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Autistas no mercado de trabalho: seriam apenas mais um motivo para cotas?

Se você trabalha num ambiente com pelo menos 25 pessoas, uma delas poderá estar no espectro, e esse número pode ser ainda maior a depender da área

Por Alexandre Valverde* 7 jun 2022, 13h39
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screvi o título desse artigo com o sujeito da frase no plural pela simples razão (mas não tão óbvia) de que não podemos reduzir nós, autistas, a um grupo homogêneo, com histórias, demandas e necessidades idênticas. Falar sobre os autistas no mercado de trabalho exige essa atenção.

Algumas pessoas poderiam, num primeiro reflexo, pensar que estamos criando mais uma necessidade de cotas e que logo terão de dividir seus escritórios e ambientes de trabalho com pessoas inábeis socialmente, embotadas afetivamente, fragilizadas, que apresentam crises recorrentes de descontrole, gestual estereotipado e algum grau de deficiência intelectual. Não julguemos essas pessoas. Muitos de nós pensavam assim antes de poderem ser reconhecidos como autistas.

O autismo não é uma doença, ou seja, não tem tratamento. Não é um desvio de um eixo que estabelecemos como normalidade e cujos sintomas poderiam ser tratados a fim de devolver a pessoa ao convívio social razoável com os ditos “normais” (que preferimos nomear normotípicos, ou, por vezes, ironicamente, normopatas). O autismo é uma condição, ou seja, é um conjunto de comportamentos que caracterizam uma pessoa cujo funcionamento é expressão de determinadas especificidades ligadas ao hiper ou hipofuncionamento de cada parte do seu cérebro e como elas se conectam entre si.

Essa definição parece não separar muito quem é doente de quem não é, e é isso mesmo que é importante. O autismo é uma diferença, uma neurodivergência, e não uma doença propriamente dita. Como essa diferença pode se manifestar de múltiplas formas, falamos de uma miríade de comportamentos possíveis, daí o termo convencional atual para designarmos essa condição: Transtorno do Espectro Autista (TEA). Não gosto da palavra transtorno, mas ainda teremos de lidar com ela.

Você poderia pensar que esse texto se dirigiria somente aos empregadores, chefes e donos de empresas que precisam se adequar para “aceitar” e receber essa nova linhagem, nova esquisitice e modismo dos tempos atuais. O que embasaria esse ponto de vista seria a ideia de que, se você está em uma posição de destaque ou, se conseguiu ir tão longe na vida, é porque você tem condições para tal e não pode ser uma pessoa doente. Não poderia ser autista.

Mas, e se você não souber que você é autista? E se você não souber que os sentimentos e comportamentos que você não tem coragem de assumir fossem indicativos dessa condição? E se você já tiver conseguido destaque, belos postos de trabalho, promoções, projetos desafiadores e não souber que isso possa estar intimamente ligado às características do seu autismo?

Sim, podemos ser empregados e empregadores, startupeiros e funcionários concursados em instituições públicas, alunos e professores, chefes e chefiados. Podemos e já estamos em qualquer uma dessas posições. Você teria demitido um Bill Gates ou um Elon Musk por considerar que não sabem trabalhar em conjunto? Você excluiria um Lionel Messi do time de futebol por ele não saber olhar nos olhos como uma pessoa segura de si? Você deixaria de assistir a uma aula de pintura do Van Gogh por ele ser sofrer de crises emocionais?

Você, que trabalha no RH de uma empresa, sabe quem são os funcionários autistas? Você que é empregado, sabe o quanto seu autismo pode influenciar sua desenvoltura (ou não) no trabalho? Se você trabalha num ambiente com pelo menos 25 pessoas, uma delas poderá estar no espectro, e esse número pode ser ainda maior a depender do seu ramo de atuação.

Sim, estou exortando todas as pessoas a buscarem o autoconhecimento, pois isso pode explicar uma série de comportamentos que têm influência direta sobre a desenvoltura e execução de suas atividades de trabalho e, que quando não são conscientes, podem fazer com que a pessoa autista seja capturada por revezes emocionais intensos que podem se confundir com transtornos mentais propriamente ditos, como depressão, ansiedade, TDAH, entre outros.

Para entendermos as necessidades específicas de uma pessoa autista, podemos pensar nos três eixos principais de manifestação dessas características: hiper ou hiposensibilidade sensorial; hiper ou hipo reatividade afetiva; hiper ou hipo funcionamento cognitivo. Com uma breve descrição desses eixos já podemos entender de que maneira uma pessoa autista pode contribuir para o enriquecimento das relações e das produções no ambiente de trabalho.

