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Em 10 dias, Movimento Não Demita conquista adesão de 4 mil empresas

Daniel Castanho, presidente do conselho de administração da Ânima e idealizador da iniciativa, fala num despertar da classe empresarial

Por Camila Pati Atualizado em 5 dez 2020, 20h55 - Publicado em 13 abr 2020, 16h34

São Paulo – Em dez dias, o movimento Não Demita, que estimula esforços dos empresários para manter empregos, recebeu apoio e assinaturas de milhares pequenas e grandes empresas no Brasil.

Daniel Castanho, presidente do conselho de administração da Ânima Educação e um dos criadores do movimento, atribui o sucesso nas adesões a um despertar de responsabilidade da classe empresarial, em meio aos efeitos da crise do coronavírus na sociedade. “Tenho recebido depoimentos de donos de pequenas empresas dizendo que agora caiu a ficha do que significa ser empresário”, diz.

O Não Demita começou como um manifesto ganhou corpo para se transformar num movimento que pode ser responsável pela manutenção temporária de 1,5 milhão de empregos.

Entre as idealizadoras da iniciativa há grandes empresas como Santander, Magazine Luiza, Microsoft, Natura, Vivo, JBS, Porto Seguro, entre outras.  “Desde as primeiras ligações que eu fiz para CEOs de empresa, todos foram unânimes e disseram que não iam demitir”.

VOCÊ S/A: Em dez dias quantas empresas aderiram ao Não Demita?

Daniel Castanho: mais de 4 mil empresas assinaram o compromisso de não demitir até 1º de junho. Muitas pessoas têm me perguntado: e depois? A ideia é que o site seja um portal de interação e que as empresas possam oferecer mais coisas, como, linhas de financiamento, plataformas. A ideia é também que grandes empresas ajudem as pequenas a sair da crise.

VOCÊ S/A: Mas, as empresas podem reduzir o salário e a jornada, como permite a MP 936?

Daniel Castanho: Não dá para todo mundo fazer o isolamento. Os hospitais precisam funcionar, precisa haver manutenção da cadeia produtiva, tem a questão do lixo. Tem várias coisas que fazem com que o isolamento possível seja de 70%. Com as empresas é a mesma relação. Tem empresa que não consegue não demitir. Ou fecha ou demite 10 funcionários e preserva os outros. A ideia é contribuir para que a sociedade volte mais rápido. É fazer o que é possível. Se precisar diminuir a jornada, está bom. O manifesto é assinado, mas não tem uma questão jurídica, não acontece nada. O que tem são as redes sociais, tem Instagram, LinkedIn, Twitter. Se  uma empresa não cumprir, o funcionário vai falar. É uma relação de honestidade, integridade e empatia.

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VOCÊ S/A: Você esperava essa adesão ao movimento?

Daniel Castanho: A gente está passando por um momento em que eu acredito que a gente vai despertar, entender que a gente faz parte de um mesmo ecossistema e entender a nossa responsabilidade dentro da sociedade. Desde as primeiras ligações que eu fiz para CEOs de empresa, todos foram unânimes e disseram que não iam demitir. Algumas empresas puderam assinar e outras empresas, não, porque dependem de conselho de administração, entre outros fatores. Mas mesmo assim assumiram responsabilidade de não demitir, o que para mim revela esse despertar da responsabilidade de todo mundo.

VOCÊ S/A: Esse despertar significa que está surgindo um novo tipo de liderança? Como você acha que o tema de gestão vai ser tratado nas escolas depois dessa crise?

Daniel Castanho: O perfil de comando e controle acaba agora. Existia um certo preconceito em relação ao trabalho remoto. Inclusive muitos líderes se vangloriavam de ser o primeiro a chegar e o último a sair pela questão de dar o exemplo. Acho isso válido, mas não necessariamente na questão física. O conceito de espaço e tempo vai mudar completamente. Todas as empresas terão que redefinir valores como, por exemplo, empoderamento, autonomia. O desafio é como a gente vai redefinir a accountability (senso de responsabilidade, na tradução livre)

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VOCÊ S/A: Qual o papel do líder nesse processo?

Daniel Castanho: Faço uma analogia com os mestres orientais. O mestre é aquele que ilumina, que traz serenidade, clareza, discernimento, que ajuda a fazer escolhas e que tem empatia. Os líderes serão os mestres. O papel do líder é esse, ele tem a visão do todo, traz a serenidade, mas ao mesmo tempo provoca todo mundo, inspira. Esquece aquele líder que coloca as metas e dá bolo para quem bateu a meta. O trabalho tem que ter significado.

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VOCÊ S/A Que tipo de depoimentos de empresários você tem recebido?

Daniel Castanho: Temos adesão de grandes e de pequenas empresas. Recebi depoimentos de empresas pequenas dizendo que agora que tinha caído a ficha do que significa ser empresário, de pessoas que estão tirando do próprio bolso para manter empregos.

VOCÊ S/A: O que indica para quem está nessa situação?

Daniel Castanho: A gente passou por crises na Ânima. Nós compramos empresas quebradas. Em 2003, a gente comprou a UniBH que estava havia 5 meses sem pagar salário e os professores estavam em greve. O que fizemos? Nós fomos transparentes. Chamamos todo mundo é mostramos a situação, dissemos: vamos construir juntos. Era legítimo, a gente tinha acabado de comprar, a gente não tinha sido responsável por quebrar a empresa. O que eu vejo é o empresário, ele não causou essa crise, também tem legitimidade para envolver os funcionários, mostrar os números e redesenhar juntos.  Ao assumir o compromisso de não demitir a contrapartida é que todo mundo se envolva. Você não ter funcionários, vai ter sócios, pessoas comprometidas.

VOCÊ S/A: Como presidente do conselho de administração de uma empresa de educação, que transformações nesse setor, especificamente, você tem visto desde que começou a crise do coronavírus?

Daniel Castanho: O EAD no Brasil era um delivery de conteúdo, com pouca diferença do que era o telecurso de segundo grau dos anos 1980. O que mudou era que, antes, entregava-se o material físico e hoje entrega o conteúdo por meio de plataforma digital. Uma palestra para uma plateia de mil pessoas sentadas era considerado um modelo de ensino presencial e uma videoconferência para duas pessoas era considerado ensino a distância. Só que essa videoconferência é um modelo que é mais de perto do que uma palestra para mil pessoas. Há uma mudança do ensino a distância para aprendizado com uso de tecnologia.

VOCÊ S/A: O que muda, na prática. Pode dar um exemplo?

Daniel Castanho: Não existem hoje comunidades de aprendizagem. Imagina poder discutir um tema ou fazer um projeto com uma pessoa do Rio de Janeiro, uma de Recife e uma de São Paulo. Isso é aprendizagem de perto’. Eu acho que isso tudo vai redefinir esse modelo de aprendizagem e de relação entre as pessoas. Para mim acabou esse termo ensino a distância. Estamos falando de educação de perto com uso de alta tecnologia.

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