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O que fazer para aumentar a eficácia dos programas de saúde mental?

Pesquisa da consultoria Adecco mostra que 71% dos profissionais consideram o apoio das empresas para saúde mental ineficiente. Como mudar essa percepção?

Por Elisa Tozzi Atualizado em 29 set 2021, 19h53 - Publicado em 4 out 2021, 07h00

A saúde mental nunca foi tão discutida no Brasil quanto na pandemia da covid-19. Tanto que dados do Google mostram que as buscas por palavras relacionadas a transtornos mentais cresceu 98% em 2020, em comparação com 2019. O assunto também chegou às empresas, que começaram a adotar práticas de equilíbrio emocional.

Mas, na percepção dos profissionais, ainda falta muito a ser feito. De acordo com um levantamento feito pela Adecco, empresa global de serviços para RH, com quase 300 brasileiros, 71% acreditam que as práticas de saúde mental oferecidas pelas empresas são ineficazes. Como melhorar essa percepção? Para André Vicente, diretor-geral da Adecco, é necessário criar práticas coordenadas e perenes para que os cuidados com a saúde mental sejam realmente efetivos. Leia a entrevista com o executivo a seguir.  

A saúde mental se tornou um tema mais discutido na pandemia. Mas, segundo a pesquisa da Adecco, a maior parte dos profissionais diz que as iniciativas das empresas não são boas o bastante. Quais costumam ser os erros cometidos pelas companhias?

Acreditamos que os grandes erros são não perceber que o funcionário está com problemas e só lidar quando ele está em ponto de afastamento. As empresas precisam entender que um colaborador descansado e feliz é um colaborador mais engajado. Nada adianta oferecer auxílios como o de terapia, se a carga horária do funcionário é exaustiva, se seu trabalho não é valorizado ou se sofre algum tipo de pressão exagerada por resultado. As companhias têm que ter um pacote que possua benefícios, mas não somente quando o problema saiu do controle.

Na Adecco, por exemplo, sempre temos avisado os líderes a fazer reuniões durante o período de trabalho (horas comerciais); observar se o funcionário possui horas extras e, se sim, aconselhar a tirá-lo. Não marcamos reuniões na hora do almoço, temos short friday uma vez ao mês, oferecemos ginástica laboral e zumba, além de sempre trazer profissionais para palestrar sobre saúde mental, com intuito de informar o colaborador de sintomas e possíveis problemas. Além disso, recentemente implementamos um programa de assistência ao funcionário, prestando apoio nas áreas jurídica, financeira, psicológica e social.

O que as empresas podem fazer para melhorar a saúde mental dos funcionários?

A saúde mental tem ganhado cada vez mais espaço na lista de prioridades de grandes corporações. O tema, que antes avançava de forma tímida, deu um salto em 2020 com a chegada da pandemia, pois houve um aumento bem grande de profissionais pedindo afastamento por conta de algum problema mental gerado pelo acúmulo do trabalho.

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Mas, falando em ações, as empresas devem priorizar a saúde mental com práticas coordenadas e constantes. Somente dessa forma será possível extrair resultados de qualidade, como motivação e equilíbrio. É preciso analisar a realidade de cada empresa, verificando as necessidades em relação aos problemas com a saúde mental dos funcionários e gestores, e implementar um programa direcionado a essa questão de médio e longo prazo, ou seja, com um conjunto de iniciativas que tem o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos profissionais.

Ninguém se sente bem trabalhando sob pressão, mas muitas vezes é preciso lidar com situações de estresse. Por isso, as estratégias devem ser voltadas para as formas de enfrentar os acontecimentos adversos sem prejudicar a si mesmo e a empresa. Outra ação que possui resposta positiva é um bom plano de saúde. Além da cobertura de psicólogos e psiquiatras já oferecida, a companhia pode pensar na contratação de um profissional para conversar com os colaboradores mensalmente. Pode ser uma boa forma de incentivar as pessoas a olharem para a própria saúde mental.

Criar campanhas e promover eventos para incentivar a amizade dentro da empresa são boas iniciativas, que ajudam a manter todos conectados e geram uma cultura afirmativa; e, por último, e mais importante, é importante ter um canal aberto de feedback com os profissionais em que possam se sentir à vontade para contar quando algo não está bem.

Em uma pesquisa global da Adecco, 67% dos liderados dizem que os chefes não correspondem às suas expectativas sobre checagem a respeito da saúde mental. Como ter mais empatia com esse assunto?

Todos que estão dentro de uma organização, independentemente da posição, precisam ser pessoas agradáveis de se trabalhar. Somente em um ambiente saudável nos sentimos seguros e capazes de discordar e desafiar umas às outras e, em muitos casos, essa cultura saudável é destruída por conta de posturas tóxicas e menos saudáveis de cargos de liderança.

O profissional humanizado, que conversa com a sua equipe e entende o que está acontecendo com cada membro do time, é a pessoa ideal para exercer uma posição de comando em uma empresa. Hoje em dia, habilidades como curiosidade intelectual, adaptabilidade e, principalmente, empatia são mais do que necessárias no mercado de trabalho, onde o lado humano tem sido muito mais valorizado. Então, para que não haja ambientes tóxicos e para que eles sejam mais empáticos, antes de promover qualquer pessoa, a companhia deve prestar atenção não somente na performance de resultados e sim em como ele age no trato com seus colegas de trabalho para evitar ambientes de pressões e estresses além do normal.

Também é importante que a empresa oriente a liderança a desenvolver mais sensibilidade a esse tema, através de treinamentos e ferramentas, de forma que a saúde e o engajamento dos times sejam tão importantes quanto os resultados.

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