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Sensibilidade sensorial

Seu ambiente de trabalho respeita as necessidades de uma pessoa neurodivergente, que não tolera ruídos repetitivos ou a cacofonia de um grupo de pessoas conversando ao mesmo tempo? O uso de um dispositivo que filtra ondas sonoras específicas pode melhorar a capacidade de concentração e diminuir a irritabilidade ao fim do dia para autistas. Além disso, a luminosidade branca excessiva pode perturbar a desenvoltura de uma pessoa do espectro, gerando irritabilidade, insônia, desconforto visual e extenuação. Imagine saber que 4% a 7% dos seus funcionários produzem menos por essa questão? Imagine saber que sua enxaqueca diária pode estar ligada a isso? Na sua empresa, instituição de trabalho ou em casa, você tem um espaço de descontração, com objetos de estimulação ou descompressão sensorial aos quais você possa recorrer em momentos de maior tensão e estresse?

Reatividade afetiva

Muitas pessoas consideram que pessoas autistas são frias, não manifestam afetos ou têm falta de empatia, porém, na maior parte das vezes, o que se processa é o contrário. A aparente falta de reação ou expressão de um afeto que seja inteligível para pessoas normotípicas é a manifestação do excesso de estímulo que uma pessoa autista pode sentir. Ela não está paralisada porque sente menos, mas porque sente demais. No ambiente de trabalho, essa reatividade aumentada fica perceptível na susceptibilidade a críticas, no efeito deletério da autoexigência excessiva sobre a autoestima, na dificuldade em entender o jogo social e na tendência a procurar e realizar seus trabalhos solitariamente, para não ter de lidar com essas dinâmicas das relações sobre as quais não consegue ter controle.

Essa reatividade afetiva aumentada também pode gerar reações de esgotamento e colapso (meltdown, shutdown e burnout) ligadas à hiperestimulação sensorial, ao excesso de demandas ou a dificuldades na lida com colegas, que podem se assemelhar, e confundir até profissionais experientes, com quadros depressivos.

Funcionamento cognitivo

Se você ainda associa o autismo à deficiência intelectual e não imagina como receber uma pessoa neurodivergente no seu ambiente de trabalho, você pode estar perdendo a oportunidade de receber no seio de sua equipe pessoas com altas habilidades cognitivas. Essas pessoas têm uma maneira de pensar não-linear, reconhecem padrões com facilidade, tendem a articular diversos elementos de repertórios variados e encontrar respostas criativas e inusitadas para problemas.

A capacidade cognitiva aumentada pode gerar uma necessidade de estimulação intelectual e sensorial constante, o que pode levar a pessoa com altas habilidades facilmente ao tédio e ao desinteresse pelo trabalho se esse se mostrar repetitivo e modorrento. A necessidade de rotinas repetitivas tem mais a ver com a organização do uso do tempo para que todas suas necessidades e intenções possam ser contempladas no período de um dia, e respeitar o estabelecimento dessas rotinas é fundamental e, em vez de ser considerada como uma rigidez, ou seja, mais um problema da pessoa autista, as rotinas devem ser pensadas como uma estratégia de solução, justamente para poder dar resposta a toda gama de interesses dessa pessoa.

O que importa para essa pessoa é o sentido que qualquer trabalho ou experiência possam ter na sua vida. A perda de tempo, o desperdício de energia e intelecto, podem gerar uma frustração muito grande e não é raro que nós, profissionais, ouçamos histórias de mudanças repentinas e frequentes de emprego quando essas condições não são atendidas.

Pessoas com altas habilidades tendem a ser geralmente mais generosas, leais, conscienciosas, têm um grande senso de justiça e retidão moral, o que são características muito interessantes para a execução de um trabalho consistente. Por outro lado, pelas dificuldades de compreensão do jogo social, estão mais propensas a sofrerem abusos (tanto nas relações de trabalho como pessoais) o que pode gerar consequências importantes no nível de estresse dessas pessoas e na sua produtividade.

O autismo não é a nova doença da moda. O autismo é uma condição que permaneceu muito tempo invisível, pois não sabíamos enxergá-lo. Nosso microscópio mental apenas começou a ser calibrado nesse sentido nos últimos 15 anos. Ainda há muito o que ser feito e o mercado de trabalho também tem seu quinhão de responsabilidade nesse movimento. Aprender a nos (re)conhecermos no espectro gera menos uma reação de vitimização e muito mais de empoderamento, pois apenas com clareza de nossos próprios contornos podemos nos respeitar, e nos fazermos respeitar, em nossas necessidades.

*Alexandre Valverde é médico psiquiatra e autista (auto)diagnosticado após adulto

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