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Carine Roos

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Mestre em Gênero pela London School of Economics and Political Science e CEO da Newa, consultoria de impacto social para organizações.

O perigo de abandonar a inclusão

O cancelamento de programas voltados à diversidade reflete a fragilidade do compromisso das empresas com esse pilar da inovação.

Por Carine Roos, colunista da VOCÊ RH
14 mar 2025, 15h04
Ilustração de uma tesoura gigante, que paira sobre sete trabalhadores sentados em cadeiras de escritório suspensas por cordas.
 (mathisworks/Getty Images)
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Nos últimos meses, testemunhamos um preocupante movimento nos Estados Unidos de retração e desinvestimento em programas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) em grandes corporações, especialmente nos setores de tecnologia, entretenimento, consultoria e varejo. Empresas como Google, Meta, McDonald’s, Goldman Sachs e Disney anunciaram cortes significativos em suas iniciativas de diversidade, justificando as mudanças com base no atual ambiente político e jurídico do país. Esse retrocesso coloca em risco décadas de avanço na construção de ambientes corporativos mais diversos e justos.

O movimento ocorre dentro de um cenário de pressão política e econômica crescente, impulsionado por grupos contrários a iniciativas voltadas à justiça social. A reversão dessas políticas reflete a fragilidade de compromissos assumidos sem uma base sólida de equidade e justiça social.

O business case e seus limites

Historicamente, muitas empresas justificam suas iniciativas de DEI por meio do “business case”, argumentando que a diversidade impulsiona inovação, melhora a tomada de decisão e gera melhores resultados financeiros. No entanto, essa abordagem utilitarista reduz a inclusão a um mero instrumento de desempenho organizacional, ignorando sua dimensão ética e transformadora. Quando a diversidade é sustentada apenas por um argumento mercadológico, ela se torna descartável diante de pressões externas.

A reversão recente dessas políticas por gigantes corporativas ilustra esse ponto. Em um memorando de dezembro para os funcionários, a Amazon afirmou que estava “encerrando programas e materiais desatualizados” relacionados aos seus esforços em DEI. O Google abandonou metas de contratação de grupos historicamente marginalizados e está revisando seus programas internos de inclusão. A Disney reestruturou suas iniciativas de DEI, substituindo métricas de diversidade por uma estratégia mais ampla de gestão de talentos, enquanto o Goldman Sachs anunciou que não exigirá mais diversidade em conselhos de administração. Essas ações evidenciam que, sem um compromisso estrutural, os programas de diversidade tornam-se voláteis e descartáveis.

A abordagem “business case” também falha ao focar apenas na inclusão de algumas mulheres em cargos de liderança, ignorando as desigualdades estruturais que perpetuam a exclusão de mulheres negras, periféricas e de outros grupos marginalizados. Isso gera um “teto de vidro” para algumas, enquanto outras permanecem no “chão pegajoso” das posições menos valorizadas e com menos perspectivas de ascensão. Dados da pesquisa “Perfil social, racial e de gênero das 1.100 maiores empresas do Brasil e suas ações afirmativas” (2024) reforçam essa questão: embora 51,6% das empresas tenham metas para incluir mulheres em cargos estratégicos, apenas 7,4% dessas vagas são ocupadas por mulheres negras. Além disso, essas mulheres ainda recebem apenas 74,5% do salário pago a homens brancos e enfrentam uma taxa de desemprego 100% maior.

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A necessidade de um compromisso estrutural

Para que os programas de DEI sejam sustentáveis, eles precisam estar ancorados em compromissos estruturais e não depender da conveniência econômica ou política do momento. Isso significa que as organizações devem tratar a diversidade como um pilar essencial de sua cultura, incorporando-a à sua governança e aos processos decisórios.

Medidas estruturais incluem a criação de mecanismos de accountability para garantir que os programas de inclusão sejam mantidos independentemente de mudanças no cenário político ou econômico. Isso passa pela implementação de metas vinculadas à remuneração de executivos, a transparência na publicação de dados sobre diversidade e a instituição de conselhos consultivos formados por profissionais e especialistas de grupos minorizados.

Outro aspecto crucial é garantir que as iniciativas de diversidade considerem a interseccionalidade e promovam políticas afirmativas que impactem não apenas a contratação, mas também o desenvolvimento e permanência de profissionais de grupos sub-representados. A pesquisa do Instituto Ethos de 2024 aponta que apenas 21,1% das empresas possuem ações afirmativas para pessoas negras, um número ainda baixo para promover uma inclusão efetiva e em todos os níveis hierárquicos.

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Além disso, é essencial que as empresas implementem políticas de retenção para grupos diversos, indo além de ações afirmativas pontuais. Programas estruturados de mentoria, desenvolvimento de carreira e suporte para grupos sub-representados são essenciais para garantir que a inclusão não seja apenas simbólica, mas uma transformação real do ambiente corporativo.

O papel da liderança neste momento

Em tempos de retrocesso, as lideranças empresariais têm um papel fundamental na defesa da diversidade e inclusão. É preciso que CEOs e executivos não apenas protejam as iniciativas de DEI, mas também reforcem seu compromisso com a justiça social de forma transparente e ativa.

Primeiramente, elas devem se posicionar publicamente contra o retrocesso e reafirmar que a diversidade não é apenas uma questão de imagem, mas um valor essencial para o futuro das organizações. Além disso, é necessário que as lideranças implementem a inclusão na prática, garantindo espaços de escuta para os grupos impactados, investindo em treinamentos sólidos e mantendo políticas que assegurem equidade salarial e oportunidades reais de ascensão.

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Outro fator essencial é a criação de uma cultura organizacional baseada no respeito e na compaixão. Treinamentos sobre escuta ativa, empatia, compaixão, comunicação inclusiva e necessidades específicas de cada grupo são fundamentais para garantir que a diversidade seja um valor incorporado no dia a dia das empresas. Segundo a pesquisa do Instituto Ethos de 2024, 70% a 80% das empresas ainda não monitoram a representatividade da comunidade LGBTQIAPN+ em seus cargos hierárquicos, evidenciando um ambiente corporativo pouco comprometido com a inclusão.

O retrocesso nos programas de DEI revela a fragilidade do compromisso de muitas organizações com a inclusão. Este é um momento decisivo para que empresas realmente comprometidas fortaleçam suas iniciativas, demonstrando que a diversidade não é apenas uma estratégia de negócios, mas um valor inegociável para um mercado de trabalho mais justo e equitativo. Lideranças devem atuar com coragem e determinação para transformar o discurso em prática e consolidar um futuro empresarial verdadeiramente inclusivo.

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