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Edwiges Parra

Psicóloga e professora de educação executiva da FGV, especialista em saúde mental corporativa e dependências tecnológicas
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Uso abusivo de tarjas pretas: estamos fugindo da realidade?

A banalização dos medicamentos impede o processo terapêutico

Por Edwiges Parra
Atualizado em 26 Maio 2022, 09h52 - Publicado em 25 Maio 2022, 06h02

A saúde mental nunca esteve tão em evidência, mas precisa continuar tendo espaço para o debate. Num mundo pós pandêmico, algumas pessoas estão encontrando maneiras de priorizá-la e conseguem equilibrar saúde física, trabalho, relacionamentos, família, vida social, espiritualidade e mente. Mas nem todos estão nesse processo.

O Brasil carrega o título de país mais ansioso do planeta. Os dados são da Organização Mundial de Saúde, que revelou que casos de depressão e ansiedade aumentaram 25% durante o isolamento social e o enfrentamento da Covid-19. Para fazer um paralelo, antes da pandemia, mais de 19 milhões de brasileiros já conviviam com os transtornos que, mesmo com tratamento disponível, ainda são tabus para a maioria das pessoas.

Os impactos dos últimos anos são notáveis. De acordo com o estudo Global Burden of Disease, a OMS observou que jovens e mulheres foram os mais atingidos pelas doenças, e isso pode ter relação direta com a solidão, o medo de ser infectado, sofrimento pela perda de amigos e familiares, desemprego, sobrecarga profissional e preocupações financeiras. Além disso, as redes sociais podem ter contribuído para esse aumento de casos, já que foram uma das ferramentas mais utilizadas para manter a contato com as pessoas e o mundo, mas, ao mesmo tempo, oferecem apenas um recorte — em sua maior parte, feliz — da vida do outro, o que pode ter aumentado a sensação de que quem estava do outro lado da tela era o único que não ‘estava bem’ ou ‘num momento promissor’… a tal imposição da felicidade.

A busca pela solução ‘rápida’

Para lidar cada vez mais com inquietações existenciais, sofrimento, depressão, ansiedade e até mesmo os próprios sentimentos, é crescente a busca indiscriminada por medicamentos. Dados da ANVISA comprovam esse movimento, já que, no Brasil, farmácias e drogarias vendem 123,5 mil caixas por dia de remédios tarja preta destinados ao controle da ansiedade. E esse número não engloba a medicação distribuída gratuitamente pelo SUS. Apenas em 2020, 47,3 milhões de ansiolíticos foram vendidos, um aumento de 4,26% com relação ao ano anterior.

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Mas esse grande consumo de tarjas pretas é realmente necessário? O psiquiatra e neurocientista Dr. Pablo Vinicius faz reflexões no livro Antitarja Preta que também compartilho. A principal talvez seja responder a uma pergunta simples, mas que permeia a nossa existência: Quem Sou Eu? Segundo ele, tentamos fugir desse questionamento de todas as maneiras, mas a resposta a ele pode ser a chave para abrir mais portas do que podemos imaginar. Estar preparado para abrir essas portas é a questão.

O que percebo no consultório é que as pessoas estão menos propensas a sentir — dor, sofrimento, sensações, sentimentos. E que, com uma receita rápida, querem apenas amenizar sintomas, e não encarar problemas para encontrar soluções. Algumas até optam por automedicação, o que deve ser evitado. Lembrar que profissionais capacitados é que dão o diagnóstico é importante, porque eles são os únicos que podem indicar remédios. E então vem a indagação: É só um comprimidinho?

Como o próprio Dr. Pablo cita: “você toma um comprimido para dormir, e, ao acordar, mais outro para suportar o dia que vem pela frente”. Esse ciclo ininterrupto é uma fuga da realidade e o caminho para medicação sem critérios terapêuticos plenamente estabelecidos. O mundo não deixou de ser volátil, incerto, complexo e ambíguo, ele simplesmente somou-se a uma realidade cada vez mais frágil, ansiosa e inconstante. Isso, alinhado às mudanças e transformações repentinas, deixam os acontecimentos do dia a dia tão intensos que faz com que relacionemos o mundo de maneira imediata, fazendo da medicação uma pílula mágica para acabar com uma rotina desgastante e extremamente agitada, cheia de impaciência, estresse e pressão.

Passo a passo, não comprimido a comprimido

A baixa tolerância a um processo terapêutico por parte das pessoas está ligada diretamente à capacidade de superar frustrações. Os relacionamentos não mudam quando tomamos um remédio para suportá-lo. O trabalho também não se altera só porque nos anestesiamos para aguentar a pressão, o excesso de demandas e o assédio moral.

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Eu vivencio isso todos os dias com meus pacientes. Um exemplo é um caso de uma pessoa com transtorno afetivo bipolar, extremamente ativa no mundo do trabalho, que quando está em crise chega a oscilar estados de humor e ouvir vozes. Apesar da situação totalmente angustiante, o que ela busca é amenizar sintomas com o uso de medicamentos, e não o enfrentamento do problema. O remédio tem a proposta de trazer um alívio desse sintoma quando não é mais possível controlá-lo, quando causa um sofrimento psíquico e emocional, para que esse paciente possa ter as condições necessárias de fazer um acompanhamento terapêutico e, a partir desse acompanhamento, criar os recursos necessários de enfrentamento e de fortalecimento, em que se sinta mais independente, mais fortalecido e com capacidade de enfrentar o mundo lá fora.

Profissionais da saúde, médicos e psicólogos, juntamente com seus pacientes, constroem uma jornada trabalhosa e de grande valia, pois tornam a vida do indivíduo com mais capacidade no resgate da regulação das emoções, por meio de uma melhor autogestão, no encontro de si mesmo e no controle da própria vida.

Como diz o livro Antitarja Preta e compartilho da mesma ideia, “A verdadeira mudança precisa vir de dentro para fora, e o tratamento é passo a passo, não comprimido a comprimido“. O que você prefere: se alienar diante da vida ou enfrentar seus problemas e resolvê-los? Você precisa vencer seu pior inimigo, que é você mesmo. Encarar-se com toda franqueza, com toda coragem e sinceridade e perceber suas limitações. Apesar do processo difícil, isso é possível!

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