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Como a covid-19 vai transformar a educação?

Professora discute de que maneira as tecnologias, que foram aplicadas às pressas no ensino remoto, podem ser usadas para modificar o modo como aprendemos

Por Valerie Claude Gaudillat* Atualizado em 9 dez 2020, 22h47 - Publicado em 5 nov 2020, 07h00

Estamos em um momento de debate sobre a pedagogia. E isso é uma excelente notícia. O confinamento reforçou o interesse com um duplo efeito de congelamento de imagem e de projeção. Congelamento de imagem porque a mudança para o ensino à distância aconteceu quase que instantaneamente. Projeção porque o confinamento amplia as questões sobre as evoluções e acelera a transição para uma pedagogia que será aumentada.
Primeiro porque a pedagogia de amanhã será diferente. Graças aos avanços tecnológicos, as modalidades e o ritmo de aprendizagem podem se adaptar ao perfil de cada aluno e às suas restrições, escolhas e desejos. A pedagogia perderá parte de seu lado mecânico para ser mais direcionada e, portanto, mais humana.

  • Aprendizagem customizada

    Uma crítica legítima que se pode fazer à pedagogia atual é que ela tende a permanecer generalista. Claro, nem sempre é esse o caso, mas no geral ela permanece muito focada no nível médio de um grupo de alunos. Os processos de seleção e o conteúdo dos programas de formação limitam esse viés, mas ainda há heterogeneidade dentro do mesmo grupo. Graças às novas soluções digitais, já é possível adaptar o conteúdo do ensino ao nível real do aluno. O adaptive learning (ou “pedagogia diferenciada”) não é uma novidade (o conceito é dos anos 1970), mas as ferramentas digitais trazem uma nova realidade.
    Ainda pouco presente no ensino superior, ao contrário dos cursos primários, especialmente na América do Norte e Ásia, IBM Watson, Microsoft Power BI e outras tecnologias são cada vez mais usadas ​​para ensino quantitativo com resultados significativos. No entanto, o papel do professor não foi diminuído, pelo contrário, graças a um maior empenho dos participantes e interações reforçadas.
    Isso porque a pedagogia será baseada numa abordagem sistêmica e integrativa que conta com uma ampla variedade de modalidades e de ferramentas de aprendizagem com uma combinação tecnológica. Saber variar os métodos pedagógicos aumenta a motivação dos estudantes e tem um impacto muito positivo na aprendizagem. Apresentações orais, workshops, games, encenações, aprendizagem com cases e debates são métodos que mostraram eficácia.

    Pedagogia aumentada

    Um risco a ser evitado é o de super individualizar a aprendizagem, algo tentador à primeira vista, mas prejudicial a médio/longo prazo se a importância do coletivo for minimizada. Essa nova pedagogia deve fortalecer o papel das competências comportamentais, desenvolvendo os sistemas apropriados, como a aprendizagem por e com os colegas.
    A pedagogia aumentada é um novo equilíbrio a ser aplicado entre presencial e à distância, tecnológico e não tecnológico, individual e coletivo. As ferramentas já estão amplamente disponíveis e o desafio é misturá-las com relevância de acordo com os objetivos pedagógicos.
    Mas, além da técnica e da tecnologia, a educação pós-COVID também deve abraçar as principais questões que enfrentamos, sejam elas sociais, econômicas ou ecológicas. A situação que temos vivido desde o início de 2020 não tem precedentes e é uma oportunidade para uma mudança de paradigma. Todo o nosso ensino e programas devem integrar essas dimensões e colocá-las na linha de frente nos conteúdos com uma abordagem muito transversal. Os alunos são aqueles que influenciarão fortemente nosso futuro. Cabe também a eles ser fonte de propostas para fazer evoluir a pedagogia e propor temáticas e formatos novos. A aula invertida é uma modalidade já amplamente implementada mas é possível ir muito mais longe.
    Finalmente, a dimensão psicológica deve ser melhor reconhecida. Não podemos ignorar o risco induzido pela falta de visibilidade nos próximos meses ou anos. Isso gera preocupação e ansiedade para os alunos. Reconhecer e aceitar essa nova fragilidade deve nos levar a mostrar ainda mais empatia. Também é nossa responsabilidade prepará-los para um mundo no qual a incerteza pode se tornar a norma.

    Mas como vamos fazer?

    Os desafios são tão variados nessa época caótica que seria arriscado aplicar uma única receita. É fundamental priorizar as evoluções pedagógicas em relação a cada necessidade de formação e grupo de participantes envolvendo-os. Isso não é fácil, mas torna-se essencial para a experiência.
    No final das contas, a covid-19 também pode ser vista como uma chance de realmente “aumentar” a pedagogia e dar-lhe um lugar ainda mais importante para um grande impacto tanto nos alunos como nas empresas e nas sociedades.
    *Professora na Audencia Business School, da França

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