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Conrado Schlochauer

Doutor em Psicologia da Aprendizagem pela USP, sócio da nōvi – a lifewide learning company, e autor do livro "Lifelong Learners"
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Ler e escrever: as competências do presente

O analfabetismo funcional afeta 30% da população brasileira. E ninguém tira real proveito das tecnologias emergentes sem dominar o básico.

Por Conrado Schlochauer, colunista de VOCÊ RH
25 abr 2024, 18h30

Sempre tive letra ruim. Passei dezenas de horas fazendo exercícios de caligrafia na infância, tentando facilitar a vida dos professores que corrigiam minhas lições. Mas fazer minha letra se encaixar com precisão nas pautas dos cadernos era demais para mim. O foco e o capricho perdiam sempre a batalha para a ansiedade de acabar logo e para os múltiplos pensamentos que surgiam na minha cabeça.

Isso nunca me impediu de escrever. À mão ou por outros caminhos. Fiz muito jornalzinho na minha escola usando a máquina de escrever Olivetti laranja dos meus pais. Ainda guardo os diários que fazia nessa época. 

A leitura também me acompanha desde cedo. Dias chuvosos de férias eram sinônimos de visita a uma biblioteca ou livraria. Talvez um dos maiores legados dos meus pais tenha sido essa relação prazerosa que tenho com livros e artigos. 

Ler e escrever são habilidades que adquirimos (ou deveríamos adquirir, não fossem as desigualdades da sociedade brasileira) no início da infância. O domínio dessas competências é considerado um marco do nosso desenvolvimento – e do próprio processo civilizatório a que somos submetidos desde o nascimento.  Ao longo da adolescência, a escola busca um aprimoramento ainda maior: são centenas de redações, aulas de gramática e leituras obrigatórias que têm o objetivo de garantir que, ao final do ensino médio, sejamos proficientes em leitura e escrita.

Na teoria, depois dessa etapa da nossa formação, estamos prontos. Não precisamos mais nos preocupar com isso.

Ainda assim, é notável que o Fórum Econômico Mundial coloque “leitura, escrita e matemática” na sua famosa lista de habilidades do futuro. Mas só estão no penúltimo lugar entre as 26 listadas. O tema é priorizado por apenas 6% das empresas que participaram da pesquisa.

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No Brasil, o analfabetismo funcional continua sendo um problema grave, afetando cerca de 30% da população. O número representa uma melhora em relação a 2002 (40%), mas uma piora em comparação com 2009 (27%). Chama a atenção o fato de que apenas 12% dos brasileiros podem ser considerados plenamente alfabetizados – ou proficientes, para utilizar a nomenclatura do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf).

Segundo os critérios do Inaf, para demonstrar essa proficiência, uma pessoa deve ser capaz de localizar textos, integrar informações, emitir opinião sobre um conteúdo escrito e ainda elaborar, criar ou recriar textos.

Habilidades do presente

Entendo a leitura e a escrita como habilidades fundamentais para nossos dias, mas não tenho visto estímulos para que as pessoas se dediquem ao pleno desenvolvimento dessas competências. 

Trabalho na área de aprendizagem corporativa há 30 anos e conto numa mão o número de vezes que vi programas dedicados a esses temas. A preferência é por assuntos como escuta ativa e oratória. Será que saber falar e ouvir é tão mais importante do que ler e escrever? Ou ainda: até que ponto alguém pode apurar os ouvidos e refinar o discurso sem pôr em prática a leitura e a escrita?

As tecnologias atuais também não têm nos apoiado. Elas criaram formas de interação que enferrujam nossa capacidade de criar ou mesmo compreender textos mais profundos e estruturados. As redes sociais, por exemplo, estão nos viciando na leitura de textos minúsculos, óbvios e desnecessários.

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No anseio de buscar a próxima dose de dopamina, nosso cérebro nos sabota. Até os 280 caracteres do X/Twitter parecem excessivos. 

Em relação à escrita, o cenário é ainda mais desolador. Afinal, o estímulo é baixíssimo. Se quase ninguém tem paciência para ler, por que criar conteúdos mais longos ou profundos?  Acho engraçado que os corajosos, quando se aventuram na criação de um artigo maior, pedem desculpa logo no começo: “Lá vem textão…”.

Ao longo do processo de criação de um texto, temos tanta interferência que a naturalidade da escrita vai por água abaixo. Por exemplo, enquanto escrevo este artigo, o Google Docs vai pintando palavras e propondo alterações, antes mesmo que eu tenha tempo de fazer uma releitura crítica. E, se eu estivesse cansado, poderia alimentar uma das plataformas de IA generativa com um prompt de três linhas, e parte do problema estaria resolvido.

(Não vou mergulhar nesse tema aqui, até porque daria outro artigo, mas não vejo como tirar proveito da IA generativa sem de fato saber ler e escrever.)

Ler exige de nós uma postura ativa, não passiva

Defender a importância da leitura é uma tarefa mais fácil. De uma maneira geral, ler é quase sinônimo de aprender. Muitas pessoas colocam em suas metas consumir uma determinada quantidade de livros por ano. Mas não é disso que estou falando. 

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A leitura que estou defendendo aqui é mais impactante e provocadora. Não tem a pretensão de oferecer um caminho fácil com dicas imediatamente aplicáveis. Também não me refiro ao consumo de textos que no final só cumprem a função de validar nossos pontos de vista. Estou falando do mergulho em textos que nos convidam a uma perspectiva diferente ou inédita. Como escrevi no meu livro, Lifelong Learners, “(n)a leitura, continuo a procurar uma coisa – ser influenciado, aprender algo novo, ser jogado fora do meu caminho para outro melhor”.

