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Álvaro Machado Dias é neurocientista, professor livre-docente da Unifesp e sócio da Human Factor, empresa de recrutamento e seleção com uso de inteligência artificial e metaverso
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Como a neurociência pode ajudar nos processos de assessment

Medições cerebrais combinadas a jogos e dinâmicas poderiam ser aplicadas em conselhos gestores, grupos de alta performance e até mesmo políticos

Por Álvaro Machado Dias, colunista de Você RH
13 jul 2022, 07h17
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ma divisão fundamental na área de recursos humanos é a que se dá entre seleção e assessment. Seleção profissional, como o nome diz, serve para a redução de uma amostra a outra menor; em geral, seu foco recai sobre a contratação. Já o assessment procura mapear características estilísticas, sociorrelacionais e de personalidade de uma amostra, no intuito de conhecê-las melhor e permitir que cada um se conheça também. Em geral, os assessments são voltados para quem já está conectado a alguma instituição.

Uma ferramenta de seleção que cumpre o que promete deve ser capaz de elencar as pessoas, a partir de critérios claros, com alta coerência de teste/reteste. Ela também deve ter validade ecológica, o que na prática significa estar alinhada às tarefas demandas no cargo e seus resultados devem traduzir a importância relativa de cada uma das dimensões preconizadas para a função. Provinhas de lógica não tem valor na seleção efetiva do comercial e assim por diante.

Já os instrumentos de assessment devem partir de teses sobre como as dimensões da personalidade ou do estilo manifestam-se, para então derivar maneiras eficientes de capturá-las. Essa, pelo menos, é a teoria. Na prática, ferramentas de assessment são usadas em processos seletivos, sob a máxima de que determinadas subjetividades são mais interessantes para as empresas do que outras, o que gera fenômenos bizarros como o de que, no LinkedIn, todo mundo é extrovertido, prefere grupos à individualidade e tem como maior defeito o perfeccionismo.

Experiência do ExpoFavela

Eu me aproximei do tema desenvolvendo simuladores 3D para seleção, mas, hoje, ando muito envolvido com assessment, que é uma área quase tão carente quanto aquela. Foi com isso em mente que mergulhei de cabeça no projeto do ExpoFavela. Ele é uma espécie de feira de negócios, misturada com workshop para o empreendedorismo de favela, movimento social e mais um monte de outras coisas, que foi idealizada pelo Celso Athaíde com alguns outros amigos. O Instituto Locomotiva é uma das empresas por trás desta composição.

Como sócio da Locomotiva e entusiasta da causa, mergulhei na elaboração do processo seletivo dos participantes de um projeto e, num segundo momento, no assessment dos inscritos. Foi esta segunda parte que me motivou a escrever este artigo.

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Os selecionados eram todos high achievers, de alto QI, com ideias excepcionais, grande capacidade de comunicação e tudo mais que você pode imaginar quando aplicamos uma peneira pela qual passam 20.000 e só ficam 10.

O desafio que isso cria é maior do que pode parecer: como lançar luz sobre aspectos que compõem a ultra-essencialidade em um grupo de pessoas excepcionais? Trata-se de desafio análogo ao da criação de um assessment capaz de flagrar as nuances que diferenciam CEOs arrolados em uma amostra do topo do ranking da B3.

Eu e a Brenda Miura, neurocientista da Locomotiva, optamos pelo seguinte: usar uma combinação de eletroencefalografia (EEG), variabilidade cardíaca e rastreamento ocular, em associação com uma bateria de dilemas e dinâmicas sobre estilo pessoal para gerar perfis que falassem ao mesmo tempo sobre os aspectos conceituais e estilísticos, quanto os aspectos energéticos de cada um, nas esferas consciente e inconsciente.

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Para isso, circunscrevemos um recorte desde a literatura especializada que utilizei na minha livre-docência (EPM-UNIFESP), a qual tem como objeto central os interesses e preferências e, como paradigma metodológico mais importante, a teoria dos jogos.

A partir deste recorte, compusemos uma bateria usando tarefas que vim criando ou adaptando para usar com neurociências, nestes últimos quinze anos, a qual testamos numa amostra para ter algumas normas. Daí saiu a bateria de assessment do ExpoFavela.

Algumas estratégias de mensuração foram combinadas aos dilemas (jogos) e dinâmicas de estilo. Os participantes foram expostos a tipologias narrativas de sucesso, baseadas em trajetórias distintas: uma pautada pelo esforço extremo e a outra em criatividade e senso de oportunidade.

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Enquanto os participantes mergulhavam nessas narrativas, captávamos ondas cerebrais e variabilidade cardíaca (subsequentemente processadas usando IA), que nos permitiam saber o perfil narrativo mais atraente para cada e, em termos profundos, suas ressonâncias viscerais.

O mesmo princípio foi aplicado em outras duas dinâmicas e o resultado foi usado para gerar um índice do “Tipo Empreendedor”, exclusivo para cada um.

A variabilidade cardíaca se diferencia do EEG porque depende de alterações fisiológicas autonômicas (simpático/parassimpático), ou seja, é menos sutil e mais alinhada a uma fenomenologia dos impactos duradouros. Ela foi usada sozinha em dinâmicas que falavam do medo de falhar e outros medos profundos. Estas dinâmicas revelaram-se das mais valiosas, já que medos são tabus, especialmente em situações como esta.

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Já o rastreamento ocular serviu para a gente aplicar o chamado paradigma da escolha forçada, que é aquele em que o participante é obrigado a escolher entre opções, superando estados de incerteza cristalizados em plano declarativo.

Neste caso, a escolha não era explícita, mas assumida em função do tempo de fixação nos estímulos: quanto maior o tempo de fixação, mais o estímulo teria chamado a atenção, sendo assim “escolhido”, de maneira tácita. Isso serviu para comparar imagens de riqueza e fama, entre outras.

Finalmente, combinamos EEG e variabilidade cardíaca novamente, para gerar um índice energético, relativo ao tônus em seu aspecto mais vital, o que também incluiu uma bateria de testes que envolvia questões do tipo: “você está mais para maratona ou para corrida de cem metros?”.

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Considerações finais

Eu já fiz dezenas, ou talvez centenas, de experimentos neurocientíficos, mas ainda não tinha conduzido uma bateria de assessment neste formato. Minha percepção é que vale a pena, desde que a situação justifique o esforço. Mesmo tendo um bom parque de equipamentos, equipe, know-how e tudo mais, tivemos que suar a camisa para gerar os resultados no passo do evento, o que não seria muito diferente numa situação empresarial qualquer.

Isso me faz pensar que essa é uma abordagem interessante para ser aplicada em conselhos gestores, grupos de alta performance e políticos (adoraria fazer um assessment destes nos presidenciáveis). Para situações mais convencionais, uma boa ferramenta digital dá conta do recado.

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