Clique e Assine a partir de R$ 12,90/mês
Isis Borge Diretora da divisão de recrutamento Engenharia, Supply Chain, Marketing e Vendas da Talenses

Inteligência artificial: e se o seu colega ou chefe forem robôs?

O avanço da tecnologia faz com que as inteligências artificiais entrem no mundo do trabalho - mas isso não significa que seremos substituídos

Por Isis Borge, colunista de VOCÊ RH Atualizado em 26 ago 2021, 19h51 - Publicado em 27 ago 2021, 08h00

Imagine se você descobrir que um dos seus colegas, com o qual você interage por videoconferência, não é um humano e sim fruto de inteligência artificial? Estamos migrando para uma Era em que a inteligência artificial está cada vez mais presente nas nossas vidas. Já faz algum tempo que vemos máquinas com participações importantes no atendimento de chats de lojas e bancos ou no help desk interno das empresas. Algumas pagam contas na tesouraria ou fazem triagens iniciais de perfis nos processos seletivos. Então, por que não termos um robô como nosso colega de expediente, exercendo alguma função que interaja conosco no dia a dia?

Algumas aplicações curiosas da inteligência artificial

Vocês devem ter acompanhado o experimento feito nos Estados Unidos com o sistema de inteligência artificial Jarvis, de Mark Zuckerberg. O Jarvis é um sistema de suporte doméstico, como um mordomo, que ganhou voz por meio do ator Morgan Freeman. Graças ao seu algoritmo, o sistema foi capaz de aprender como o astro fala, incluindo todas as nuances da voz dele. Ao ouvir uma mensagem, é imperceptível que se trata da mensagem de um computador e não do proprietário da voz.

O ator Val Kilmer teve a sua voz afetada devido a um câncer de garganta que começou a se manifestar em 2014. No documentário Val, baseado em sua vida e obra, é relatado que ele conseguiu recriar a própria voz por meio de um algoritmo de inteligência artificial da empresa Sonantic. Para isso, ele incluiu em um sistema milhares de horas de áudios de sua voz coletados de filmes de sua carreira.

Graças a esse sistema, Val Kilmer conseguiu narrar a própria história com a voz que tinha antes de ser acometido pelo câncer. Todo o discurso foi narrado por um computador da Sonantic que soa exatamente igual ao ator falando. Para quem se interessar, é possível ouvir o discurso no site The Wrap.

  • O ator James Dean, que faleceu há 65 anos, foi recriado neste ano por meio da inteligência artificial. Foi essa tecnologia que permitiu que ele tivesse um papel no filme Finding Jack, com lançamento previsto para 2023. O mesmo aconteceu com o ator inglês Peter Cashing, que, mesmo tendo falecido em 1994, marcou presença no filme Star Wars Rogue One, lançado em 2016. Nesses casos, as imagens dos atores têm como base filmagens e fotografias antigas, enquanto a dublagem das vozes ficou por conta de outros atores.

    No futuro, imagino que muitos filmes possam ser feitos dessa forma. É possível que chegue um dia em que os atores cedam o direito de suas imagens, mas não precisam se comprometer a comparecer aos locais de filmagem para gravar as cenas. A inteligência artificial fará o papel dos atores e nós, os telespectadores, nem notaremos a diferença.

    Hoje, em geral, o que rende lucro na bilheteria dos cinemas é a interpretação dos atores ou um roteiro de qualidade associado a um ator de prestígio. Esses, entre outros fatores, costumam atrair a atenção do público. O que impede que um estúdio comece a inserir nos filmes alguns robôs como coadjuvantes, que vão ganhando fama até, quem sabe um dia, se tornarem protagonistas? É possível que façam isso e ainda nos deixem na dúvida sobre a existência ou não daquela pessoa.

    Da ficção para o mundo corporativo

    Se podemos ter atores virtuais, por que não podemos ter funcionários virtuais com características e nome de uma pessoa comum? Com o conceito de trabalho remoto, esses funcionários entrariam nas videoconferências e interagiriam normalmente com pares, equipes e liderança. Estamos caminhando para um mundo em que isso é possível, principalmente com a humanização da inteligência artificial evoluindo em uma alta velocidade.

    Imagine um mundo corporativo em que, entre os funcionários humanos, tenham robôs com capacidade de aprender no dia a dia com as pessoas que trabalham no time. Nesse contexto, esse seu par dotado de inteligência artificial pode, inclusive, monitorar seus trabalhos e sua rotina, sem você saber, enviando à liderança, de tempos em tempos, relatórios sobre a equipe. O líder de uma organização também pode ser um robô, por que não? Esses robôs seriam capazes de consultar uma gigantesca quantidade de dados para a tomada de decisão. Será que chegaremos lá? A meu ver, é possível.

