padrões de satisfação e desempenho. Com esses dados, a empresa pode ajustar suas políticas internas de maneira embasada, garantindo maior engajamento dos funcionários.
“A IA pode auxiliar nessa adaptação ao recomendar estratégias personalizadas para cada empresa”, afirma Luis. “Tudo isso faz parte de uma cultura de bem-estar que leva em conta as necessidades específicas dos colaboradores antes de implementar qualquer mudança.”
Renata ressalta a importância de utilizar a tecnologia para criar ambientes de trabalho mais saudáveis e produtivos. “Em 1930, o economista John Maynard Keynes previu que, com os avanços tecnológicos, trabalharíamos apenas 15 horas por semana. O que vemos hoje, porém, é o oposto: estamos cada vez mais sobrecarregados. O desafio das empresas não é apenas adotar IA, mas usá-la para transformar a forma como trabalhamos, promovendo eficiência sem comprometer o bem-estar dos colaboradores.”
3. IA para resolver problemas complexos
Melissa também falou sobre a dificuldade de as empresas resolverem problemas complexos. Ela contou o caso de Mark, um médico residente que percebeu uma falha no atendimento de emergências: as equipes médicas só descobriam a gravidade do caso quando a ambulância chegava ao hospital, gerando atrasos críticos.
A fim de solucionar esse problema, Mark propôs um aplicativo que conectasse ambulâncias e hospitais em tempo real, permitindo que as equipes médicas recebessem informações antes da chegada do paciente. No entanto, enfrentou barreiras burocráticas e dificuldades para obter apoio do setor de TI.
Para contornar essas barreiras, Mark utilizou um sistema de busca e estruturação de equipes baseado em IA, desenvolvido por pesquisadores de Stanford. A inteligência artificial ajudou a:
- Identificar rapidamente os especialistas necessários (desenvolvedores, designers, engenheiros);
- Montar uma equipe temporária em poucas semanas;
- Recomendar um fluxo de trabalho eficiente, com base em projetos semelhantes já desenvolvidos.
Graças à IA, um projeto que tradicionalmente levaria anos para ser aprovado foi concluído em apenas seis semanas.
“O sucesso desse modelo mostra que a IA pode acelerar soluções dentro das organizações ao reduzir barreiras burocráticas e facilitar a formação de equipes especializadas”, afirma Renata.
Luis reforça que a IA pode desempenhar um papel fundamental na modernização dos processos organizacionais. “O erro das empresas é enxergar a IA apenas como uma ferramenta de eficiência operacional. Se as lideranças não mudarem sua forma de tomar decisões e não integrarem a IA de maneira estratégica, estarão desperdiçando o verdadeiro potencial dessa tecnologia.”
O futuro do trabalho com a inteligência artificial
Melissa encerrou sua palestra enfatizando que a IA não vai eliminar a necessidade de organogramas e estruturas organizacionais. Pelo contrário, tornará essas estruturas mais inteligentes, flexíveis e eficazes.
A mensagem da palestra é clara: o impacto real da IA não está na automação individual, mas na transformação organizacional. E as empresas que souberem integrar essa tecnologia no cotidiano de forma estratégica sairão na frente.
“A IA pode ser uma grande aliada na construção de um ambiente de trabalho mais saudável, mas isso exige um esforço consciente das lideranças”, afirma Renata. “As empresas precisam enxergar a tecnologia como um meio para aprimorar a experiência dos trabalhadores, e não apenas como um mecanismo para aumentar a produtividade a qualquer custo.”