Segurança psicológica não é passe livre para dizer o que quiser
Essa falsa correlação não pode ser justificativa para microviolências, sincericídios e até potenciais práticas de assédio.

Há quem considere, erroneamente, que segurança psicológica de times é ser legal, gente boa. Há quem ache que é sobre ser complacente com performance mediana. Há quem use uma ou outra palavra de confiança, promova team building, distribua post-its coloridos e ache que isso basta.
Mas segurança psicológica não é um clima de eterna leveza no qual tudo pode ser dito sem consequência.
Também não é sobre “poder ser quem eu sou” a qualquer custo, como se os sincericídios fossem consequência de se sentir seguro para dizer o que e como bem entender. Porque o que define se um ambiente é seguro psicologicamente não é a intenção de quem fala, e sim o efeito que essa fala provoca no time.
Exemplos corrosivos confundidos com autenticidade
É quando alguém “fala umas verdades” na reunião e, depois disso, os outros param de contribuir com ideias.
É quando uma liderança, “só sendo direta”, pergunta: “mas esse erro é o fim do mundo! Quem foi que fez isso?” — e o time aprende que errar custa caro demais.
É quando alguém que sempre interrompe colegas diz “é meu jeito de ser, falo mesmo” — e, aos poucos ou mesmo de repente, a diversidade de vozes se cala e o silêncio barulhento paira no time.
Frases ou posturas assim refletem uma visão individualista, que privilegia a liberdade de expressão sem considerar o impacto no grupo, não condiz com uma visão relacional na comunicação e, consequentemente, não fortalece o grupo. Ao contrário, tais atitudes reduzem a coragem, diminuem a criatividade e geram perda de confiança.
Sim, a pressão sobre os times é grande e o dia a dia nas empresas é repleto de desafios. Mas segurança psicológica não é ausência de conflito ou sinal de permissividade. É a presença consistente de respeito e intenção construtiva nas interações — especialmente quando o cenário é desafiador e os objetivos são ambiciosos.
Comportamentos comunicativos
Como bem nos ensina Amy Edmondson, e como reforça a certificação do Instituto Internacional de Segurança Psicológica (trazida ao Brasil por Patricia Ansarah), a segurança psicológica se sustenta em comportamentos comunicativos que parecem triviais, mas exigem intenção, maturidade e governança voltada às pessoas.
Ela se expressa quando:
- Falamos sobre erros sem “caça às bruxas”, compreendendo suas causas com profundidade.
- Discutimos problemas difíceis com escuta ativa, visão contextual e sem esconder os temas espinhosos.
- Corremos riscos com apoio mútuo e clareza de processos, sem medo de punições.
- Pedimos ajuda sem receio de parecer incompetentes.
- Acolhemos a diversidade de ideias sem ironias, com respeito pelos percursos de cada um.
- Oferecemos apoio genuíno, em vez de “lavar as mãos”.
- Reconhecemos contribuições, desafios superados e conquistas alcançadas.
Portanto, segurança psicológica é um pacto coletivo de confiança, em que todas as pessoas sabem que suas vozes serão ouvidas com respeito — e que suas palavras, também, geram impacto. É sobre dizer e saber que haverá reação. É sobre se conectar com os outros, não apenas com seus próprios anseios ou verdades absolutas.
Não é uma permissão para agir sem filtro. Essa falsa correlação entre “ambiente seguro” e “liberdade para dizer o que penso do meu jeito” precisa ser desfeita antes que se consolide como justificativa para microviolências, sincericídios — e até potenciais práticas de assédio.
É possível — e necessário — comunicar de forma autêntica e, ao mesmo tempo, respeitosa. Aliás, é isso que se espera em um ambiente saudável. Porque, em um time com segurança psicológica, a coragem não é dizer tudo o que se pensa. É dizer o que precisa ser dito… seja sim, não, pode, não pode, concordo, discordo… de um jeito que fortaleça a confiança.