Marianne Wolf é uma defensora do hábito de ler. Em um podcast com o jornalista Ezra Klein, ela detalha o tipo de leitura que defende: a profunda. Nessa “categoria” de decodificação de um texto, a gente mergulha de forma substanciosa no conteúdo, compreende suas nuances e faz conexões com nossas próprias experiências e conhecimentos.

Essa habilidade é fortalecida por meio de uma leitura sustentada e focada, sem distrações. No entanto, pode ser enfraquecida por interrupções frequentes, como notificações de dispositivos digitais, que impedem o engajamento completo com o texto.

Para desenvolver (ou readquirir) esse hábito, tenho algumas sugestões simples.

A primeira é distanciar-se fisicamente do seu celular, tablet ou computador. Além de sabotar seu tempo de leitura, eles habituam seu cérebro ao prazer das microleituras superficiais. Não confie na sua disciplina ou capacidade de vencer a tentação das notificações ou bolinhas vermelhas na tela inicial. A melhor coisa é deixar em outro lugar. Tenho feito isso diversas noites por semana, e o resultado é impressionante. Não sou de contar os livros que leio por ano, mas estou impressionado com o volume de leitura desse primeiro trimestre e atribuo o resultado a essa prática tão simples.

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Outro aspecto importante é a auto-observacão. No mundo da velocidade dupla, a pressa sabota o prazer da leitura. Sempre fico atento quando percebo que estou pulando parágrafos ou palavras por pura impaciência. Paro, respiro e me pergunto se esse é o momento de ler. 

Se você já não faz isso, leia mais livros de ficção. Eles são um caminho natural para retomarmos o gosto pela leitura mais longa. Ache seu estilo, peça dica para amigos, funcionários de livraria ou nas listas especializadas. Minha única recomendação é buscar uma obra não técnica ou “pragmática”. Um livro que não tenha a pretensão de te ensinar nada – e que às vezes consegue te fazer pensar exatamente por causa disso.

Minha mãe conta que, quando ganhou o livro Grande Sertão: Veredas, teve de fazer uma promessa para o primo que havia lhe dado o presente: não desistir da leitura antes da página 40. Cumprido o combinado, ela não conseguiu mais largar o clássico de Guimarães Rosa – foi até o final e adorou. Com base nesse caso, minha última dica de leitura é esta: reserve um tempo para permitir que sua mente seja seduzida pelo conteúdo. Sinto que parte dos abandonos dos livros se dá por impaciência. Uma vez que somos fisgados pela obra, as coisas acontecem com muito mais naturalidade. Tenho utilizado a “regra das 40 páginas” em livros novos, e para mim está funcionando.

Escrever é pensar

A escrita é a outra habilidade fundamental. Não estou falando de copywriting, de saber escrever para vender algo ou convencer alguém. O desafio é muito maior do que a capacidade de estruturar ideias em uma sequência lógica. Refiro-me aqui à capacidade de reaprender a pensar.

Mark Edmundson, autor e professor da Universidade de Virginia, é outro defensor tanto da leitura como da escrita. No prefácio do livro Por Que Escrever?, ele diz: “Não tenho certeza de como, sem escrever ou participar de conversas intensas, podemos aprender a pensar. (…)  E, para pensar bem, devemos treinar a mente assim como o atleta treina o corpo. Escrever é pensar; pensar é escrever”.

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Minha letra continua feia, mas eu continuo pensando com as mãos para criar um projeto ou organizar minhas ideias. Tenho o hábito de começar artigos no papel e depois pular para a tela. Parece que minhas ideias vão sendo construídas à medida que as palavras surgem. Nosso cérebro já tem o caminho e agradece a organização dos pensamentos em frases e textos.

A dica aqui é uma só: comece um diário de aprendizado, um learning journal. Essa prática tem me ajudado muito a organizar minha cabeça e a consolidar descobertas. O caminho é simples. Separe dois ou três momentos da semana e escreva por 5 minutos o que você aprendeu nos últimos dias.

Não é um diário do que você fez, mas sim do que você aprendeu. O objetivo não é ser preciso e fazer uma lista de todo o aprendizado do período. Busque o que está mais forte a cada momento. Na minha experiência pessoal, vamos ficando melhor com o tempo. Tenho a impressão de que o cérebro vai se acostumando com a rotina da escrita e melhora o processo de selecionar e memorizar aprendizados significativos.

Eu faço meu diário à mão, em um caderno separado. Gosto do ritual de abrir meu caderno, pegar a caneta e deixar o pensamento fluir. Sempre flui. Você pode fazer isso no celular ou no computador, mas aproveite esse momento para escutar seus pensamentos. Edmundson tem outra provocação maravilhosa em seu livro: “Não conhecemos nossas opiniões até que alguém nos pergunte. Escrever é uma forma de nos perguntarmos”.

Enquanto estava escrevendo este artigo, notei que ele estava ficando maior do que os que costumo publicar aqui. Ia começar a editar e percebi a incoerência com tudo o que escrevi acima. Portanto, se você chegou até este último parágrafo, talvez você seja parte de uma minoria, pelo tempo e disposição de ler este texto mais longo.

Parabéns. E divirta-se no caminho.

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