    Lembro que quando cursei engenharia, montamos um robô que segurava e levantava objetos. Nada comparado aos robôs da Boston Dynamics, que são ótimos dançarinos, ou aos robôs que hoje fazem cirurgias em pessoas. Em linhas de produção é comum vermos postos de trabalho sendo substituídos por robôs. As linhas de pinturas das montadoras, por exemplo, caminham para serem totalmente robotizadas.

    Continua após a publicidade

    Nos testes de durabilidade de veículos, realizados em um campo de provas, as ações têm evoluído tanto para terem robôs como motoristas dos automóveis quanto para que a experiência seja cada vez mais virtual, com simulações de elementos finitos. Hoje é totalmente possível realizar crash tests virtuais, visando diminuir o gasto com protótipos físicos, deixando os testes presenciais apenas como um elemento de contraprova, enquanto as legislações não autorizam que tudo seja feito de forma virtual.

    Em outras aplicações, o Google está lançando motoristas de carros robôs. A empresa Swisslog criou o robô Pillpick, que prescreve remédios no lugar dos farmacêuticos, de forma eficiente e sem erros humanos e já está em uso em hospitais pelo mundo.

    Algumas pessoas, quando pensam em robôs, criam na mente a imagem de máquinas. Mas, na verdade, os robôs no mundo virtual são os que mais têm evoluído. Da minha experiência prática na faculdade de construir um robô, eu tive a certeza de que tudo que podemos ensinar a uma pessoa pode ser ensinado para a inteligência artificial. Isso quer dizer que, na rotina de uma organização, todo trabalho que você consegue repassar a alguém, pode ser feito por uma máquina ou um sistema.

    Na prática, o que nos difere dos robôs?

    Com tanta tecnologia ao redor, o que vai diferenciar os seres humanos não é a perfeição dos trabalhos ou o alto número de horas trabalhadas. O nosso diferencial será a criatividade para resolver as coisas. Para ter uma noção desse raciocínio, basta olhar os robôs que fazem paredes de casas. Eles executam o trabalho de maneira muito precisa, mas, por trás deles, existe alguém criando o padrão que eles devem seguir. A criatividade do arquiteto, por exemplo, ainda não pode ser substituída.

    Sabendo disso, vale a pena sairmos do piloto automático e pensarmos nas atividades que precisamos realizar no dia a dia para analisarmos o que fazemos que não poderia ser replicado pela inteligência artificial. Também é importante ampliar os nossos horizontes pensando no que mais podemos trabalhar caso a nossa função deixe de existir amanhã. Como podemos continuar tendo valor no mercado de trabalho? Com isso em mente, será mais fácil buscar capacitação e se preparar para esse futuro.

    A inteligência artificial pode ser nossa aliada, mas o futuro ainda é incerto

    Hoje, vejo com bons olhos o uso da inteligência artificial para melhorar nosso dia a dia, tirando de nós o trabalho maçante e repetitivo e nos dando tempo e espaço para sermos mais estratégicos, explorar melhor as nossas habilidades e o nosso valor.

    No entanto, ao pensar nesse tema, me vem à cabeça uma declaração do Stephen Hawking, de um discurso de 2006: “O sucesso na criação de inteligência artificial eficaz pode ser o maior evento da história de nossa civilização ou o pior. Nós apenas não sabemos. Portanto, não podemos saber se seremos infinitamente ajudados pela inteligência artificial, ou ignorados por ela e alinhados ou, possivelmente, destruídos por ela.”

    Também é interessante a leitura do livro Paris no Século XX. A obra foi escrita por Júlio Verne no século XIX e apresenta uma visão pessimista do mundo em função dos avanços da tecnologia e da ciência. Trata, ainda, do quanto o avanço da tecnologia trouxe a solidão ao ser humano.

    O último livro que li sobre inteligência artificial e recomendo é Robots Futures, escrito por Illah Reza Nourbakhsh. O autor fala em robôs super-humanos que terão personalidade própria graças à inteligência artificial e irão muito além dos robôs androids que copiam os seres humanos. Illah cita diversos exemplos de aplicação desses robôs e o impacto deles na nossa sociedade.

    O futuro ainda é incerto, mas, a meu ver, será totalmente possível termos colegas virtuais interagindo conosco sem nem ao menos nos darmos conta. Por isso, achei interessante compartilhar esse raciocínio nesse artigo. Meu objetivo é trazer a reflexão do que podemos fazer de diferente hoje, no dia a dia do nosso trabalho, que garantirá que seremos únicos, para minimizarmos as chances de sermos substituídos por um robô amanhã.

    Assinatura de Isis Borge
    VOCÊ RH/Divulgação
    Continua após a publicidade
    Publicidade