Entrevista com CEO: Pamela Manfrin, da Apetit
À frente de um negócio de restaurantes nas empresas, a executiva fala dos desafios de transmitir os valores organizacionais para funcionários Brasil afora.

Foi Marcia Manfrin quem fundou a Apetit no ano de 1989, em Londrina (PR). De início, era um pequeno restaurante, mas a visão empreendedora da dona logo expandiu o negócio para o fornecimento de marmitas para indústrias locais. O trabalho ia bem e, dez anos depois, a empresa teve uma virada de chave: passou a administrar restaurantes modernos para funcionários, instalados dentro dos clientes.
Com o tempo, principalmente conforme chegava a outras regiões do Brasil, o serviço foi ficando cada vez mais personalizado, com cardápios que atendem aos gostos locais e às necessidades de cada organização onde a Apetit está presente. Hoje o negócio já fornece 140 mil refeições diárias, e tem uma estrutura descentralizada – claro, já que grande parte de seus 2 mil colaboradores (91% mulheres, aliás) está atuando dentro da empresa contratante.
Esse modelo inovador também traz desafios significativos, como manter a cultura interna diante de funcionários constantemente expostos à cultura dos lugares em que prestam serviço. Mas a Apetit encarou bem esse estímulo, com avanços muito relacionados à área de RH. Em 2013, lançou uma Universidade Corporativa para capacitar seus profissionais, logo criou projetos para identificar lideranças na empresa… e o resultado está mais que evidente: teve reconhecimento ouro do WEPS Brasil (Princípios de Empoderamento das Mulheres, criado pela ONU) pela equidade de gênero e promoção da diversidade. E, há cerca de uma década, vem tendo a certificação Great Place to Work.
Há pouco mais de três anos, é a filha de Marcia, Pamela Manfrin, que lidera a empresa. Ela concilia o legado empreendedor da mãe com um estilo de gestão mais colaborativo, mantendo uma proximidade forte com a área de RH da empresa. Foi assim que fortaleceu as ações de educação corporativa, multiplicando boas práticas e a cultura da empresa para os cardápios mentais de cada colaborador.
O fato de a Apetit instalar seus restaurantes dentro das empresas que são suas clientes é um desafio para manter a cultura de vocês entre os funcionários que trabalham fora?
Há uma série de desafios culturais porque a nossa equipe está em contato direto com outros valores, que são os do cliente. Um gerente de unidade, por exemplo, atua diretamente com essa outra organização no dia a dia. E há também a nossa preocupação de nos adaptar a essa cultura de quem servimos. Porque precisamos entendê-los profundamente para personalizar cardápios, ambientes e perfil de atendimento, que é o nosso diferencial.
Como é sua atuação como CEO quanto à gestão de pessoas?
É bastante descentralizada, muito participativa, eu sou extremamente atuante, gosto principalmente de trabalhar junto com as pessoas e acho que não existe verdade absoluta. Quando a gente fala em negócios, sempre pensa num conjunto de variáveis que, somadas, acabam criando soluções para os clientes. Também procuro engajar os colaboradores dando destaque a quem merece evidência, multiplicando suas boas práticas. Isso faz com que outros profissionais abram os olhos para esses diferenciais e também procurem esse caminho de evolução.
Você trabalha com muita proximidade com o RH. Como a empresa se beneficia dessa proximidade dessa relação?
Quando eu ingressei na companhia, comecei a trabalhar na área de qualidade. Com o tempo, migrei para recursos humanos, depois fui para a controladoria e, em seguida, para o setor de projetos e inovação. Dentro desse histórico profissional na empresa, a educação sempre foi um ponto que chamou muito a minha atenção, até pelo meu background acadêmico. Eu realmente acredito que, se as pessoas estão capacitadas, se o direcionamento é claro, conseguimos criar resultados efetivos. E não adianta haver esse conhecimento se não for difundido pela organização. É a mesma coisa com o capital intelectual dos nossos profissionais. Então começamos a estruturar os processos de capacitação e formatar programas que realmente pudessem multiplicar todo esse conhecimento. Isso é especialmente importante no que diz respeito à conformidade. Trabalhar com alimentação é muito delicado, exige padrões rígidos de controle. E tive a oportunidade de atuar muito proximamente com grandes lideranças de RH que tivemos internamente.
E externamente também, não é?
Sim, porque o nosso serviço faz parte do pacote de benefícios das empresas, que é administrado pelo RH delas. Isso foi construindo, para mim, uma visão de programas e políticas de recursos humanos que levaram à entrega de grandes projetos dentro da Apetit. Transformamos as nossas políticas todos os anos, adaptamos nossas práticas de remuneração e benefícios de acordo com a demanda do mercado. As gerações novas de profissionais vêm com outros anseios, e a companhia precisa ter essa flexibilidade, principalmente numa visão estratégica, de perenidade. Então, é dessa forma que eu acredito, é dessa forma que a gente vem conduzindo as questões de RH dentro da empresa… como realmente um pilar estratégico.
Houve uma necessidade específica para que você implantasse esses programas de educação corporativa?
Naquela época, quando a gente pensava em capacitação, o foco era na multiplicação de boas práticas. Por exemplo, uma receita que tivesse muita aceitação em uma empresa poderia ser ensinada para nossas outras equipes instaladas nas organizações. Esse é um dos grandes desafios da gestão descentralizada. Como as equipes estão longe umas das outras, criar a ferramenta para compartilhar as melhores práticas foi fundamental.
Como, na Apetit, o modelo de cultura organizacional passa pela gestão estratégica de pessoas?
Vou contar sobre uma iniciativa nossa para exemplificar esse modelo de gestão. Nós temos aqui a Jornada da Inovação, que é um programa que incentiva novas ideias e novos projetos para todos os colaboradores da companhia. Em empresas tradicionais, um estagiário, assistente ou analista, para experimentar uma função de liderança, precisa subir na carreira e chegar a uma posição de gestor. Aqui na Apetit, nessa Jornada da Inovação, qualquer colaborador pode ser líder em um projeto. Por meio de um processo de gamificação, eles podem, a partir de uma ideia inovadora, exercer o papel de liderança, ter seu próprio time, entregar esse projeto e ser recompensados.
Vocês têm tido reconhecimento Great Place to Work há uns dez anos. Qual a razão desse destaque?
É uma conquista inédita no nosso segmento, e é porque, de fato, aqui é um lugar ótimo para se trabalhar. Relaciono muito isso ao legado que minha mãe, fundadora da Apetit, deixou na empresa. Ela é uma mulher guerreira, a energia dela transcende, e essa inspiração faz com que as pessoas se engajem nos valores da empresa. Alimentar o trabalhador brasileiro é algo realmente maravilhoso, tem muito propósito nisso, e conseguimos que essa mensagem chegasse a vários estados do Brasil por bastante tempo. Esse é o grande reconhecimento que temos.
Esta matéria faz parte da edição 96 da Você RH, que estará nas bancas a partir do dia 7 de fevereiro.